

Independentes, carinhosos, e um tanto quanto soturnos: estes são os gatos, pets que tem caído cada vez mais no gosto dos brasileiros, mesmo estando cercados de mitos e misticismos. Segundo o Instituto Pet Brasil (2024), o país já conta com 30,8 milhões de gatos vivendo em lares permanentes — um aumento em relação aos 29,2 milhões registrados em 2022. Para muita gente, o gato virou símbolo de companhia silenciosa, humor involuntário e personalidade marcante. Mas essa história nem sempre foi tão leve assim.
Estes animais caminham ao lado da humanidade há cerca de dez mil anos, desde os primórdios da agricultura no Oriente Médio. No Egito Antigo, eram reverenciados; já na Idade Média europeia, foram associados à bruxaria, um estigma que cruzou oceanos e chegou ao imaginário popular brasileiro, persistindo até os dias atuais.
Hoje, globalmente, calcula-se que existam cerca de 350 milhões de gatos domésticos, segundo dados de 2025 compilados por organizações internacionais de proteção animal. Isso mostra como os gatos deixaram de ser apenas animais úteis no passado — para caçar ratos em celeiros — e tornaram-se companheiros de vida em todos os continentes. Mesmo com essa popularidade crescente, os mitos tradicionais ainda sobrevivem. No Brasil, especialmente em cidades menores e zonas rurais, persistem crenças como a de que “gato preto dá azar” ou de que “gato odeia o dono”.
Essa discriminação ultrapassa a crendice popular e representa um risco para os bichanos: um levantamento mostra que gatos pretos realmente enfrentam mais dificuldade de adoção. No Brasil, um estudo realizado pelo Petlove com 18 ONGs (2022–2023) apontou que 21% dos gatos disponíveis para adoção eram pretos, e muitos deles permaneciam por mais tempo nos abrigos. O relatório da Black Cat Adoption Statistics 2025 indica que gatos pretos são 69% mais ignorados e podem esperar 30% mais tempo por um lar.
Para a médica veterinária Nilse Oliveira, professora do curso de medicina veterinária da Estácio, essas crenças têm raízes históricas profundas. “O gato sempre foi visto como um animal que transita entre o familiar e o misterioso. Sua natureza reservada, instintos discretos e hábitos noturnos fizeram dele um alvo perfeito para projeções humanas de medo ou superstição”, comenta. Para ela, essas ideias reforçam preconceitos que persistem até hoje, mesmo diante de convivências positivas e afetuosas com gatos em casas e apartamentos.
A veterinária explica que muitos desses mitos atuam como barreiras invisíveis: há um impacto real na chance de adoção, no cuidado que esses animais recebem e na forma como são vistos socialmente. “Quando a raça ou a cor da pelagem vira motivo de rejeição ou medo, estamos reproduzindo preconceitos que podem ter consequências concretas, como abandono e exclusão social dos felinos”, alerta.
Cuidado responsável e bem-estar felino
A médica veterinária explica que a exclusão social causada por crenças e mitos não afeta apenas as chances de adoção — ela pode ter impacto direto na saúde dos gatos. “Animais vítimas de rejeição ou maus-tratos tendem a apresentar níveis mais altos de estresse, que biologicamente desencadeiam problemas como queda de imunidade, alterações comportamentais, distúrbios alimentares e até doenças dermatológicas”, afirma.
Segundo ela, o estresse crônico em gatos abandonados ou negligenciados está associado a quadros de ansiedade, agressividade defensiva, grooming excessivo e suscetibilidade maior a infecções. “O preconceito não é abstrato — ele vira sofrimento real e mensurável no organismo desses animais”.
Para ela, o aumento expressivo da população de gatos nos lares demanda um compromisso real com saúde, conforto e estímulos adequados — e o mito da “auto-suficiência” felina é um dos grandes desafios a serem superados. “O gato pode viver bem em apartamento, mas ele precisa de estímulos físicos e mentais — prateleiras, arranhadores, brinquedos que simulem caça, lugares altos para observar o ambiente. Isso ajuda a manter o equilíbrio e evita problemas comuns como estresse, obesidade ou comportamento destrutivo”, explica.
Outro ponto fundamental que a médica veterinária reforça é a segurança do ambiente. “Gatos são curiosos, ágeis e têm forte tendência a explorar alturas e janelas. Por isso, a instalação de telas de proteção é considerada etapa obrigatória da adoção responsável. A ausência de telas está entre os principais motivos de acidentes domésticos com felinos, incluindo quedas. Garantir janelas e varandas teladas evita fugas, quedas e ferimentos graves, além de proporcionar um espaço seguro para o gato circular e observar o exterior, atividade que reduz ansiedade e fornece estímulos ambientais importantes”, alerta.
Nilse reforça que compreender essas necessidades é fundamental para que mitos possam ser superados. “Quando um tutor entende a necessidade de cuidado, atenção e ambiente adequado, o gato deixa de ser apenas um mito ou superstição — passa a ser parte da família, com rotina, afeto e bem-estar”, finaliza a médica veterinária.
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