10 de March de 2026
mulheres ocupam Feirinha do Tomba em ato de luta contra a violência e por igualdade em Feira de Santana
Foto: Ney Silva/Acorda Cidade
O evento teve como objetivo fortalecer a mobilização por políticas públicas de proteção às mulheres, além de denunciar a escalada da violência.
mulheres ocupam Feirinha do Tomba em ato de luta contra a violência e por igualdade em Feira de Santana
Foto: Ney Silva/Acorda Cidade

A praça de um dos bairros mais populosos de Feira de Santana foi tomada por vozes femininas neste domingo (8). Na Feirinha do Tomba, organizações sociais, sindicatos, coletivos e movimentos populares realizaram um grande ato público em alusão ao Dia Internacional da Mulher, transformando o espaço em um palco de reivindicação política, manifestações culturais e debates sobre direitos, igualdade e combate à violência contra as mulheres.

O evento teve como objetivo fortalecer a mobilização por políticas públicas de proteção às mulheres, além de denunciar a escalada da violência de gênero no país.

mulheres ocupam Feirinha do Tomba em ato de luta contra a violência e por igualdade em Feira de Santana
Foto: Ney Silva/Acorda Cidade

Levantamento divulgado este mês pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), com dados referentes a 2025, aponta que o país registrou 1.568 feminicídios, o maior número da última década, aumento de 4,7% em relação ao ano anterior. Quando somadas as tentativas, o número chega a 6.904 casos, uma média de quase seis mortes ou tentativas por dia.

Foi com esse cenário como pano de fundo que as organizações decidiram ocupar um espaço popular da cidade para dialogar diretamente com a população.

Luta também contra o transfeminicídio

Entre as vozes, estava a estudante Catarina Paraguaçu, diretora LGBTQIAPN+ da União Estadual dos Estudantes da Bahia (UEB). Para ela, o 8M que verdadeiramente representa todas as mulheres, também precisa incluir a luta das mulheres trans.

mulheres ocupam Feirinha do Tomba em ato de luta contra a violência e por igualdade em Feira de Santana
Catarina Paraguaçu | Foto: Ney Silva/Acorda Cidade

“É um dia de luta. Feira de Santana iniciou o ano com um transfeminicídio. Isso tem que ser cobrado. A pessoa que realizou o crime tem que ser presa e que as medidas cabíveis sejam efetivas, de fato, no município de Feira de Santana.”

Ela também destacou que a violência contra mulheres trans continua sendo um problema grave no país que mais mata pessoas trans no mundo por vários anos consecutivos.

“Não só em Feira de Santana, como no país todo. O Brasil ainda lidera os índices de assassinatos de mulheres trans, travestis, negras. Além do feminicídio contra a mulher cis, segue em primeiro lugar com o transfeminicídio”, declarou ao Acorda Cidade.

mulheres ocupam Feirinha do Tomba em ato de luta contra a violência e por igualdade em Feira de Santana
Foto: Ney Silva/Acorda Cidade

Mulheres negras entre as principais vítimas

Os dados nacionais também revelam um recorte racial importante: seis em cada dez mulheres assassinadas no Brasil são negras. A realidade foi destacada por Marinalda Soares, coordenadora da Rede Nacional de Mulheres Negras no Combate à Violência – Núcleo Feira de Santana.

Segundo o FBSP, 80% desses crimes são cometidos por companheiros ou ex-companheiros e o pior, 66% das mortes ocorreram dentro da própria casa, o lugar onde todas as mulheres deveriam se sentir mais seguras.

mulheres ocupam Feirinha do Tomba em ato de luta contra a violência e por igualdade em Feira de Santana
Marinalda Soares | Foto: Ney Silva/Acorda Cidade

“Sabemos que a violência contra a mulher está aí, mas nós, mulheres negras, somos as que mais sofremos em todos os âmbitos. Feminicídio mesmo, nem se fala. Você vai analisar a estatística, os corpos de mulheres negras que estão lá estendidos. A gente fala também em violência estrutural em empresas, na escola, nos ambientes de trabalho.”

Março é mês de luta

A secretária de Mulheres do Diretório Municipal do PT em Feira, Solange Guerra, ressaltou que a data vai além de homenagens simbólicas, mas marca um mês inteiro de uma agenda política importante no calendário das organizações.

mulheres ocupam Feirinha do Tomba em ato de luta contra a violência e por igualdade em Feira de Santana
Solange Guerra | Foto: Ney Silva/Acorda Cidade

“O março para a gente é sempre de luta, porque a gente está vivendo no Brasil uma epidemia de feminicídio, então, nesse tempo que o governo federal lança um pacto contra o feminicídio, a gente aqui em Feira de Santana também grita contra o feminicídio porque queremos nos manter vivas, queremos que os homens parem de nos matar”, declarou ao Acorda Cidade.

Ela também destacou a violência de gênero dentro da política representada pela grande desigualdade de representação. São mulheres como Marielle Franco que chegam para fazer a diferença e para cobrar por justiça para todas.

“Não estamos competindo com os homens. Queremos igualdade de direitos. Somos 52% da população e os outros 48% são os nossos filhos. Somos maioria na sociedade, mas não somos ainda maioria na política e estamos morrendo dentro da nossa casa. Homens, na maioria das estatísticas, eles morrem na rua e as mulheres morrem no seu porto seguro e por pessoas de sua confiança.”

mulheres ocupam Feirinha do Tomba em ato de luta contra a violência e por igualdade em Feira de Santana
Foto: Ney Silva/Acorda Cidade

Mais educação é mais autonomia para elas

A mobilização também contou com a presença da presidente da APLB Sindicato, Marlede Oliveira, que reforçou que o dia 8 de março representa resistência. Como ela mesma costuma dizer, “sem luta, não há vitória!” E se as mulheres e toda a sociedade não se levantar, essa realidade nunca vai mudar.

“Não é uma comemoração, é um dia de luta, de resistência, dia da gente dizer da violência que acontece com as mulheres no dia a dia, de toda a agressão que nós sofremos. O Brasil é um dos países que mais mata mulheres no mundo.”

mulheres ocupam Feirinha do Tomba em ato de luta contra a violência e por igualdade em Feira de Santana
Marlede Oliveira | Foto: Ney Silva/Acorda Cidade

Ela relembrou o ataque direcionado a uma escola no Irã este ano que matou 168 crianças. Independente de qualquer guerra que o mundo esteja passando, a sociedade não pode normalizar esse, nem nenhum tipo de violência.

Marlede também destacou que políticas públicas como creches e educação são fundamentais para garantir autonomia mais às mulheres. Não se deve normalizar a dupla, tripla, jornada vivida por mulheres.

mulheres ocupam Feirinha do Tomba em ato de luta contra a violência e por igualdade em Feira de Santana
O coral da APLB também se apresentou no ato | Foto: Ney Silva/Acorda Cidade

Luta diária para viver e sobreviver com respeito

A militante Laila Almeida, que veio de Serrinha para participar da mobilização, lembrou que as pautas femininas não se limitam a uma data no calendário, mas uma luta diária para conquistar espaços.

“A gente não está só no 8M, a gente vive todos os 365 dias e de fato são lutas de sobrevivência, de mulheres que falam de política, da sua própria vida e militam sobre a sua própria vida em busca de viver melhor, de fato, numa sociedade que é machista e que tem um patriarcado como poder monopolizado.”

mulheres ocupam Feirinha do Tomba em ato de luta contra a violência e por igualdade em Feira de Santana
Laila Almeida | Foto: Ney Silva/Acorda Cidade

Mulheres do campo também enfrentam violência

Representando o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Feira (Sintraf), Adriana Lima destacou que a violência contra as mulheres também atinge fortemente as comunidades rurais.

“É o momento da gente unir força para que essa violência que enfrentamos, possamos dar as mãos para nos unificar, para que ela possa se acabar. Se a gente ficar sozinha, a gente não chega a lugar nenhum, então é necessária a integração com outros movimentos.”

mulheres ocupam Feirinha do Tomba em ato de luta contra a violência e por igualdade em Feira de Santana
Adriana Lima | Foto: Ney Silva/Acorda Cidade

“Todas as mulheres sofrem violência, nem só a física, como a psicológica, a sexual, a financeira, ou seja, uma série de violência. Então é momento de a gente se unir força para que possa passar energia para outras mulheres, levar o conhecimento para que elas não continuem nessa zona de violência.”

Luta contra a violência se constrói na base, perto de quem é mais atingido

Para Urânia Santa Bárbara, do Movimento Negro Unificado e da Frente Negra Feirense, do PT, ocupar um espaço popular como a Feirinha do Tomba tem significado político, principalmente por ser um espaço majoritariamente ocupado por mulheres.

“A gente entende que luta não se faz só na reivindicação, na denúncia. A gente acredita que luta também se trata do bem-estar e do bem-viver de nós, mulheres”.

mulheres ocupam Feirinha do Tomba em ato de luta contra a violência e por igualdade em Feira de Santana
Urânia Santa Bárbara | Foto: Ney Silva/Acorda Cidade

”Nós também queremos estar em espaços de poder. A gente quer ocupar o Senado, a gente quer ocupar a Câmara de Deputados, a Câmara de Vereadores e a gente quer ocupar também, por que não, a presidência desse país. A gente vive num país que é estruturado pelo racismo. Então por mais que nos qualifiquemos e conseguimos provar que estamos qualificadas para certas vagas, a cor da nossa pele vem antes de qualquer outra qualificação. Então sim, nós mulheres negras estamos ali na base, nós somos castigadas três ou quatro vezes mais do que as mulheres brancas e essa dificuldade é uma das pautas que a gente traz não só no 8 de março, mas durante o ano todo”, acrescentou Urânia.

Com informações do repórter Ney Silva do Acorda Cidade

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