

O ex-jogador Noroel Miranda, de 78 anos, ídolo do Fluminense de Feira e campeão baiano de 1969, enfrenta hoje uma de suas batalhas mais difíceis, fora dos gramados. Internado há cerca de sete meses no Hospital Emec, em Feira de Santana, o idoso aguarda a implantação de um serviço de home care em sua residência, no município de Irará, a cerca de 50 km de Feira. De acordo com a família, o Planserv (Plano de Assistência à Saúde dos Servidores Públicos Estaduais) se nega a cumprir uma decisão judicial que determina a assistência domiciliar.
O caso de Noroel se junta a outras denúncias recentes mostradas pelo Portal Acorda Cidade envolvendo o Planserv na região, como a do professor Edilson Veloso, que perdeu a mãe após a negativa do serviço, e o de uma criança de nove anos de idade, com microcefalia, que também aguarda o mesmo tipo de atendimento.
Estado de saúde e desgaste familiar
Noroel foi internado em julho de 2024 com uma infecção pulmonar e, durante o tratamento, sofreu um AVC que deixou sequelas graves. Atualmente, ele utiliza traqueostomia e sonda gastrostômica, dependendo de cuidados constantes. Após 60 dias na UTI, ele permanece em um apartamento há mais de quatro meses, onde, segundo os médicos, corre risco de infecção hospitalar.
“Ele é um paciente com perfil que precisa ter justamente atendimento em casa por precisar ter um atendimento mais humanizado, mais acolhedor”, disse a filha do ex-jogador, a comunicóloga Maryana Silva de Carvalho, em entrevista ao Acorda Cidade.
A rotina da família tem sido marcada por desgaste físico e emocional. Morando em Irará, os familiares se revezam para acompanhar o paciente em Feira de Santana. Maryana, o irmão e a mãe, de 72 anos, dividem os dias da semana no hospital.
“A gente se reveza, eu, minha mãe, meu irmão. A gente fica dias seguidos, porque para a gente estar se locomovendo, arcando com transporte, é complicado. Às vezes a gente paga um cuidador também, porque tem nossas vidas, o trabalho, enfim”, desabafa a filha.
De acordo com a família, a falta do ambiente familiar tem afetado também o estado emocional do ex-atleta.
“Ele não falava, mas a gente lia os lábios e ele manifestava muito o desejo de ir pra casa. Ele falava, quero ir pra casa, a gente entendia pelos lábios, porque ele não está falando devido à tráqueo. E falava casa direto. E a questão psicológica que acaba interferindo. Então hoje ele não está mais interagindo, ele está depressivo”, afirmou a filha ao Acorda Cidade.
A barreira judicial
O pedido de home care foi feito ainda em setembro. Apesar de possuírem uma liminar favorável, a família afirma que o Planserv ignora a ordem judicial, preferindo arcar com multas diárias a efetivar o serviço.
Maryana relata que, apesar de o Planserv ter enviado empresas para avaliação, não houve retorno efetivo. “O Planserv mandou algumas empresas aqui para avaliar a situação dele, mas não deram assistência e não deram devolutiva. Com isso entramos com a ação judicial, que está sob efeito liminar, para poder dar essa assistência.”
Mesmo após a concessão da liminar, o serviço não foi implantado. “É assim que entramos com a liminar, cinco dias depois eles se manifestaram, inclusive ligaram para mim, para poder procurar saber a situação. Falaram, inclusive, que estavam cientes dessa liminar e aí mandaram uma empresa de home care aqui avaliá-lo. Essa empresa veio, avaliou, mas até hoje não obtivemos nenhuma devolutiva.”
Enquanto isso, segundo a família, o plano paga multa diária, mas segue sem cumprir a decisão. “Hoje o Planserv paga a multa diária, mas não se manifestou sobre. E, assim, a gente não quer nem a multa, a gente quer o direito assistido que ele tem de ter um tratamento acolhedor e humanizado. Estamos entrando com outro recurso, outra petição.”
História de dedicação ao Estado
Noroel Miranda possui uma trajetória de serviços prestados à sociedade baiana. Além da carreira no futebol, foi gerente da Embasa por muitos anos e juiz de paz em Irará por mais de oito anos.
“Meu pai foi um homem que trabalhou em prol do Estado por muito tempo. Sempre pagou o plano de saúde para, na hora que mais precisa, ter realmente um atendimento que ele tem direito e não ser assistido. Isso causa até revolta. Em Irará ele é uma pessoa muito querida, muito solícita, generosa e trabalhadora. Então não vejo por que o Planserv, um plano que é do Estado, justamente voltado para o trabalhador, está com esse descaso. E o descaso maior, o que mais revolta a gente, é que não tem uma manifestação de fato, concreta, uma devolutiva de explicar o porquê de não assisti-lo.”
A família faz um apelo às autoridades para que a decisão judicial seja cumprida e que Noroel Miranda possa receber o atendimento domiciliar a que tem direito.
“Eu quero fazer um pedido, um apelo realmente às autoridades responsáveis pelo Planserv, que olhem esse caso, que tenham sensibilidade, porque a gente está clamando realmente, porque o psicológico de todos nós já está muito afetado”, acrescentou Maryana Carvalho.
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