24 de September de 2026
Distrito de Jaíba em Feira de Santana
Foto: Kaio Vinícius / Acorda Cidade

A série especial de materiais produzida pelo Acorda Cidade em comemoração aos 193 anos de Feira de Santana chega finalmente ao distrito de Jaíba. A localidade é marcada pela memória das famílias que ajudaram a formar a comunidade, pelas tradições religiosas e por manifestações culturais que atravessam gerações.

Para quem nasceu e cresceu em Jaíba, contar a história de lá precisa obrigatoriamente passar pela época em que a região ainda era conhecida como Fazenda Fortaleza, um tempo que teve como marca as dificuldades enfrentadas pelos primeiros moradores.

Distrito de Jaíba em Feira de Santana
Foto: Kaio Vinícius / Acorda Cidade

Fazenda Fortaleza: a origem do distrito de Jaíba

Uma dessas histórias foi contada por Marinalva Lima Neri, que quase todo mundo em Jaíba conhece como Dona Nalva. A idosa de 78 anos, que é uma das moradoras mais antigas do distrito, exibe de forma muito simpática a informação que “nasceu e cresceu no distrito” como um título.

Distrito de Jaíba em Feira de Santana
Marinalva Lima Neri, conhecida como Dona Nalva, aposentada de78 anos | Foto: Kaio Vinícius / Acorda Cidade

“Tudo começou com a fazenda que era dos meus avós, depois os meus pais ficaram tomando conta. Sempre vinham cartas de Fortaleza para aqui porque chamava Fazenda Fortaleza. Mas depois teve um prefeito que pediu para mudar de nome, aí meu avô disse: ‘Eu não posso mais que eu já estou na idade, só o meu genro’, aí o prefeito conversou com meus pais, e mudou o nome para Jaíba”, disse.

Dona Nalva contou que aos poucos a área da antiga fazenda foi dando lugar ao povoado que cresceu ao redor da propriedade e que estavam ali principalmente por conta das relações de trabalho.

“Vinha gente de vários lugares para cá, de Candeia Grossa, de Jacu e assim surgiu o povoado e foi crescendo. Aí minha avó disse assim: ‘Ah, vou fazer uma praça bem grande, porque Feira vai emendar com Jaíba e não vai demorar, e se a gente não alcançar, os netos vão alcançar’. De fato, porque eu sou neta, eu estou alcançando isso”, revelou a antiga moradora.

Distrito de Jaíba em Feira de Santana
Foto: Kaio Vinícius / Acorda Cidade

Dona Nalva contou ainda que trabalhou na roça e se aposentou pela atividade rural. Ela disse que nunca morou na parte urbana de Feira de Santana e que sua relação com Jaíba é marcada pela tranquilidade que, segundo ela, sempre caracterizou a comunidade.

“Eu falo bem daqui, converso com as pessoas e sempre digo que aqui é um lugar bom. Nunca vi ninguém ser diferente um com o outro. Aqui é um lugar bom de se viver. Todo mundo se conhece. Aqui é uma família e eu sinto muita alegria de estar aqui hoje, porque foi a minha família que construiu”, declarou Dona Nalva.

Avanços e marcos históricos

Andando pelas ruas do distrito de Jaíba e conversando principalmente com quem mora há algumas décadas no local, é fácil perceber que a chegada da energia elétrica representa um marco histórico para a comunidade.

Distrito de Jaíba em Feira de Santana
Foto: Kaio Vinícius / Acorda Cidade

Para a reportagem do Acorda Cidade, Miguel Ferreira Gonçalves, de 71 anos, morador que participou ativamente do processo que resultou na chegada da energia elétrica no distrito, revelou que, no início, muitas pessoas não acreditavam que “a luz” realmente iria chegar na comunidade.

Segundo ele, a comunidade ainda utilizava candeeiros quando começou a mobilização para levar a rede elétrica até a região. Miguel procurou o então deputado José Falcão e conseguiu o compromisso de que uma equipe seria enviada para fazer a medição necessária à implantação da rede.

Distrito de Jaíba em Feira de Santana
Miguel Ferreira, administrador distrital de Jaíba | Foto: Kaio Vinícius / Acorda Cidade

“Deus nos ajudou e ele mandou um homem vir cá. Quando chegou o carro e começou a medição, o povo ficou dizendo ‘que nada, isso é tapeação, que nada, isso aqui nunca vai acontecer, vem nada de energia para aqui‘. Até uma tia minha me disse: ‘No dia que chegar a luz aqui, eu vou de joelho pro chão até Feira de Santana’”, lembrou o morador.

Miguel contou que, após o período de estudo e medição, foi realizada a instalação dos postes e da rede, até que finalmente chegou o dia em que a comunidade recebeu energia elétrica. O morador lembra que cerca de 360 pessoas se reuniram na casa dele para aguardar a chegada do então deputado José Falcão.

“A comunidade preparou comida para celebrar o momento. Nós ficamos aguardando lá na minha casa. A gente fez uma festa, matou galinha, porco, tudo para a gente comer, porque era um momento alegre. Quando José Falcão chegou, ele pediu um candeeiro, eu dei na mão dele, aí ele pegou, pisou e no mesmo instante ligaram a canela e chegou energia. Rapaz, isso foi uma alegria”, lembrou Miguel.

Distrito de Jaíba em Feira de Santana
Foto: Kaio Vinícius / Acorda Cidade

História de lutas por Jaíba

Anos antes de atuar pela energia elétrica para a comunidade, Miguel saiu do distrito em busca de oportunidade de trabalho. O morador chegou a trabalhar no Polo Petroquímico de Camaçari. Ao retornar à terra natal, encontrou uma comunidade ainda sem serviços básicos.

Ele lembrou que, naquela época, não havia transporte adequado nem água encanada. A população dependia de cisternas e precisava percorrer longas distâncias para buscar água.

Distrito de Jaíba em Feira de Santana
Foto: Kaio Vinícius / Acorda Cidade

Para o Acorda Cidade, Miguel revelou que acabou deixando a profissão de encarregado de encanador para atuar diretamente na busca por melhorias para a comunidade. Tornou-se líder comunitário e passou a reivindicar serviços básicos para Jaíba. E se engana quem pensa que a atuação de Miguel como líder comunitário parou depois da chegada da energia.

Entre as conquistas citadas por ele para a reportagem do Acorda Cidade estão a implantação de uma linha de ônibus e a chegada da rede de abastecimento de água. O morador estima que Jaíba tenha cerca de 5 mil habitantes distribuídos em 14 comunidades.

Distrito de Jaíba em Feira de Santana
Foto: Kaio Vinícius / Acorda Cidade

Forró do Jegue: uma marca de Jaíba

Entre as tradições que ganharam força ao longo dos anos está o Forró do Jegue, uma festa que reúne moradores e visitantes em uma celebração marcada pelo clima junino, pela música boa e pela participação comunitária.

Miguel atribui a origem da festa ao morador conhecido como Roxo. Após a morte dele, segundo o entrevistado, um dos filhos passou a assumir a organização do evento, que ganhou ainda mais participação da comunidade.

“O evento reúne o pessoal, eles compram a camisa, aí todo mundo sai de camisa, todo mundo dá o licorzinho que é para ter o ponto de saída e o ponto de chegada. O pessoal bota na carroça e leva a carroça com a bebida, a sanfona e os pandeiros. O povo vai tocando e o jegue levando as bebidas”, descreveu Miguel.

Distrito de Jaíba em Feira de Santana
Foto: Kaio Vinícius / Acorda Cidade

A festa acontece uma vez por ano e, segundo os relatos, a data já sofreu mudanças, mas ainda assim mantendo sempre a relação com o período junino. Ana Paula, de 49 anos, agente comunitária de saúde e também nascida em Jaíba, afirma que o Forró do Jegue é um espetáculo por si só.

Distrito de Jaíba em Feira de Santana
Ana Paula Reis – Agente comunitária de saúde | Foto: Kaio Vinícius / Acorda Cidade

“Eu participo desde a primeira edição. É uma festa muito boa. Eu acho que tem 17 anos que o Forró do Jegue acontece. É uma festa muito boa mesmo, muito agradável, é verdadeiramente uma festa de família. Ela é uma atração diferente, e uma festa à parte aqui em Jaíba”, disse Ana Paula.

Fé e tradição

A religiosidade ocupa outro espaço importante na história da comunidade. Na sede de Jaíba, a principal referência religiosa é a Igreja do Senhor do Bonfim. Miguel contou que a igreja é antiga e que já frequentava o local quando era criança.

Distrito de Jaíba em Feira de Santana
Foto: Kaio Vinícius / Acorda Cidade

O distrito de Jaíba também mantém uma tradição ligada a São Roque, em outra comunidade. Segundo Miguel, a festa do santo católico reúne romeiros e moradores de diferentes localidades.

“Durante a festa de São Roque chega gente romeiros de tudo que é lugar para acompanhar de perto todos os acontecimentos. Nós temos 14 comunidades no distrito e todo mundo participa dessas festas. Eu mesmo já vim aqui pequenininho”, disse Miguel.

Além do Forró do Jegue e das festas religiosas, as cavalgadas aparecem como uma das manifestações mais fortes da identidade cultural de Jaíba. O líder comunitário destacou para o Acorda Cidade que os eventos são uma tradição bastante presente no distrito.

Distrito de Jaíba em Feira de Santana
Foto: Kaio Vinícius / Acorda Cidade

Já Ana Paula fez questão de lembrar da presença de ciclistas na região. Segundo ela, grupos costumam sair de Jaíba para realizar trilhas de bicicleta, enquanto outros grupos de fora chegam ao distrito para percorrer caminhos do local.

Falando ainda sobre a história da localidade, Ana Paula fez uma ressalva. Para a agente comunitária, a melhor forma de contar a história de Jaíba é a partir das experiências de quem cresceu no distrito.

Distrito de Jaíba em Feira de Santana
Foto: Kaio Vinícius / Acorda Cidade

“A minha infância acho que foi uma das melhores possíveis. Eu tive pais que proporcionaram uma bela infância. Viver aqui em Jaíba é muito bom. Minha infância foi assim um tempo maravilhoso por conta da calma e tranquilidade deste lugar. Os finais de semana aqui também são bem tranquilos, são ótimos. Aqui é ótimo para se viver. Eu acho que eu não moraria em outro local”, afirmou.

Distrito de Jaíba em Feira de Santana
Foto: Kaio Vinícius / Acorda Cidade

Desafios atuais

Ana Paula conhece de perto parte da realidade dos moradores. Como agente comunitária do distrito, ela acompanha famílias da região central e de chácaras próximas, realizando visitas domiciliares e acompanhando idosos, crianças, hipertensos e diabéticos.

A profissional também chamou a atenção para uma questão que considera importante para o futuro de Jaíba: a oferta de empregos e a infraestrutura do local.

Distrito de Jaíba em Feira de Santana
Foto: Kaio Vinícius / Acorda Cidade

“Eu acho que vivenciando o nosso dia a dia, a questão do emprego e do transporte é uma das coisas mais importantes que a gente está precisando aqui. Uma melhoria na infraestrutura do local também em si. Eu sou suspeita de falar da saúde, mas eu acho que a saúde também tem que dar uma melhorada”, disse Ana Paula.

A história de Jaíba é, portanto, formada por diferentes gerações que se cruzam na mesma comunidade. São manifestações que ajudam a preservar a identidade de um distrito que cresceu a partir de uma antiga fazenda, recebeu famílias de diferentes localidades e hoje reúne milhares de moradores.

Com informações do repórter Kaio Vinicius, do Acorda Cidade.

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