

“🎶Atabaque ecoou, liberdade que retumba / Isso aqui vai virar macumba!”. Foi com esse verso que a escola de samba carioca, Beija-Flor de Nilópolis, abriu os caminhos na Marquês de Sapucaí em 2026 para contar a história do maior candomblé de rua do mundo, o Bembé do Mercado.
A celebração centenária, que ocorre tradicionalmente uma vez por ano em Santo Amaro, município que fica no Recôncavo da Bahia, é considerada uma das maiores manifestações da cultura negra e do candomblé em espaço público no país.

A escola apostou na festa religiosa como tema do desfile deste ano por reconhecer o Bembé do Mercado como um símbolo de resistência cultural e da fé nas religiões de matriz africana. A celebração é considerada Patrimônio Cultural Imaterial da Bahia e do Brasil.

Quem assistiu ao desfile pode conferir a Beija-Flor representar na avenida, desde a sandália das passistas até o adereço do destaque mais alto de um carro alegórico, uma celebração tão importante para o povo de santo e que tem como marca a ancestralidade e a resistência.
🎶Atabaque ecoou, liberdade que retumba
Isso aqui vai virar macumba
Atabaque ecoou, liberdade que retumba
Isso aqui vai virar macumbaTrecho do samba-enredo da Beija-Flor homenageando o Bembé do Mercado
Nasce o Bembé
Uma vez por ano, o mercado no centro de Santo Amaro se transforma em palco para a maior celebração do candomblé de rua do Brasil. Tambores e atabaques sinalizam que a festa, que ocorre há 136 anos, já começou.
O Bembé surgiu em 1889, logo após a abolição da escravatura, que ocorreu oficialmente em 13 de maio. O evento foi idealizado por João de Obá e seus filhos de santo para ocupar o Largo do Mercado Municipal, um espaço que até então vivia sob a influência do controle colonial.

A ideia de João de Obá foi transformar o solo do mercado em um local sagrado, como uma espécie de afronta bem marcada às opressões históricas às religiões afro-brasileiras, principalmente em um local onde o negro passou muitos anos sendo visto como mercadoria.
Apesar da importância, do reconhecimento por parte de órgãos como o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e da tradição na festa centenária, o fato de o Bembé do Mercado ainda ser “invisibilizado” pode ser reflexo de uma sociedade que ainda teima em deslegitimar a cultura negra.

Nesse sentido, a professora Ana Rita Machado desempenha um papel fundamental para compreender a importância do Bembé e quais são os mecanismos que operam para tentar silenciar a celebração que é tão importante para o fortalecimento do sentimento de respeito a qualquer manifestação cultural negra.

“Se em 2026 o candomblé é tido como coisa do demônio, imagine lá atrás, justamente depois de um processo de mais de 500 anos de escravidão. Como é que essa sociedade vai entender aquelas pessoas que saíram daquela condição e entendê-las como pessoas que precisavam ocupar o espaço da cidade, com a mesma dignidade, com o estatuto do ser livre e de pessoas que trabalharam a vida inteira nos canaviais, nas construções civis e em diferentes outras áreas do trabalho?”, disse.
🎶Deixa girar, que a rua virou Bembé
Deixa girar, que a rua virou Bembé
O meu Egbé faz valer o seu lugar
Laroyê, Beija-Flor, alafiáTrecho do samba-enredo da Beija-Flor homenageando o Bembé do Mercado.
Um trabalho de muitas mãos
A história da professora Ana Rita e da Beija-Flor se cruzou há cerca de um ano por um grande motivo: a admiração ao Bembé do Mercado. Machado é licenciada em História pela Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) e especialista em Teoria e Metodologia da História.
A pesquisadora, que apesar de morar na cidade conhecida como Princesa do Sertão, nasceu em Santo Amaro e possui forte ligação com o território do Recôncavo, é doutora em Relações Raciais com extensa vida acadêmica dedicada ao estudo da pós-escravidão.

A professora Ana Rita defendeu a dissertação de mestrado em 2009, que tinha como tema central a festa religiosa. A pesquisadora foi designada pelo babalorixá Pai Pote, líder espiritual e presidente do Bembé do Mercado, para colaborar com a Beija-Flor na construção do enredo.
Ao Acorda Cidade, a professora explicou que, como todos os anos, a Beija-Flor começou a buscar temas de relevância para fazer o desfile e que um grupo de três pesquisadores ligados à escola começou a fazer pesquisas iniciais para conhecer melhor o Bembé.

“Um dos pesquisadores em algum momento já pensava em seguir o Bembé porque já o conhecia e os outros dois pesquisadores foram fazer a pesquisa porque o carnavalesco João Vitor Araújo tinha visto fotos do Bembé feitas por Roque, um fotógrafo e antropólogo de Santo Amaro”, disse.
“Eles não queriam levar essa proposta sem primeiro observar se a comunidade de Santo Amaro iria permitir que se fizesse o enredo. Um dos pesquisadores, que é assessor de comunicação além de pesquisador, fez contato com a universidade e acabou fazendo contato com um irmão de santo meu. Eles fizeram uma reunião com a comunidade toda e decidiram que a Beija-Flor poderia tratar desse tema no Carnaval de 2026”, completou a professora.
🎶Não me peça pra calar minha verdade
Pois a nossa liberdade não depende de papel
Em Santo Amaro, todo 13 de maio
Nossa ancestralidade é festejada à luz do céu, ê-êTrecho do samba-enredo da Beija-Flor homenageando o Bembé do Mercado.
Solo sagrado e base teórica
Ana Rita é professora da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) e atua como coordenadora do Centro de Referência Bembé do Mercado: memórias e patrimônios dos povos de terreiro e religiões africanas e afro-indígenas, centro que foi articulado pela comunidade do Bembé e institucionalizado pela reitoria da instituição.

Ao Acorda Cidade, a pesquisadora explicou que a dissertação de mestrado dela foi utilizada amplamente pela equipe do carnavalesco da Beija-Flor. A festa se enquadra diretamente com os temas pesquisados por Machado, pois nasce em 1889, um ano após a assinatura da Lei Áurea, e compreende o período que a professora chama de pós-escravidão ou pós-abolição.
“A dissertação deu uma base para entender o que é a festa e, a partir desse entendimento, construir a concepção artística do que seriam as áreas que iriam para o Carnaval. Para mim, participar do desfile foi uma coisa incrível. Primeiro pela emoção de um trabalho que realizo durante muito tempo e segundo por especificamente ser essa dissertação”, disse.

“Esse trabalho serviu de base para que esse desfile acontecesse. A dissertação serviu de base teórica, base de compreensão do que é essa festa. Isso para mim é muito importante e honroso, mas também por estar ali falando de uma festa que foi invisível durante 136 anos. Falar dessa festa de maneira pública, onde a gente possa ressaltar a importância dessa comunidade de terreiro que são os guardiões da memória dessa experiência no pós-escravidão”, disse Ana Rita.

Uma manifestação única
Ana Rita explicou que o Bembé do Mercado foi escolhido pela Beija-Flor por ser reconhecido como um movimento cultural que teve início com a ideia de que pessoas negras poderiam se reunir para fazer valer sua forma cultural, suas formas civilizatórias e sua própria concepção sobre o mundo, elemento que torna o Bembé do Mercado uma celebração tão única.
“A gente precisa compreender historicamente o que é Santo Amaro. Nesse processo que foi a própria abolição, nós estamos falando do Recôncavo açucareiro, onde os barões do açúcar estavam ali, como em Cachoeira. Uma sociedade com traços muito conservadores, profundamente marcada pela escravidão, uma sociedade colonialista, onde existia uma elite que não tolerava muito a presença daquelas populações negras, exceto pela possibilidade da própria sujeição da escravidão”, disse a professora.

“Uma festa como o Bembé, que se propõe a comemorar o primeiro ano do fim dessa escravidão, não é só um emblema. E só isso faz com que a gente vá analisar a importância de uma festa dessa. O Bembé é um candomblé que foi feito possivelmente por um homem de Xangô que estava ligado à experiência do candomblé e às outras experiências da cultura popular negra”, completou Machado.

Patrimônio de todos
O Bembé do Mercado foi considerado patrimônio pelo Ipac [Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia] desde 2012 e, desde 2019, passou a ser reconhecido como patrimônio do Brasil pelo Iphan [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional].
“É uma celebração importante, porque define identidade, resiliência, resistência e mostra a memória social de como essas pessoas não só se comportaram, de como elas construíram um novo momento para si mesmas e trata de uma grande e profunda experiência de como os aspectos civilizatórios africanos estão inseridos na experiência baiana e brasileira”, disse.

Fazendo essa análise, a professora evidencia a magnitude da festa e lista alguns pontos que podem comprovar por quais estigmas a festa enfrenta desde os primeiros anos após a sua fundação. Para Ana Rita, o Bembé do Mercado ter passado tanto tempo na invisibilidade tem raízes na forma como a sociedade passou a enxergar o povo negro e de santo.

“A importância da festa diz respeito ao entendimento de compreender como a sociedade brasileira compreendeu os corpos que no passado foram escravizados e que, a partir daquela data, eram livres do ponto de vista do estatuto. E como essa sociedade vai se construir a partir daí”, disse Ana Rita.
A cidade se transforma no Bembé
A professora explicou que o Bembé do Mercado é extremamente importante para a cidade, pois durante os processos litúrgicos que são feitos antes e durante a festa, as religiões de matriz africana ganham o protagonismo que nunca lhes deveria ter sido tirado. Reconhecer os cultos aos orixás é entender como a sociedade brasileira foi constituída.
“Todas essas experiências tradicionais na África acontecem no mercado, nas ruas, porque isso é uma questão de percepção civilizatória. No caso do Bembé do Mercado de Santo Amaro, não é que o candomblé se transforma ao sair do terreiro, é o Bembé que transforma toda a cidade como se fosse um grande terreiro, porque esse candomblé acontece nas ruas da cidade.”

“E isso é na ocupação do espaço da rua. Então, esse é um elemento importante, porque essas populações utilizam o espaço público para mostrar quem elas são, sua forma de ser, de compreender o mundo, se identificar e territorializar em cada parte da cidade, ou seja, ocupar o espaço público com a sua forma de ser a partir de seu pensamento, que é o culto aos orixás, o culto à ancestralidade, o culto a Exu”, completou a professora.
Uma resposta para o preconceito
Por fim, a professora Ana Rita ressaltou que a escolha da Beija-Flor em homenagear o Bembé do Mercado pode ser entendida como uma resposta para os constantes ataques que as religiões de matriz africana sofrem diariamente no Brasil.

“Quando a Beija-Flor traz o tema do candomblé em um desfile, é pensar sobre a questão da intolerância religiosa, do racismo religioso. E como nós, pessoas do candomblé, passamos por constrangimentos o tempo todo, constrangimento social, constrangimento por sermos quem somos”, disse.

“Quando a Beija-Flor traz para o cenário do Carnaval o Bembé do Mercado, ela torna pública uma festa que acontece, uma festa centenária, que fala de uma experiência incrível no Recôncavo, uma experiência que diz respeito às populações negras, à cultura negra, digamos assim, e que nós que somos baianos, brasileiros e principalmente baianos, não conhecíamos a nossa própria história”, finalizou a professora.
Com informações da jornalista Daniela Cardoso, do Acorda Cidade
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