6 de November de 2026
Empresária fazendo contas e planejamentos
Foto: Reprodução/ Magnific

A Bahia chega à reta final de 2026 com um alerta para os pequenos empresários: o aumento das vendas durante a Black Friday e o Natal não garante uma situação financeira confortável no início do próximo ano. Despesas com 13º salário, férias, encargos trabalhistas, impostos e fornecedores podem comprometer o capital de giro de empresas que não organizam o fluxo de caixa com antecedência. O cenário preocupa especialmente diante do avanço da inadimplência empresarial no estado.

Segundo levantamento da Serasa Experian, a Bahia registrou 334.893 empresas inadimplentes em agosto de 2026, o maior número entre os estados do Nordeste. Na região, 1,2 milhão de empresas estavam com dívidas negativadas, que somavam aproximadamente R$ 19,9 bilhões. Pernambuco apareceu na segunda posição, com 219 mil CNPJs inadimplentes, seguido pelo Ceará, com 194 mil.

Ao mesmo tempo, o empreendedorismo segue em expansão. Dados do Sebrae mostram que a Bahia registrou a abertura de 169.035 pequenos negócios entre janeiro e agosto deste ano, ocupando a sétima posição nacional. O estado também apresentou saldo positivo de 38.343 empregos formais gerados por micro e pequenas empresas entre janeiro e julho, o equivalente a 63% das vagas criadas na Bahia no período.

Para Danilo Mandarino, especialista em controladoria e finanças da Methodus Contabilidade, os números reforçam a importância de separar o crescimento das vendas da capacidade efetiva de pagamento das empresas.

“O empresário pode vender muito em novembro e dezembro e, mesmo assim, enfrentar dificuldades em janeiro. Isso acontece porque faturamento não é a mesma coisa que dinheiro disponível em caixa. Muitas vendas são parceladas, enquanto salários, impostos e fornecedores precisam ser pagos em datas específicas. Sem esse controle, a empresa corre o risco de começar o ano endividada”, explica.

O cenário nacional também exige atenção. Em agosto, o Brasil atingiu o recorde de 9,3 milhões de empresas inadimplentes, alta de 14,3% em relação ao mesmo período de 2025. As dívidas negativadas somaram R$ 244,4 bilhões. Desse total, 8,8 milhões de CNPJs eram de micro e pequenas empresas, responsáveis por R$ 211 bilhões em débitos, segundo a Serasa Experian.

A concentração das dificuldades financeiras nos negócios de menor porte preocupa porque essas empresas geralmente possuem menos reservas para enfrentar períodos de queda nas receitas ou aumento das despesas.

“Pequenas empresas costumam ter uma margem de segurança financeira menor. Quando surge uma despesa inesperada ou um cliente atrasa um pagamento, o impacto pode ser imediato. Por isso, o planejamento precisa considerar não apenas o faturamento esperado, mas também os compromissos que a empresa já assumiu e os recursos necessários para manter a operação”, afirma Danilo.

Danilo Mandarino
Danilo Mandarino | Foto: Divulgação

Cinco erros que podem comprometer o caixa

Entre os principais erros cometidos pelos empresários na reta final do ano está a falta de reserva para despesas trabalhistas e tributárias. O pagamento do 13º salário, os encargos relacionados à folha e os impostos precisam ser previstos com antecedência, evitando que recursos destinados a essas obrigações sejam utilizados em outras atividades.

Outro problema frequente é misturar as finanças pessoais dos sócios com o dinheiro da empresa. Retiradas sem planejamento reduzem o capital de giro e dificultam a identificação do resultado financeiro real do negócio.

“É importante que o empresário tenha uma retirada definida e mantenha as contas pessoais separadas das contas da empresa. Quando ele utiliza o caixa do negócio para cobrir despesas particulares sem nenhum controle, pode acabar comprometendo recursos necessários para pagar funcionários, fornecedores e impostos”, orienta o especialista.

O terceiro erro está na falta de acompanhamento dos valores a receber. Durante as vendas de fim de ano, muitas empresas ampliam o parcelamento para atrair clientes, mas não avaliam o intervalo entre a venda e a entrada efetiva do dinheiro.

A compra excessiva de mercadorias também pode representar um risco. Na expectativa de aumentar as vendas durante a Black Friday e o Natal, comerciantes podem ampliar os estoques além da demanda real, comprometendo recursos que seriam necessários para as despesas de janeiro.

O quinto erro é deixar o planejamento do início do ano para depois das festas. Mesmo quando há redução no movimento comercial, despesas como aluguel, energia, folha de pagamento e contratos com fornecedores continuam chegando.

“Janeiro precisa entrar no planejamento ainda em outubro ou novembro. O empresário já conhece boa parte das despesas que terá no início do ano e pode estimar quanto precisará manter em caixa. Esperar as vendas de dezembro terminarem para fazer essa conta é assumir um risco desnecessário”, destaca Danilo.

O especialista também chama atenção para as empresas que utilizam empréstimos ou antecipação de recebíveis para cobrir despesas recorrentes. Embora essas alternativas possam ajudar em necessidades pontuais de capital de giro, os custos financeiros precisam ser considerados para evitar o agravamento do endividamento.

Planejamento financeiro para 2027

Para reduzir os riscos, Danilo Mandarino recomenda que os empresários organizem uma projeção de fluxo de caixa para, pelo menos, os três meses seguintes. O levantamento deve incluir todas as entradas previstas, despesas fixas, pagamentos a fornecedores, obrigações trabalhistas e tributárias e valores que ainda serão recebidos de vendas parceladas.

A orientação também é avaliar diferentes cenários de faturamento. Empresas que dependem do movimento de fim de ano devem calcular como o caixa se comportaria caso as vendas fiquem abaixo do esperado.

“O empresário precisa trabalhar com números, não apenas com expectativas. Uma projeção simples, que mostre quanto vai entrar, quanto precisa sair e em quais datas, já permite identificar possíveis dificuldades antes que elas aconteçam. Com essas informações, fica mais fácil negociar prazos, controlar despesas e decidir se existe espaço para novos investimentos”, explica.

Outro cuidado é acompanhar a rentabilidade das promoções. Descontos elevados podem aumentar o volume de vendas, mas reduzir a margem de lucro quando não são considerados custos com mercadorias, impostos, taxas de cartão, fretes e comissões.

Para empresas que já enfrentam dificuldades financeiras, a recomendação é identificar as despesas prioritárias, renegociar compromissos quando possível e evitar assumir novas dívidas sem uma previsão realista de pagamento.

Segundo Danilo, o período de maior movimento comercial deve ser aproveitado para fortalecer a situação financeira da empresa, e não apenas para elevar o faturamento.

“O objetivo não é simplesmente vender mais no Natal. É garantir que a empresa consiga pagar seus compromissos, manter os funcionários e continuar funcionando em janeiro e fevereiro. Um bom resultado de fim de ano precisa se transformar em equilíbrio financeiro para os meses seguintes”, conclui.

Siga o Acorda Cidade no Google Notícias e receba os principais destaques do dia. Participe também dos nossos canais no WhatsApp e YouTube e do grupo no Telegram.