
A proliferação de rotinas de cuidados com a pele em múltiplos passos nas redes sociais tem gerado uma epidemia silenciosa nos consultórios dermatológicos: o boom de pacientes com a barreira cutânea completamente fragilizada.
A aplicação simultânea e sem orientação médica de ativos potentes, como ácido glicólico, ácido salicílico, retinoides e esfoliantes químicos, tem alterado o manto hidrolipídico e o microbioma da pele, desencadeando quadros de dermatite de contato, rosácea induzida, queimaduras químicas e hipersensibilidade.
Levantamentos clínicos da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) de 2026 e alertas emitidos pela Sociedade Americana de Dermatologia (AAD) apontam que cerca de 40% dos atendimentos dermatológicos focados em queixas de sensibilidade e irritação facial em jovens adultos estão diretamente associados ao uso incorreto ou à sobreposição inadequada de dermocosméticos.
Diante desse cenário de hiperconsumo, médicos vêm recomendando a adesão ao skinimalism, prática médica e comportamental focada na redução da rotina a produtos essenciais, suaves e individualizados para a restauração da barreira cutânea.
“A internet transformou o autocuidado em um consumo desenfreado e perigoso de ativos químicos. A pele humana não foi projetada para absorver dez produtos diferentes todas as manhãs e noites; ela precisa de equilíbrio fisiológico”, ressalta a médica dermatologista Ana Carolina Sumam.
“Quando a barreira cutânea é rompida, a pele perde parte de sua capacidade de reter água e de se defender de agentes externos, como poluição e bactérias. O resultado pode ser um quadro persistente de inflamação e lesões. O tratamento eficaz não está em acrescentar mais um produto milagroso, mas sim em simplificar drasticamente a rotina sob orientação médica”.
Uso precoce e contínuo de ácidos potentes compromete a pele de jovens adultos
A busca por resultados estéticos imediatos e a influência de algoritmos digitais criaram outro fenômeno preocupante: o consumo precoce de cosméticos anti-idade e ácidos por adolescentes e jovens sem qualquer indicação clínica. Dados do setor de higiene e cosméticos apontam que o Brasil segue entre os líderes mundiais no consumo de produtos de cuidados faciais por pessoas com menos de 25 anos, impulsionado por vídeos curtos de rotinas diárias.
No entanto, o uso contínuo de ácidos renovadores em peles jovens e saudáveis pode contribuir para um processo inflamatório, caracterizado por descamação contínua, ardor e o surgimento da chamada acne cosmética.
Especialistas da SBD alertam que a sensação de queimação ao aplicar produtos neutros, como um hidratante básico ou o próprio protetor solar, pode ser um sinal clínico de comprometimento da barreira cutânea pelo excesso de manipulação.
“Muitas pessoas chegam ao consultório acreditando que desenvolveram uma acne severa ou uma alergia espontânea e irreversível, quando, na verdade, estão sofrendo os efeitos diretos do excesso de produtos. Ao aplicar ácidos incompatíveis entre si ou com a própria pele, ou ao esfoliá-la diariamente, podemos comprometer sua defesa natural”, explica Ana Carolina. “A restauração da saúde cutânea exige a interrupção dos ativos potencialmente irritantes, o retorno ao básico e tempo para que a pele se recupere”, conclui.
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