
Na manhã deste sábado (26), aconteceu, no Centro Universitário de Cultura e Arte (Cuca), em Feira de Santana, o encontro “Mães Atípicas que Inspiram – da Sobrecarga ao Empreendedorismo com Propósito”. O evento, idealizado pela Associação TEAmparar — Rede de Acolhimento e Apoio às Famílias Atípicas, reuniu profissionais e participantes para debater acolhimento, empreendedorismo e apoio à maternidade atípica.
Em entrevista ao Acorda Cidade, a presidente da associação, Elisângela Anjos, disse que a TEAmparar foi criada pois ela mesma é mãe atípica e passou por momentos de sobrecarga. Com isso, ela passou a ajudar outras mães que enfrentam essas situações.
“Desde quando eu me descobri, eu passei por todos esses movimentos de sobrecarga, de desesperança, depois eu me levantei e comecei a ajudar outras mães. Através disso eu vi que eu poderia fazer muito mais, daí surgiu a ideia de fazer a associação. A gente consegue acolher as famílias atípicas, que a gente sabe que precisam muito de rede de apoio, e a gente consegue acolher essas mães e trazer ideias para que elas possam se refazer.”
Elisângela explicou que desde então, participa de eventos, faz parcerias e buscar conhecimento para ajudar essas mulheres, pois segundo ela, “toda vez que nasce um diagnóstico, nasce uma mãe autista.”
De acordo com a presidente, a TEAmparar conta com atendimento psicológico online. Além disso, a associação está em busca de médicos e, em breve, terá uma sede própria onde serão ofertados cursos profissionalizantes para que as mães possam trabalhar dentro da realidade de cada uma.

Ela também destacou o principal desafio da maternidade atípica, que é o de conscientizar a população.
O maior desafio da gente é conscientizar a população de que ser neurodivergente não é ser diferente, que o cérebro neurodivergente pode acontecer com qualquer pessoa e essa pessoa pode se desenvolver e fazer o que ela tiver vontade, desde que ela seja muito bem estimulada.”
A presidente também chamou atenção para o papel do empreendedorismo na autonomia dessas mães. Além da renda, também faz com que as mulheres se sintam mais acolhidas e inseridas na sociedade.
A TEAmparar nasceu com o propósito de acolher mentalmente essas mães e também de oferecer cursos e oferecer empreendedorismo para elas, ensinar como elas podem caminhar além de estar só em terapias, casa, filho. Muitas delas largam o emprego, eu fui uma delas, para poder cuidar dos filhos. Então é importante que elas se descubram, se ressignifiquem.”
Atendimento Sem Rótulo
Kelly Lee é CEO da startup Atendimento Sem Rótulo, que realizou o encontro. Ela explicou ao Acorda Cidade que a startup atua especificamente para capacitar empresas públicas e privadas para que saibam atender pessoas neurodivergentes. A parceria com a TEAmparar surgiu para não só acompanhar as mães, mas também “despertar o empreendedorismo delas”.
Essa junção com a TEAmparar foi justamente para que a gente possa acompanhar essas mães e despertar o empreendedorismo delas, que são mães atípicas que muitas vezes sobrecarregadas, muitas vezes elas não conseguem sair de casa, e a gente tá proporcionando esse evento muito importante.”

Segundo ela, o protagonismo e as oportunidades podem transformar a vida dessas mulheres, pois trazem um novo significado à vida delas e das famílias.
“A partir do momento em que ela acredita nela mesma, a família vê que aquele diagnóstico não é o fim de uma vida e sim o começo de uma nova etapa onde essas pessoas podem ressignificar suas vidas no sentido de se adaptar àquela situação que elas estão vivendo com os seus próprios filhos e ver que podem dar continuidade através do empreendedorismo, através de terapias, conhecimento, grupo de apoio, que são muito importantes.”
Apesar de não saber exatamente quantas famílias atípicas existem em Feira de Santana, Kelly acredita que se trata de um número alto, por conta da grande procura por apoio tanto na TEAmparar quanto na Atendimento Sem Rótulos.
“O empreendedorismo liberta”
Um dos palestrantes do encontro foi o empresário Kleison Melo. Com o tema “A potência do empreendedorismo”, Kleison afirmou que o empreendedorismo “liberta” e “dá opções”, pois algumas mães não conseguem seguir o padrão da jornada de trabalho CLT, já que muitos dos filhos precisam de mais atenção.
O empreendedorismo vem justamente para trazer essa possibilidade de você fazer seu próprio horário, de liberdade de tempo, de liberdade geográfica. Então, o empreendedorismo, de fato, é o melhor caminho para acolher e potencializar essas mães.”

Muitas mulheres enfrentam problemas de autoestima e acabam não acreditando inicialmente no empreendedorismo. Mas, de acordo com ele, mesmo sendo desafiador empreender, “grandes coisas têm pequenos começos”.
Essa mãe precisa aprender a começar pequeno, de uma forma gradativa. E, aos poucos, esse negócio vai tomando uma proporção e ela cresce. Então ela não precisa de grandes investimentos, nem de tempo, nem de dinheiro. Ela precisa começar. Porque quando ela começa, ela vai desenvolver cada vez mais e vai ver possibilidades onde antes ela via barreiras.”
Dessa forma, Kleison salientou que o empreendedorismo cria diversos caminhos e oportunidades para essas mães, que podem atuar em várias áreas e conseguir manter os cuidados com os filhos.
“Existe a possibilidade de revenda, de construção, de um sustento melhor na verdade, porque às vezes muitas delas não conseguem benefícios. As que conseguem, os benefícios são limitados, é insuficiente para as demandas que têm de fato. Então o empreendedorismo vai abrir um mundo de possibilidade para essas mães, para essas crianças e para, querendo ou não, a reestruturação dessas famílias.”

Mães atípicas destacam dificuldades
Edivânia Araújo é mãe atípica de dois meninos de 3 e 13 anos. Ela contou ao Acorda Cidade que um dos filhos é mais agitado que o outro, o que traz problemas para fazer as atividades da escola, por exemplo. Porém, a mãe explicou que, na escola, o jovem costuma ser o primeiro a responder as perguntas feitas pelas professoras.
“O outro que já estuda é um menino que não faz atividade na escola. Já quando a professora pergunta algo na sala, ele é o primeiro a responder. Ele é muito bom nas provas, tira de letra, nunca perdeu de ano, mas é inquieto. Ele come bastante, acho que quando ele fica focado em alguma coisa que desespera ele, que ele começa a comer e ganhou muito peso por isso.”

Edivânia disse que precisou parar de trabalhar para dar atenção aos filhos, que precisam de mais cuidados. “A mãe tem que estar 24 horas ali vendo o que eles estão fazendo.”
Atualmente, ela não recebe nenhuma forma de benefício social, mas está em busca e espera conseguir esse auxílio.
Elisabete Bela, mãe solo de dois meninos atípicos, falou ao Acorda Cidade que, ainda nesta semana, descobriu que um dos filhos tem déficit de atenção, e também enfrenta dificuldades nos estudos por conta disso. Além do Transtorno do Espectro Autista (TEA), o outro filho dela foi diagnosticado com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).
“Através disso a gente vê a dificuldade maior dentro dessas crianças, porque às vezes a escola olha com olhares diferentes, vizinhos olham com olhares diferentes, até familiares. A gente às vezes não acha uma rede de apoio. Falta rede de apoio, porque devido a isso uma mãe só não dá conta. É muito sobrecarga pra gente. Cuidar de casa, cuidar de filhos e educação.”
Assim como Edivânia, Elisabete não trabalha e nem recebe benefícios sociais. Ela também ressaltou que trabalhar é um dos maiores problemas enfrentados pelas mães atípicas. Além disso, existem as complicações para conseguir os benefícios.

“A dificuldade maior das mães atípicas é o trabalho. Porque você sabe que quem tem filho atípico, pra gente trabalhar, eles não querem aceitar que, se acontecer alguma coisa com a criança, a gente se retire de uma zona de trabalho para ir dar conta. E a dificuldade também é estar correndo atrás de direitos. Porque essas crianças comem muito por conta dos medicamentos. Fora disso, eu sou uma mãe que compra medicamento com o meu dinheiro.”
Outra dificuldade é no acesso a materiais para as crianças atípicas, como brinquedos educativos específicos, que muitas vezes são caros e não estão disponíveis nas escolas. Quanto à rede de apoio, Elisabete afirmou que alguns familiares não ajudam, por conta do comportamento das crianças.
“Às vezes eles ficam agressivos, no momento que querem alguma coisa que a gente não pode dar, eles vêm com agressividade. Então, os familiares não querem ficar com ele e a gente não pode trabalhar, tem que ficar dentro de casa.”
Com informações do repórter Ney Silva, do Acorda Cidade.
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