29 de January de 2026
visibilidade trans
Foto: Inkdrop/Freepik
Mesmo com avanços legais, pessoas trans continuam com baixa presença no mercado de trabalho e rendimento inferior ao da média brasileira.
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Comemorado em 29 de janeiro, o Dia Nacional da Visibilidade Trans reforça a importância de ampliar o debate sobre inclusão e respeito à identidade de gênero no Brasil. Embora a data seja marcada por avanços sociais e legais, pessoas trans e travestis seguem enfrentando barreiras graves no acesso a direitos básicos e oportunidades profissionais. Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgado em 2023, revelou que apenas 25% das pessoas trans estavam empregadas formalmente, número 6,8 pontos percentuais inferior ao da população geral. Entre mulheres trans, esse índice cai para 20,7%, enquanto entre homens trans o percentual não passa de 31,1%.

A mesma pesquisa também levanta pontos sobre a desigualdade. Como o rendimento médio mensal de trabalhadores trans no emprego formal foi de R$ 2.707, cerca de 32% a menos do que a média do país, que ficou em R$ 3.987. Além disso, grande parte dessa população é concentrada em setores com baixa remuneração e menor segurança trabalhista, como comércio, serviços gerais, hotelaria e alimentação. Tais dados, segundo o Ipea, são reflexo de discriminação durante processos seletivos, falta de políticas de inclusão e preconceito institucional.

A situação para mulheres trans e travestis é ainda mais precária, levando à marginalização econômica. A Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) estima que cerca de 90% da comunidade recorra à prostituição em algum momento da vida como única fonte de renda e subsistência, devido à falta de oportunidades no mercado formal de trabalho.

Diante desse cenário, Tamiris Melo, mestra e professora do curso de direito da Estácio, destaca que as leis brasileiras avançaram, mas ainda não garantem igualdade material. Ela lembra que a possibilidade de retificação de nome e gênero sem judicialização representou um marco importante, mas a efetividade desses direitos depende de instituições preparadas para respeitar a identidade das pessoas trans. “Muitos casos de desrespeito ao nome social continuam ocorrendo tanto em serviços públicos quanto no setor privado, o que demonstra que o desafio vai além da regulamentação”, afirma.

A docente explica que situações de discriminação no ambiente de trabalho, como recusas de contratação ou tratamento constrangedor, são recorrentes e impactam diretamente o acesso a direitos fundamentais. “É fundamental que organizações e profissionais entendam que negar oportunidades com base na identidade de gênero configura violação de direitos humanos. O direito ainda tem papel estratégico tanto na proteção quanto na promoção da inclusão, especialmente por meio de fiscalização, educação jurídica e combate à transfobia institucional”, continua.

Desafios também emocionais

Para Francinne Strobel, professora do curso de Psicologia da Estácio, os dados sobre exclusão no mercado de trabalho mostram apenas uma parte da realidade, pois a discriminação também provoca efeitos profundos na saúde mental. Ela explica que experiências repetidas de rejeição — desde o ambiente familiar até espaços profissionais — contribuem para o desenvolvimento de transtornos como ansiedade, depressão e baixa autoestima. “O preconceito não se manifesta apenas em agressões diretas; ele aparece em olhares, recusas de oportunidades e invalidações da identidade, o que corrói o bem-estar emocional”, destaca a docente.

A psicóloga ainda enfatiza que a validação da identidade de gênero — incluindo o uso correto do nome social e o respeito à expressão de gênero — é um dos fatores de maior impacto para a construção de autoestima e segurança emocional. Ela aponta que ambientes acolhedores possibilitam que pessoas trans se desenvolvam academicamente, profissionalmente e socialmente, reduzindo riscos de isolamento.

Francinne também reforça o papel estratégico das instituições de ensino. Para ela, escolas e universidades são espaços-chave para oferecer acolhimento, políticas de inclusão e formação cidadã. “A capacitação de equipes, campanhas de conscientização e medidas de proteção contra discriminação são fundamentais para garantir permanência estudantil e ampliar oportunidades futuras. Educação gera pertencimento”, finaliza.

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