3 de March de 2026
Gráfico excesso de peso em crianças e adolescentes
Foto: Reprodução/ Impulso Gov
Se nenhuma medida for adotada, o número de crianças entre 5 e 19 anos com sobrepeso ou obesidade deve passar para 770 milhões em 2035.
Gráfico excesso de peso em crianças e adolescentes
Foto: Reprodução/ Impulso Gov

Em mais um levantamento inédito para colaborar com as iniciativas em prol da prevenção na saúde da população brasileira, a ImpulsoGov, organização sem fins lucrativos que, em parceria com governos, fortalece o SUS com soluções inovadoras, analisou dados entre 2014 e 2024 e identificou  que o percentual das crianças de até 5 anos de idade com excesso de peso no Brasil caiu de 17,7% para 13,9%, ao mesmo tempo que a taxa na faixa etária de 10 a 19 anos subiu de 23% para 32%, um crescimento de 9 pontos percentuais em uma década.

O estudo apresenta um panorama atualizado sobre o excesso de peso, incluindo sobrepeso e obesidade, entre crianças e adolescentes no Brasil, com base em dados públicos do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional do SUS (SISVAN).

No caso de crianças até 5 anos de idade, o declínio da taxa de excesso de peso contrasta com o aumento absoluto de casos. Houve um crescimento de 740.031 em 2014 para 1.080.511 em 2024. Em partes, a explicação está na ampliação expressiva do número de pessoas avaliadas pelo SISVAN, que quase dobrou, passando de 4,1 milhões para 7,7 milhões no ano passado.

Outro achado fundamental do estudo é que aproximadamente 1 em cada 3 brasileiros entre 10 e 19 anos apresentam excesso de peso atualmente. A região Sul tem os maiores percentuais, passando de 31% em 2014 para 37% em 2024. A região Norte tem os menores valores ao longo do período, mas também apresentou um crescimento expressivo, de 20% para 27%.

O levantamento da ImpulsoGov também permite identificar padrões para os resultados. Ao comparar os tipos de municípios por grau de urbanização, os dados mostram que os municípios urbanos têm mais jovens de 10 a 19 anos com excesso de peso. Em média, 1,11 ponto percentual a mais do que em municípios intermediários adjacentes. Além disso, os municípios rurais remotos apresentaram, em média, 6 pontos percentuais a menos de excesso de peso.

Os dados de 2024 revelam ainda um cenário preocupante entre crianças e adolescentes de 10 até 19 anos de comunidades ribeirinhas. Ao todo, 2.074 pessoas foram acompanhadas, e 19,9% apresentaram excesso de peso.

O Atlas Mundial da Obesidade 2024, publicado pela World Obesity Federation (WOF), mostra que o mundo caminha para um aumento expressivo da obesidade infantil. Segundo projeções do documento, se nenhuma medida eficaz for adotada, o número de crianças entre 5 e 19 anos com sobrepeso ou obesidade deve passar de 430 milhões em 2020 para 770 milhões em 2035, representando quase 40% das crianças do planeta.

Gráfico excesso de peso em crianças e adolescentes
Foto: Reprodução/ Impulso Gov

“É válido lembrar que a Atenção Primária à Saúde é o nível de atenção que acolhe em maior proporção essa população, acompanhando desde os primeiros dias de vida”, explica Juliana Ramalho, gerente de Saúde Pública da ImpulsoGov.

Em relação ao perfil de alimentação, os dados do SISVAN revelam que houve aumento do consumo de frutas e verduras em todas as faixas etárias analisadas entre 2015 e 2024. Por outro lado, no ano de 2024, observa-se um elevado consumo de alimentos ultraprocessados associado a uma presença significativa de hábitos que comprometem a qualidade da alimentação, como realizar refeições em frente às telas, assistindo à televisão ou mexendo no computador ou celular.

Entre as crianças de 2 a 4 anos, 71% consomem alimentos ultraprocessados, e mais da metade (52%) têm o hábito de comer em frente às telas. Nessa faixa, alimentos saudáveis como feijão (76%), frutas (76%) e verduras/legumes (65%) ainda são amplamente consumidos, o que demonstra uma base alimentar tradicional relativamente preservada, embora já coexistindo com produtos industrializados como bebidas adoçadas (54%) e biscoitos recheados ou doces (50%).

Entre crianças de 5 a 9 anos, o consumo de ultraprocessados atinge 83%, o maior entre as três faixas etárias. Além disso, 60% fazem refeições assistindo à TV, e mais da metade consome regularmente bebidas adoçadas (66%) e guloseimas (59%). Ainda que o consumo de feijão (82%), frutas (78%) e verduras (67%) continue elevado, é evidente a transição para uma dieta mais rica em alimentos industrializados e com alto teor de açúcares, gorduras e sódio.

Na faixa dos 10 a 19 anos, o cenário mantém um padrão semelhante: 81% consomem ultraprocessados, 61% comem assistindo à TV e os percentuais de consumo de bebidas adoçadas (64%) e embutidos (48%) permanecem altos. Embora o consumo de feijão (82%), frutas (74%) e verduras (70%) ainda seja expressivo, nota-se uma manutenção de práticas alimentares que podem contribuir para o risco de excesso de peso.

O cenário não é novo. Dados divulgados na Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2019, realizada pelo IBGE, mais da metade dos adolescentes brasileiros entre 13 e 17 anos passava mais de três horas por dia sentados em frente a telas, seja assistindo televisão, jogando videogame ou usando celular, tablet e computador.

“Os dados mostram como a atuação das equipes multiprofissionais na Atenção Primária é essencial para promover hábitos saudáveis desde a infância. São esses profissionais que acompanham o crescimento, orientam as famílias e atuam na prevenção do excesso de peso de forma contínua e integrada com o território”, afirma Juliana.

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