

No passado, muitas pessoas saiam do campo e mudavam-se para a cidade. Hoje, porém, o ruído, a pressa e o stress que afetam a qualidade de vida, levam os habitantes a deixarem o asfalto e reencontrar o verde, o silêncio e a tranquilidade do interior. Como consequência, surgiu o turismo ecológico. Em vez de locais agitados, procura-se a simplicidade da natureza, que é medicina para o corpo e para o espírito.
PASSANDO alguns dias de férias pelo interior, pai e filho – doze anos – fizeram, nas primeiras horas da manhã, uma caminhada pela mata. Os dois curtiam o encanto da natureza: pássaros com seus cantos diversificados, fontes brotando da terra, flores ainda banhadas pelo orvalho, vento balançando as folhas das árvores, frutas maduras e a gratuidade do passeio e da conversa entre os dois.
ALÉM do canto dos pássaros, perguntou o pai, você está ouvindo alguma coisa? Estou ouvindo o barulho de uma carroça, esclareceu o filho. Isso mesmo assegurou o pai: uma carroça vazia… Passados alguns minutos, a carroça passou por eles e efetivamente estava vazia. Intrigado, o filho quis saber: pai, como você sabia que a carroça estava vazia, mesmo antes de vê-la? Foi muito fácil adivinhar, esclareceu o pai, por causa do barulho.
NOS CAMINHOS da vida vale esse mesmo indicativo. Quase sempre o muito barulho esconde o vazio interior. Isso vale para todas as pessoas. O pai que muito grita com os filhos e evita o diálogo, tem muito a ver com a carroça vazia. O pregador moralista, o professor enérgico demais, o político que se autopromove assemelham-se a carroça vazia. A figura da carroça vazia se aplica também a quem está continuamente falando de suas realizações, esperando os elogios, títulos e promoções.
OS PRIMEIROS prejudicados pela ausência do silêncio somos nós mesmos porque acabamos não nos escutando mais. Pior ainda, teremos medo do silêncio que nos coloca frente a frente com nossa consciência e, não conseguiremos refletir sobre a vida e as decisões que tomamos. Por isso, vem a depressão, o sentimento destrutivo, o medo de estarmos sozinhos no mundo e de não termos quem se preocupe conosco. Assim, podemos nos enganar pensando que o barulho seja o caminho para fugirmos de nós mesmos.
PORTANTO, o silêncio possibilita o encontro conosco, com os outros, com o universo e com Deus. Quem passa por essa experiência, sentirá a passagem de Deus por sua vida e terá melhores oportunidades de crescimento pessoal, profissional e espiritual. Certo dia, o próprio Jesus, depois de muitas pregações, disse aos apóstolos: “Vinde, vós sozinhos para um lugar deserto e descansai um pouco” (Mc 6,30-31).
Dom Itamar Vian
Arcebispo Emérito
di.vianfs@ig.com.br
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