24 de February de 2026
Mulher cansada
Foto: Maca and Naca
Estudos mostram que, a partir dos 30 anos, o corpo inicia um processo gradual de redução muscular, conhecido como sarcopenia precoce.
Mulher cansada
Foto: Maca and Naca

Ela continua comendo praticamente as mesmas coisas. Mantém a rotina de exercícios, tenta dormir melhor, corta açúcar, faz tudo o que sempre funcionou. Mesmo assim, o peso sobe, o cansaço aparece, o inchaço não vai embora e o espelho começa a mostrar um corpo que parece outro.

Para muitas mulheres, essa mudança silenciosa começa por volta dos 35 anos e quase ninguém explica por quê.

O discurso mais comum é simples e reducionista: “é a idade”, “é o metabolismo”, “é normal”. Mas a ciência mostra que o que acontece nesse período é uma combinação complexa de alterações hormonais, perda progressiva de massa magra, mudanças na microbiota intestinal e maior impacto do estresse crônico sobre o organismo feminino.

Segundo o Dr. Arthur Victor de Carvalho, médico especialista em saúde hormonal da mulher, o problema não é a idade em si, é a falta de entendimento sobre o que o corpo começa a exigir a partir dessa fase.

“A mulher não começa a mudar de um dia para o outro. O que acontece é um processo gradual, que começa anos antes da menopausa. O metabolismo desacelera, a massa muscular diminui e os hormônios passam a oscilar. Mas como isso não é explicado, muitas mulheres acham que o problema é falta de disciplina quando, na verdade, é fisiologia.”

A perda muscular começa antes do que se imagina

Um dos fatores mais ignorados nesse processo é a perda de massa magra. Estudos mostram que, a partir dos 30 anos, o corpo inicia um processo gradual de redução muscular, conhecido como sarcopenia precoce. Essa perda tende a se acelerar a cada década, especialmente em mulheres.

Mulher treinando
Foto: PxHere

Uma pesquisa publicada no Journal of Cachexia, Sarcopenia and Muscle indica que a perda de massa muscular pode começar ainda na terceira década de vida, impactando diretamente a taxa metabólica basal e a capacidade do corpo de queimar gordura.

Isso significa que, mesmo sem mudar a alimentação, o corpo passa a gastar menos energia ao longo do dia. O resultado é previsível: aumento de gordura corporal, principalmente na região abdominal, e maior dificuldade para emagrecer.

“O músculo é o principal motor do metabolismo. Quando a mulher perde massa magra, ela perde a capacidade de gastar energia. O corpo entra em modo de economia, e a gordura passa a ser acumulada com muito mais facilidade”, explica o médico.

Hormônios em transição: o início da perimenopausa silenciosa

Outro ponto-chave é a mudança hormonal. Ao contrário do que muitas pessoas acreditam, a menopausa não começa apenas quando a menstruação cessa. O processo pode se iniciar anos antes, em uma fase chamada perimenopausa.

Nessa etapa, os níveis de estrogênio e progesterona começam a oscilar, o que pode gerar sintomas como:

  • cansaço frequente;
  • irritabilidade;
  • alterações no sono;
  • dificuldade de concentração;
  • aumento de gordura abdominal;
  • queda de libido.

Um estudo publicado na revista Endocrine Reviews mostra que essas flutuações hormonais podem impactar diretamente o metabolismo energético, favorecendo o acúmulo de gordura visceral e a resistência à insulina.

“Muitas mulheres chegam ao consultório dizendo que estão fazendo tudo certo, mas o corpo não responde. O que elas não sabem é que já estão vivendo alterações hormonais típicas da perimenopausa, mesmo ainda menstruando”, afirma o Dr. Arthur.

O intestino também muda e isso afeta o peso

Outro fator pouco discutido é a microbiota intestinal. Pesquisas recentes mostram que a composição das bactérias intestinais muda ao longo da vida, influenciada por hormônios, estresse, alimentação e qualidade do sono.

Um estudo publicado na revista Nature Reviews Endocrinology aponta que alterações na microbiota podem influenciar a inflamação sistêmica, a sensibilidade à insulina e a regulação do apetite, todos fatores diretamente ligados ao ganho de peso.

Quando a microbiota perde diversidade, o organismo tende a operar em um estado inflamatório de baixo grau, dificultando o emagrecimento e favorecendo o acúmulo de gordura.

O intestino é um órgão metabólico e hormonal. Quando a microbiota está desregulada, ela altera a forma como o corpo processa alimentos, controla o apetite e armazena gordura. E isso se torna ainda mais evidente após os 35.

O impacto silencioso do estresse e do cortisol

Além das mudanças hormonais e metabólicas, o estilo de vida moderno exerce um papel decisivo nesse processo. A partir dos 30 e poucos anos, muitas mulheres enfrentam sobrecarga profissional, maternidade, pressão estética e falta de tempo para autocuidado.

Esse cenário mantém o organismo em estado constante de estresse, elevando os níveis de cortisol, o hormônio associado à resposta de alerta.

Níveis elevados e crônicos de cortisol estão associados a:

  • maior acúmulo de gordura abdominal;
  • perda de massa muscular;
  • aumento do apetite por alimentos calóricos;
  • piora da qualidade do sono;
  • resistência à insulina.

“O corpo feminino é extremamente sensível ao estresse. O cortisol alto funciona como um sinal de sobrevivência, e o organismo passa a armazenar gordura como forma de proteção. Isso muda completamente a forma como a mulher responde à dieta e ao treino”, afirma o médico.

Por que o que funcionava antes deixa de funcionar

Somando perda de massa muscular, oscilações hormonais, alterações intestinais e estresse crônico, o corpo feminino passa a operar de forma diferente. Estratégias que funcionavam aos 25 anos podem deixar de surtir efeito aos 35.

Dietas muito restritivas, excesso de cardio e falta de sono, por exemplo, podem acelerar a perda muscular e elevar o cortisol, piorando o quadro metabólico.

“A mulher não precisa treinar mais, nem comer menos. Ela precisa treinar melhor, preservar músculo, ajustar hormônios e cuidar do intestino. Quando o organismo volta ao equilíbrio, o metabolismo responde”, diz o Dr. Arthur.

O novo paradigma: saúde metabólica antes da menopausa

A medicina moderna tem caminhado para uma abordagem mais preventiva, especialmente na saúde feminina. Em vez de esperar a menopausa para tratar sintomas, especialistas defendem intervenções precoces, focadas em:

  • manutenção da massa muscular;
  • ajuste hormonal individualizado;
  • alimentação anti-inflamatória;
  • equilíbrio da microbiota intestinal;
  • controle do estresse e do sono.

Estudos mostram que mulheres com maior massa muscular e melhor equilíbrio metabólico têm menor risco de doenças cardiovasculares, osteoporose, diabetes e declínio cognitivo ao longo da vida.

O corpo da mulher não “trai” depois dos 35. Ele apenas passa a exigir estratégias diferentes. O metabolismo deixa de ser guiado apenas por calorias e passa a responder a fatores hormonais, musculares e inflamatórios.

“Não é que a mulher engorde porque ficou desleixada. É porque o corpo mudou, e ninguém explicou isso para ela. Quando ela entende o que está acontecendo, a transformação deixa de ser uma luta contra o corpo e passa a ser um trabalho a favor dele”, conclui o especialista, Dr. Arthur Victor de Carvalho.

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