27 de January de 2026
Clériston Andrade Motociclista fica gravemente ferido após colisão com carro na Avenida Maria Quitéria - acidente de moto
Ilustrativa | Foto: Ed Santos/Acorda Cidade
Apesar de a unidade receber pacientes de 126 municípios, 60% das vítimas surgiram a partir de acidentes em Feira de Santana.
Clériston Andrade Motociclista fica gravemente ferido após colisão com carro na Avenida Maria Quitéria - acidente de moto
Ilustrativa | Foto: Ed Santos/Acorda Cidade
Foto: Ed Santos / Acorda Cidade

Ao longo de todo o ano de 2025, o Hospital Geral Clériston Andrade (HGCA) realizou o atendimento de 3.773 pessoas vítimas de acidentes de trânsito. O dado revela um crescimento de quase 7% em relação ao ano anterior. Apesar de a unidade receber pacientes de 126 municípios, 60% das vítimas surgiram a partir de acidentes em Feira de Santana.

Segundo os dados oficiais, o Clériston realizou o atendimento de 2.980 motociclistas, o que indica que a categoria corresponde a 79% das vítimas de acidentes de trânsito atendidas pela unidade hospitalar. Em Feira de Santana, os locais com maior número de ocorrências foram as avenidas Eduardo Fróes da Mota (Anel de Contorno) e João Durval.

Foto: Imagem / Divulgação HGCA

Esses dados foram apresentados na manhã desta terça-feira (27), durante a primeira edição do Fórum sobre Violência no Trânsito, promovido pela Câmara da Mulher Empresária de Feira de Santana. O evento contou com a participação de representantes do HGCA, da Superintendência Municipal de Trânsito (SMT) e de diversos outros órgãos.

Cristiana França, diretora do HGCA | Foto: Ed Santos / Acorda Cidade

“Inegavelmente, o maior número de pacientes que nós atendemos são os chamados pacientes politraumatizados. Chegam outras patologias, muitas vezes alvejado por arma de fogo, arma branca, mas a grande maioria são pacientes vítimas de acidentes de trânsito. Hoje o Clériston é um hospital extremamente denso, e nós devemos chamar atenção para isso”, disse Cristiana França, diretora do HGCA.

Um ralo no orçamento

No Brasil, a violência no trânsito segue sendo um dos principais desafios enfrentados pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Somente em 2024, mais de 25 mil pessoas morreram em acidentes de trânsito no país, o que representa 68 óbitos por dia, segundo dados do Ministério da Justiça.

Além das mortes, os acidentes geraram 227.656 internações hospitalares no SUS no mesmo ano, o equivalente a uma vítima atendida a cada dois minutos. Nos últimos dez anos, o sistema público contabilizou 1,8 milhão de internações, com gastos diretos que chegam a R$ 3,8 bilhões.

O impacto financeiro também preocupa. Em 2024, o SUS gastou cerca de R$ 449 milhões com atendimento a vítimas de trânsito, valor que poderia ser convertido, por exemplo, na aquisição de 1.320 ambulâncias. Desde 1998, os gastos hospitalares com acidentes cresceram quase 50% em termos reais, pressionando de forma contínua o orçamento da saúde.

Segundo a diretora do Clériston Andrade, cada paciente na unidade de terapia intensiva (UTI) do hospital gera um custo médio de R$ 5 mil por dia de internamento, e os ocupantes dos leitos de enfermaria, R$ 2 mil por dia. Segundo França, a imprudência e a falta de cuidado no trânsito impedem que esse recurso seja destinado a ações mais estratégicas na prevenção e no tratamento de outras doenças.

O perfil da imprudência

França também lembrou que cerca de 60% dos pacientes vítimas de acidentes de trânsito atendidos no HGCA são do sexo masculino, na faixa etária dos 16 aos 35 anos. O perfil também se repete quando é feito um recorte com foco apenas no número de óbitos de pessoas que foram vítimas do trânsito.

Zona de perigo e práticas arriscadas

Ainda de acordo com os dados oficiais, o Anel de Contorno, a Avenida João Durval e a região central de Feira de Santana são os locais onde mais acontecem acidentes de trânsito em 2025. Somando as ocorrências das três áreas, foram, ao todo, 177 acidentes ao longo de todo o ano passado.

Foto: Imagem / Divulgação HGCA

Apesar de a região urbana de Feira de Santana possuir uma grande fatia do número de vítimas de acidentes de trânsito atendidas pelo HGCA, a diretora da unidade chamou a atenção para as ocorrências nos distritos e em cidades do interior, locais onde o uso do capacete normalmente não é respeitado.

Foto: Imagem / Divulgação HGCA

“A maioria deles vem com trauma de cabeça. Isso porque eles não usam capacete, então é muito importante chamar a atenção para isso. Fazer uso do capacete, que é um EPI [Equipamento de Proteção Individual], mas basicamente também o cuidado com a cabeça. Porque no interior ninguém usa capacete”, disse França.

O anel da morte

A inspetora da Polícia Rodoviária Federal (PRF), Lívia Marcelino, que também participou do fórum, destacou que, ao longo de 2025, os trechos de rodovias federais que são administrados pela PRF em Feira de Santana registraram cerca de 50 óbitos. Segundo a policial, 70% dessas mortes foram resultado de acidentes no Anel de Contorno.

Lívia Marcelino, inspetora da PRF
Lívia Marcelino, inspetora da PRF | Foto: Ed Santos / Acorda Cidade

“A gente sabe que, para termos um trânsito seguro, precisa da responsabilidade do condutor, ações de fiscalização e uma pista em condição. Então, o Anel de Contorno está muito distante dessa realidade, por conta dos buracos, da falta de iluminação e de sinalização em alguns locais”, disse a inspetora.

“Acreditamos e torcemos para que, a partir da duplicação, situações voltadas à engenharia de trânsito sejam revisadas e melhoradas. O Anel de Contorno é realmente o nosso maior trecho de destaque, onde buscamos aumentar as fiscalizações. Sempre temos operações para enfrentar os números de acidentes gerais ou graves”, complementou Lívia.

Bebida alcoólica e alta velocidade, o combo do mal

Os números apresentados pelo HGCA contrastam também com uma realidade que está presente, infelizmente, no dia a dia de muitos condutores: a combinação entre ingestão de bebida alcoólica e alta velocidade. Segundo os especialistas, conduzir veículos sob o efeito de álcool, além de crime, é uma prática extremamente perigosa.

Foto: Ed Santos / Acorda Cidade

Em entrevista ao Acorda Cidade, o capitão da Polícia Militar (PM), Lacerda Júnior, que é subcomandante do Esquadrão Asa Branca, contou que a prática de combinar bebida alcoólica e condução de veículo, somada ou não à alta velocidade, está constantemente no radar da corporação.

“Nós temos esse foco em especial na Lei Seca, nos condutores que, porventura, estejam sob efeito de bebida alcoólica. E isso traz resultados fantásticos aqui, que foram apresentados nesta reunião, visto que nós conseguimos ali, nas nossas fiscalizações, retirar de circulação diversas pessoas que estavam sem condições de transitar nas vias, porventura por estarem sob efeito de bebidas alcoólicas”, disse o capitão.

Sistema integrado

Ricardo Cunha, superintendente de trânsito de Feira de Santana, também esteve presente durante o fórum. Em entrevista ao Acorda Cidade, ele defendeu a criação de uma metodologia de sistemas integrados que possibilite o compartilhamento dos dados sobre os acidentes de trânsito na cidade.

Ricardo Cunha, superintendente de trânsito de Feira de Santana | Foto: Ed Santos / Acorda Cidade

“Nós estamos implementando um sistema que atenderá o Cicom, Samu, o Clériston Andrade e a SMT, para que possamos ter dados mais eficazes. Somente com os dados do HGCA eu não posso inserir meus dados em cima, porque eu não sei quantos óbitos eu computei e quantos óbitos o Clériston computou de forma coincidente”, disse Ricardo.

Foto: Ed Santos / Acorda Cidade

“Então, a ideia é que nós continuemos com o nosso sistema próprio, o Clériston continue com o sistema deles, mas que tenhamos uma [plataforma] única e que ela seja alimentada. A partir daí, vamos convidar a imprensa para que possa interagir na formação desse programa, abrir o sistema e ter acesso à parte que interessa para fazer essa divulgação”, finalizou o superintendente.

Com informações do repórter Ed Santos, do Acorda Cidade

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