

Em um dia os filhos querem dormir agarrados ao ursinho, no outro pedem privacidade para tudo. De repente, a criança doce deu lugar a um adolescente que busca incansavelmente por independência, a qual passa mais tempo com os fones de ouvido e que, vez ou outra, questiona os limites da casa. A adolescência chega deste jeito mesmo: silenciosa, intensa, cheia de contradições; bagunçando a rotina, a casa e emoções da família inteira.
Segundo educadores, essa é uma fase de intensas transformações exige dos adultos – mãe, pai ou responsáveis, que muitas vezes se sentem perdidos e se perguntando se estão fazendo certo – uma dose extra de paciência, acolhimento, limites claros, carinho e, principalmente, uma mudança na forma como se conectam com os filhos em crescimento.
Contudo, a adolescência abre espaço para conversas mais profundas, descobertas, novos olhares e vínculos que se transformam e amadurecem. Para ajudar nessa travessia, quatro especialistas reuniram oito dicas afetuosas para aproximar adolescentes e seus responsáveis.
1 – Escute seu filho e leve a sério seus sentimentos
Escutar de verdade um filho adolescente é mais do que ouvir palavras, é abrir espaço para que ele se expresse sem medo de ser julgado. Muitas vezes, os pais se esquecem de que também já passaram por essa fase no passado, e acabam romantizando a própria adolescência, lembrando apenas dos momentos bons e apagando as emoções e dores típicas desse período. No entanto, para o jovem que está vivendo a fase, as emoções são intensas, genuínas e profundamente reais.
Quando os adultos acolhem esses sentimentos com respeito, tentando compreender o ponto de vista do filho em vez de corrigi-lo imediatamente, criam um ambiente seguro no qual o jovem pode confiar, se abrir e aprender a navegar em suas próprias tempestades internas. A escuta com interesse verdadeiro, a conexão olho no olho e procurar a identificação da necessidade que está por trás do que o filho está contando, são passos fundamentais de uma linguagem empática. Muitas vezes os jovens não querem soluções imediatas nem conselhos, mas sentir que são compreendidos, importantes e acolhidos.
“É nessa escuta atenta, sem interrupções, pressa ou julgamento, que o diálogo encontra espaço para florescer”, afirma a psicóloga, pedagoga e gestora da Escola Internacional de Alphaville – EIA (Barueri/SP), Ana Claudia Favano.
2 – Crie e explique as regras
Estabelecer limites claros é essencial para oferecer segurança emocional aos adolescentes. Um exemplo simples é a rotina de estudos: em vez de decretar que “o celular está proibido até terminar tudo”, o adulto pode se sentar com o adolescente, negociar horários possíveis e reforçar a importância do acordo. “A regra precisa existir, mas acompanhada de empatia; e os filhos precisam entender o porquê da existência de cada uma, que valor a sustenta, dessa forma haverá compreensão de fato das consequências aplicadas a uma eventual quebra de confiança, as quais, necessariamente precisam estar relacionadas diretamente ao ato, pois não faz sentido proibir o filho de ir à piscina se ele bateu em um colega no condomínio”. Nesse caso, deve deixar de conviver com os colegas do condomínio por um tempo até que retome a consciência dos seus atos.
Explicar o porquê das regras é importante e esse entendimento pode ser construído em pequenas conversas do dia a dia. Se a regra é não dormir tarde durante a semana, vale explicar que o sono interfere diretamente na memória, no humor e até no desempenho escolar. Se o combinado é não ir sozinho a determinadas festas, faz sentido contextualizar questões de segurança e responsabilidade. Quanto mais o jovem enxerga lógica e cuidado por trás das orientações e combinados, menor é a resistência, e maior é o vínculo com os responsáveis.
Os pais devem evitar o autoritarismo, com imposição de regras sem abertura para diálogo; nem a permissividade, que deixa o jovem sem direções. Combinados precisam ser fortalecidos e bem determinados. “A firmeza com gentileza deve ser prioridade e referência, e traz acolhimento. As duas coisas precisam caminhar juntas”, explica Ana Claudia.
3 – Aceite que seu filho vai preferir os amigos
Na adolescência, os amigos ganham um protagonismo que, para muitos pais, pode parecer brusco ou até doloroso. De repente, o filho que queria passar o sábado inteiro em casa prefere a companhia do grupo da escola, do time ou da internet. Isso não significa rejeição familiar, mas um movimento natural do desenvolvimento, em que o jovem testa sua identidade fora do núcleo familiar.
“Os vínculos de amizade, no âmbito da experiência escolar, desempenham papel central na formação emocional e relacional dos estudantes”, explica a coordenadora pedagógica da Escola Bilíngue Aubrick (São Paulo/SP), Renata Lima. “É nesse espaço que o adolescente aprende a negociar posições, conviver com a discordância, construir pertencimento e elaborar, de forma progressiva, as frustrações próprias da vida em grupo.”
Para os pais, a dica é acolher essas novas escolhas sem ironias ou cobranças e, sempre que possível, mostrar interesse pelas amizades do filho: perguntar quem são, como se conheceram, o que gostam de fazer juntos. Essa aproximação, sem invasão, faz com que o jovem entenda que há espaço para crescer com os pais, e não longe deles. Do contrário, o jovem se fecha e passa a não apresentar os amigos, nem compartilhar as atividades e descobertas que faz com eles.
4 – Jamais faça ameaças ou comparações
Quando o clima esquenta e o adolescente testa os limites, é comum que, na tentativa de retomar o controle, pais recorram a frases duras como “se continuar assim, vai perder tudo” ou “olha como seu irmão é diferente”. No entanto, ameaças e comparações fragilizam a relação, aumentam a sensação de inadequação e fazem o jovem se fechar.
A orientação é substituir o impulso punitivo por conversas firmes e objetivas, com foco no comportamento, não no indivíduo. Em vez de comparar, descreva o impacto do que aconteceu. “Quando você não avisa que vai se atrasar, eu fico preocupado e não sei se você está seguro”. Esse tipo de comunicação, direta e sem humilhação, ensina responsabilidade sem corroer a autoestima. “Estratégias fundamentadas na ameaça tendem a gerar obediência pontual, mas fragilizam os vínculos de confiança no processo educativo”, reforça Renata.
5 – Seu filho talvez não seja tão especial
Apesar de parecer uma verdade dura de aceitar, reconhecer que o filho é um ser humano comum, com qualidades e limitações, é um presente emocional. Muitos pais, na tentativa de proteger, acabam elogiando de forma exagerada ou criando expectativas irreais em relação aos filhos. O problema é que o adolescente, ao notar que não é perfeito, pode se sentir fraudulento ou insuficiente.
A dica é celebrar conquistas reais, valorizar o esforço e acolher as dificuldades sem supervalorizar ou minimizar. Se ele receber uma nota baixa, por exemplo, não é necessário dizer que ‘a prova estava injusta’ ou que ‘o professor pegou pesado’. Em vez disso, vale perguntar como foi o processo, o que dificultou e o que pode ser feito diferente na próxima vez. “Quando os pais reconhecem a realidade, o adolescente aprende a reconhecer a própria força e a lidar com frustrações sem desmoronar”, diz a pedagoga e diretora pedagógica do Brazilian International School – BIS (São Paulo/SP), Audrey Taguti.
6 – Deixe que o jovem erre e aprenda com os erros
Errar faz parte da construção da autonomia. Ainda assim, muitos pais, por medo do sofrimento do filho, tentam resolver tudo: ligam para professores, intervêm em brigas de amigos, organizam tarefas atrasadas. Essa proteção excessiva, embora bem-intencionada, impede que o adolescente desenvolva responsabilidade e senso de consequência.
Uma boa prática é permitir pequenos erros seguros: esquecer o material da escola, perder o horário da lição, atrasar-se para uma atividade. São situações incômodas, mas que ensinam mais do que longas explicações. O papel dos pais é estar por perto, ajudar a refletir e ajustar a rota, não evitar todo obstáculo. “A autonomia nasce quando o jovem percebe que é capaz de resolver problemas reais. Lembre-se de que a adolescência é uma fase de mudanças e desafios, mas com amor, paciência, compreensão e apoio, a família pode ajudar o seu filho a navegar por essa fase com sucesso”, afirma Audrey.
7 – Tenha tempo de qualidade — que seja simples, mas constante
Com agendas lotadas e rotinas corridas, muitas famílias acreditam que tempo de qualidade precisa ser um evento especial. Mas, para o adolescente, momentos curtos e consistentes podem ser mais valiosos do que eventos grandiosos. Cozinhar juntos uma vez por semana, caminhar até a padaria, assistir a um episódio de série, ou revisar horários da semana no domingo à noite são situações cotidianas, que podem reforçar a relação de apoio e escuta.
É fundamental que esse tempo seja sem distrações: sem celular, sem pressa, sem julgamentos. “Quando o adulto se faz presente de fato, mesmo que por 15 minutos por dia, o adolescente entende que é visto e importante”, destaca Lívia Martins, diretora pedagógica do colégio Progresso Bilíngue. Esses rituais fortalecem o vínculo e criam uma memória emocional que acompanhará o jovem pela vida adulta.
8 – Busque apoio: você também está aprendendo
A adolescência não é um desafio apenas para os jovens; é também um período de transformação para os adultos. Muitos pais se cobram em serem perfeitos e sentem culpa ao perder a paciência ou não saber o que fazer diante de uma crise emocional do filho. Por isso, buscar apoio é um ato de coragem, não de incompetência.
Conversar com outros pais, buscar apoio da escola, procurar orientação profissional, ler sobre o tema ou trocar experiências com quem já lidou com essas situações pode trazer novas perspectivas e aliviar a pressão. “Pais que se cuidam conseguem cuidar melhor”, afirma Lívia. Ao reconhecer seus limites, o adulto se torna um exemplo vivo de saúde emocional para o adolescente, mostrando que ninguém precisa enfrentar a vida sozinho.
As especialistas
Ana Claudia Favano é fundadora e atual gestora da Escola Internacional de Alphaville. É psicóloga; pedagoga; educadora parental pela Positive Discipline Association/PDA, dos Estados Unidos; e certificada em Strength Coach pela Gallup. Especialista em Psicologia da Moralidade, Psicologia Positiva, Ciência do Bem-Estar e Autorrealização, Educação Emocional Positiva, Convivência Ética e Dependência Digital. Dedicada à leitura e interessada por questões morais, éticas, políticas, e mobiliza grande parte de sua energia para contribuir com a formação de gerações comprometidas e responsáveis.
Audrey Taguti acumula 41 anos de experiência e trabalho em Educação. É formada em Magistério e Pedagogia, possui pós-graduações em Psicopedagogia e Bilinguismo e é especialista em Alfabetização. É diretora pedagógica do Brazilian International School – BIS, de São Paulo/SP desde a fundação do colégio, em 2000.
Lívia Martins é pedagoga formada pela Unicamp, com MBA em Gestão Escolar pela USP-Esalq e especializações nas áreas de Tecnologia Educacional (USP-ICMC) e Neurociência e Psicologia Positiva (PUC-PR), Lívia tem mais de 10 anos de experiência em sala de aula como professora. Em 2015, iniciou sua trajetória na gestão, atuando em diferentes papéis. É diretora pedagógica das unidades Progresso Bilíngue.
Renata Lima é coordenadora do Ensino Médio, leitora ávida e entusiasta da cultura, com mais de 20 anos de experiência na educação básica e internacional. Ao longo de sua trajetória, liderou projetos acadêmicos que articulam currículo, competências socioemocionais e experiências de aprendizagem de excelência conectadas à vida real, à cultura popular e ao território. Atuou em instituições de renome, nas quais desenhou e implementou programas inovadores voltados ao protagonismo juvenil, à dupla certificação e à formação integral.
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