10 de August de 2026
superdotado
Foto: Magnific

O Dia Internacional da Superdotação e Altas Habilidades, celebrado nesta segunda-feira (10), reforça a importância de ampliar o conhecimento sobre o tema, combater mitos e facilitar a identificação de pessoas com altas habilidades ou superdotação.

Em entrevista ao Acorda Cidade, a neuropsicóloga Marivânia Mota explicou que a data foi criada em 2011 justamente pela necessidade de tirar a superdotação da invisibilidade e chamar atenção para as necessidades dessas pessoas, principalmente no ambiente escolar.

Em Feira de Santana, Marivânia conta que já avaliou 19 pessoas com altas habilidades ou superdotação. Atualmente, oito são acompanhadas por ela na clínica. Segundo a profissional, o número é ainda maior, já que outros especialistas também fazem avaliações na cidade e algumas pessoas procuram atendimento em outros municípios.

O que é uma pessoa superdotada?

Segundo Marivânia, a superdotação não significa que a pessoa tenha facilidade em tudo. O destaque pode aparecer em áreas específicas, de acordo com os interesses e habilidades de cada pessoa. “O superdotado não é aquele que sabe tudo. Ele tem um desenvolvimento, uma habilidade maior em algumas áreas”, afirmou.

Marivania Mota
Marivania Mota | Foto: Ney Silva/ Acorda Cidade

A identificação é feita por meio de uma avaliação mais complexa, que não analisa apenas a inteligência. São avaliadas as habilidades, o nível e a velocidade de aprendizagem e diferentes domínios cognitivos, para traçar o perfil da pessoa.

Entre os sinais que podem chamar a atenção de pais e professores estão o desenvolvimento precoce da linguagem e da aprendizagem. Segundo a neuropsicóloga, algumas crianças começam a falar e são alfabetizadas mais cedo que o esperado.

“A gente espera que a alfabetização aconteça por volta dos seis anos para sete anos. No superdotado, com três, quatro anos eles já estão alfabetizados. Não são todos que têm esse desenvolvimento por igual, mas são destaques motores, de linguagem e aprendizagem precoce”, explicou.

Por que identificar cedo?

Para a neuropsicóloga, quanto mais cedo a identificação acontece, melhor. Segundo ela, isso permite oferecer suporte adequado à criança e evitar que ela cresça sem compreender por que se sente diferente.

“Quanto mais cedo se identificar, melhor. Porque são pessoas que vão crescendo, se desenvolvendo e não se sentem encaixadas, não encontram um lugar na sociedade, se percebem como diferentes. Isso vai criando um processo de fragilidade emocional”, disse.

Na escola, a falta de conhecimento sobre o assunto também pode gerar dificuldades. Uma criança que já sabe ler ou domina determinados conteúdos pode ficar agitada ao precisar esperar os colegas acompanharem o mesmo ritmo.

“Isso faz com que a criança tenha uma agitação, o que leva a se pensar em outros transtornos, como TDAH ou autismo. Mas são apenas crianças que estão tamponando o conhecimento e o desenvolvimento delas”, afirmou.

Desafios

Segundo Marivânia, as famílias ainda enfrentam dificuldades para encontrar acompanhamento especializado. Ela destaca que muitas escolas também não estão preparadas para atender às necessidades dos estudantes com altas habilidades ou superdotação.

O acompanhamento pode envolver outros profissionais, de acordo com a necessidade de cada pessoa. Entre eles estão psicólogo, psicopedagogo, fonoaudiólogo, psiquiatra, terapeuta ocupacional e psicomotricista. “Não é que o superdotado vai depender de todas essas especialidades. Depende da necessidade de cada um”, explicou.

“O superdotado, por si só, já tem um perfeccionismo muito grande, uma autocobrança, e isso faz com que o emocional precise de acompanhamento, de acompanhamento de forma bem sistemática e por profissionais que tenham conhecimento nessa área”, afirmou Marivânia. 

Falta de atendimento público

Em Feira de Santana, Marivânia afirma que existe uma grande procura por avaliações e acompanhamento, mas o acesso ainda é limitado para famílias que não têm condições de pagar pelo atendimento particular. “A avaliação neuropsicológica hoje particular é muito cara, então é necessário que o poder público desenvolva e crie políticas públicas para estas famílias”, disse.

Para ela, a criação de centros especializados na cidade poderia ajudar a atender essa demanda. “A demanda é muito grande. A gente até tenta fazer um trabalho social, mas não é possível atender essa demanda. Então é preciso políticas públicas, centros de apoio, principalmente em Feira de Santana”, afirmou.

Seminário

Para ampliar a discussão sobre o tema, será realizado no dia 29 de agosto um ciclo de palestras sobre altas habilidades e superdotação, no auditório da Unifacs, no bairro Santa Mônica, em Feira de Santana.

O evento contará com profissionais de outros estados e da Bahia e vai discutir as intervenções que podem ser realizadas na escola, na clínica e no meio social.

“A gente vai discutir quais as intervenções que se deve fazer na escola, na clínica, no social, principalmente para tirar a superdotação da invisibilidade”, explicou Marivânia.

Associação

Vanilde Silva de Araújo Reis, da Associação dos Superdotados de Feira de Santana, explica que a entidade representa 35 famílias em Feira de Santana e ainda enfrenta dificuldades para atender esse público. Atualmente, a associação não possui espaço físico próprio e, para ser membro, é necessário apresentar laudo de altas habilidades ou superdotação.

Segundo ela, os principais desafios envolvem a identificação, o atendimento especializado e a falta de profissionais preparados. “As pessoas acham muito bonito ter um filho assim, mas não sabem quais são os desafios que enfrentamos. As famílias precisam ter oportunidade de conversar com vários setores, principalmente relacionados à saúde e à educação”, afirma.

Vanilde também destaca a importância da data, mas defende que ela seja acompanhada de ações concretas. Para ela, Feira de Santana precisa avançar na criação de políticas públicas, na formação de professores e no mapeamento dos estudantes com altas habilidades. “Não basta reconhecer o potencial. É preciso criar condições para que ele seja identificado e desenvolvido”, disse.

Com informações do repórter Ney Silva, do Acorda Cidade

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