
A água pode deixar os microplásticos quimicamente mais ativos do que se supunha até então. É o que aponta uma pesquisa publicada na revista Nature, que identificou a formação, sem interferência externa, de espécies reativas de oxigênio, moléculas capazes de causar danos a células e tecidos quando aparecem em grande quantidade.
De acordo com o levantamento, é na própria superfície das partículas, ao entrarem em contato com a água, que esse fenômeno tem início. Essa descoberta ajuda a esclarecer prejuízos ambientais e biológicos que outros trabalhos já haviam atribuído à toxicidade desses materiais.
Como partículas minúsculas de microplásticos se tornam reativas
Plásticos são considerados inertes e, por isso, usados em embalagens, garrafas e produtos do cotidiano. Quando se fragmentam em partículas microscópicas, porém, a dinâmica muda: a área exposta aumenta e cria mais possibilidades de interação química.
Essa superfície maior favorece reações que geram as moléculas reativas. O achado liga observações anteriores de danos biológicos a uma via química concreta e ajuda a explicar por que esses poluentes afetam o corpo.
June-Woo Park, que pesquisa segurança ambiental no Instituto Coreano de Toxicologia, comentou o estudo em texto divulgado pelo Science Media Centre (SMC) Espanha. Ele afirmou que pesquisas anteriores já relacionavam essas moléculas aos efeitos nocivos dos microplásticos.
Segundo Park, o diferencial do novo estudo é mostrar exatamente como elas são geradas. Park não integrou a equipe responsável pelo estudo, mas, na sua avaliação, os dados reunidos pelos autores são consistentes o bastante para embasar as conclusões.
Park apontou uma limitação importante: a análise cobriu microplásticos com menos de 5 milímetros, mas não incluiu os nanoplásticos, partículas ainda menores que preocupam ainda mais por sua capacidade de penetrar em organismos.
Compreender melhor essas reações pode ajudar a avaliar riscos reais e a formular políticas de controle dessa forma de poluição.
Se o plástico já estava na água, por que só agora descobrimos que ele é reativo?
Pesquisas anteriores já sabiam que os microplásticos causavam danos a células e tecidos e suspeitavam que as espécies reativas de oxigênio eram responsáveis. O que faltava era demonstrar como isso acontecia, ou seja, qual era o mecanismo.
O novo estudo forneceu essa explicação: mostrou que a superfície dos microplásticos em contato com a água é capaz de gerar espontaneamente essas moléculas.