
Em meio às celebrações do Novembro Negro, a fé, a ancestralidade e a resistência do povo de terreiro ganharam as ruas de Feira de Santana neste domingo (8). Vestidos de branco, representantes de religiões de matriz africana participaram da primeira edição da Caminhada Tapete de Oxalá, realizada na Avenida Fraga Maia, com o propósito de celebrar o Axé e chamar a atenção para o respeito à diversidade religiosa.
Com o tema “Uma cidade unida pelo Axé”, a iniciativa foi organizada pelo Colégio de Umbanda Sagrada Casa do Axé, com a participação do Centro de Umbanda Pai Xangô e do Centro de Umbanda Ogum Cachoeira. Mais do que um ato de fé, a caminhada também foi uma manifestação pública contra o racismo e a intolerância religiosa.
Mãe de Santo e fundadora da Casa do Axé, Jayana Ribeiro explicou que a proposta começou a ser construída há cerca de dois anos. Segundo ela, ainda existe muito desconhecimento sobre as religiões de matriz africana, o que alimenta a discriminação. A caminhada foi pensada justamente para aproximar a comunidade dessas tradições e mostrar o trabalho desenvolvido nos terreiros.

“Essa caminhada não é só da Umbanda, mas das religiões de matriz africana. Para a gente dizer não ao preconceito, as pessoas têm muito preconceito em relação à religião por falta de conhecimento e a Umbanda é uma religião que cultua Deus, os orixás são divindades desse próprio Deus e que a gente atua com amor, na caridade, ajudando as pessoas que batem as nossas portas e precisam de um auxílio espiritual”, afirmou.
A Casa do Axé existe há dez anos e desenvolve ações de assistência espiritual e orientação à comunidade. De acordo com Mãe Jayana, são realizados atendimentos semanais que chegam a aproximadamente 150 pessoas. Ela também destacou o crescimento da procura, principalmente entre os jovens, por espaços onde possam vivenciar a espiritualidade.

“Esse atendimento que é feito não só na minha casa, mas em outras casas de Axé aqui de Feira de Santana, tem demonstrado esse crescimento das religiões de matriz africana, onde as pessoas têm buscado estar num ambiente que eles se sentem bem e que podem comungar da sua fé, então a caminhada é uma forma da gente juntar esse povo de Axé todo, das religiões de matriz africana e mostrar para a cidade que o Axé também existe na cidade, que precisa de respeito e que a gente está aqui para fazer o bem sempre”, afirmou ao Acorda Cidade.
Segundo Mãe Jayana, Feira de Santana tem mais de 30 terreiros.
Oxalá: o orixá da fé, da paz e da criação
A escolha de Oxalá como homenageado da caminhada está relacionada à representação da fé e da paz na Umbanda. O branco, por sua vez, carrega um significado que vai além da paz: representa luz, purificação, igualdade e energia positiva. Para Jayana, levar o Axé à avenida é uma maneira de reafirmar que as religiões de matriz africana fazem parte da cidade e merecem ocupar os espaços públicos com liberdade e respeito.
“Ele representa a paz, a fé, é um orixá que sustenta a religião da Umbanda dentro desse panteão de muitos orixás e ele é sincretizado inclusive com Jesus, no sincretismo ele é visto como o orixá da fé assim como Jesus também é esse símbolo de fé e a gente traz para as pessoas, para a gente dizer não a intolerância religiosa e que qualquer caminho que a gente busque a gente sempre vai encontrar e vai nos levar para Deus, que é a fonte criadora de tudo que existe. Eu sempre falo que cada um vai buscar um caminho diferente, mas todos vão levar a mesma fonte que é Deus”, explicou Mãe Jayana.

A dirigente explica ainda que, dentro dos terreiros, todos compartilham a mesma condição de irmandade. As pessoas ficam descalças e vestem branco, independentemente de classe social, cor ou condição financeira. É uma maneira de reafirmar que, diante da espiritualidade, ninguém está acima de ninguém.
A gente fica descalço e todo mundo usa branco. Todos nós somos iguais, do lado de fora não importa a sua condição social, a sua cor, suas escolhas, mas dentro do terreiro todo mundo usa branco como uma forma de purificação, de energia positiva, dessa paz que a gente precisa agregar, então trazer o branco para a avenida é uma forma da gente mostrar essa leveza que a religião tem. As pessoas não sabem que lá na Umbanda a gente cultua Deus como a fonte criadora, como a origem de tudo, e às vezes tem algum preconceito, algum entendimento equivocado do que é a religião e daquilo que a gente faz dentro dos terreiros. Então hoje com a internet a gente tem disseminado muito, mostrado para a população que a gente pratica o bem, que a gente trabalha com amor e que faz a caridade ajudando a população”, explicou ao Acorda Cidade.

Em nome de Oxalá
Para Simone Oliveira de Lacerda, integrante da Casa do Axé há dois anos, participar da caminhada também é uma forma de fortalecer a comunidade religiosa e mostrar à sociedade que o povo de terreiro é de paz.
“Enquanto filha da Casa do Axé, eu acho que a gente tem que somar forças e levar para a comunidade feirense e para toda a comunidade baiana, que somos da paz, e Oxalá nos traz isso”, declarou a empresária.
Natural de Santo Amaro, onde vive na zona rural, Simone conta que sua busca pela espiritualidade começou ainda muito jovem. Antes de chegar à Casa do Axé, passou por outros espaços religiosos, inclusive kardecistas, até receber a indicação de conhecer o terreiro em Feira de Santana. Há dois anos, encontrou ali um lugar que hoje considera sua segunda casa.

“Fui levada por várias mãos. Eu sempre tive, desde muito nova — eu tenho 36 anos —, mas desde muito nova eu sempre busquei a espiritualidade.” Simone também falou sobre o lugar que a religião ocupa em sua vida: “Tudo, é meu alicerce. É quem me auxilia no sobe e desce da vida.”
Axé, ancestralidade e resistência negra
Realizada durante o Novembro Negro, a iniciativa ganha um significado especial em um mês dedicado à memória, à resistência e à valorização da população negra. As religiões de matriz africana preservam parte importante dessa história, mantendo vivos saberes, tradições e formas de expressar a espiritualidade transmitidas entre gerações do povo afro-brasileiro.
O ato também antecede o dia 15 de novembro, data em que se celebra o Dia Nacional da Umbanda, instituído pela Lei nº 12.644, de 16 de maio de 2012.
Com informações do repórter Ed Santos, do Acorda Cidade.
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