

O Dia Internacional da Mulher não é apenas simbólico. É um marco político que escancara uma realidade: mulheres adoecem em um país que as sobrecarrega, violenta e, muitas vezes, as mata. Falar de saúde mental feminina no Brasil é falar de desigualdade estrutural, racismo, feminicídio e da cultura que naturaliza a dor das mulheres, especialmente das mulheres negras e pobres.
Para a psicóloga, Paula Brito de Feira de Santana, os impactos são visíveis na clínica em que trabalha. Os dados confirmam o alerta.
“Hoje a gente percebe que a depressão é uma das condições mais impactantes no mundo. A gente vai falar das mulheres que apresentam quase o dobro da prevalência ao longo da vida. E aí a gente vai falar de sobrecarga, de violência de gênero, a gente vai falar de vulnerabilidade econômica. Nós vamos falar de pessoas que sofrem pressões estéticas e relacionais. E, obviamente, trazendo um pouco aí uma exposição a muitos eventos traumáticos.”
Racismo, gênero e a naturalização da dor
A sobrecarga feminina não é recente. Historicamente, mulheres, sobretudo mulheres negras, foram socializadas para cuidar, servir e sustentar estruturas familiares e sociais. O estereótipo da “mulher forte que aguenta tudo, by guerreia” ainda é usado para justificar negligências e violências, inclusive, dentro dos lares brasileiros.
O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), da ONU, divulgou em 2023 que 84,5% dos brasileiros têm algum nível de preconceito contra mulheres. A interseccionalidade entre raça, gênero e classe amplia essas vulnerabilidades.
“A mulher sempre foi convocada a exercer vários papéis e tudo isso ao mesmo tempo. Às vezes a gente entende que o trabalho dentro de casa, não é trabalho e a mulher muitas vezes está trabalhando em casa, respondendo e-mail do chefe ao mesmo tempo que está sendo convocada pelos filhos. Essas diversidades de papéis, muitas vezes para as mulheres, elas não se separam, elas acontecem todas e ao mesmo tempo. Então, obviamente, isso vai gerando grandes impactos na saúde mental dela”, explicou a psicóloga.
Violência cotidiana e feminicídio: o medo como fator coletivo
Se nem no Carnaval as mulheres estão seguras, o que dizer do cotidiano? Um levantamento do Instituto Locomotiva, realizado em fevereiro do ano passado, revela que 45% das brasileiras, cerca de 38 milhões, já sofreram algum tipo de assédio durante o Carnaval. Além disso, 78% afirmam temer passar novamente por esse tipo de violência.
E essa violência está em todo lugar, inclusive, nas instituições públicas e privadas. Dados publicados em 2024 na Revista Ciência & Saúde Coletiva, da SciELO, apontam que 60% das mulheres que morrem por causas obstétricas no Brasil são negras. A violência racial também se manifesta na assistência: mulheres negras são mais expostas a negligências, como a ausência de anestesia no parto.

A violência simbólica também se manifesta em espaços de poder e no mercado de trabalho. Este mês, por exemplo, após a eliminação do Red Bull Bragantino no Paulistão, o zagueiro Gustavo Marques declarou: “Não adianta colocarem uma mulher pra apitar um jogo desse tamanho.” A fala, direcionada à árbitra Daiane Muniz, umas das melhores do país, só reforça o machismo estrutural que questiona a competência feminina em espaços historicamente masculinizados como o futebol.
Mas é no feminicídio que a brutalidade atinge seu extremo, há apenas uma década após a Lei do Feminicídio. A pesquisa “Quem são as Mulheres que o Brasil não protege”, da Fundação Friedrich Ebert no Brasil, divulgada em novembro de 2025, aponta que as mortes de mulheres por razão de gênero aumentaram 176% em 10 anos: de 527 casos em 2015 para 1.455. Do total, 68% das vítimas eram negras.
Agora, em 2026, dados divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), com base nos registros de 2025, revelam um cenário ainda mais preocupante. Os números mais recentes apontam crescimento nos casos de feminicídio, além de evidenciar o perfil das vítimas, dos agressores e o impacto social desses crimes.
| Indicador | Panorama da violência contra a mulher no Brasil |
|---|---|
| Feminicídios registrados em 2025 | O Brasil contabilizou 1.568 mulheres assassinadas por feminicídio — crimes motivados por violência de gênero — configurando o maior número da última década. |
| Comparação com 2024 | O número representa crescimento de 4,7% em relação a 2024, quando foram registrados 1.492 casos. |
| Feminicídios consumados e tentativas | Somando os crimes consumados e as tentativas, o país registrou 6.904 mulheres vítimas de feminicídio em 2025. |
| Aumento geral dos casos | Esse total representa alta de 34% em comparação com os registros do ano anterior. |
| Média diária de ocorrências | Os dados indicam uma média de 5,89 casos por dia, ou seja, quase seis mulheres vítimas diariamente de feminicídio consumado ou tentativa. |
| Impacto nas famílias | Como consequência dos crimes, 1.653 crianças ficaram órfãs em 2025 após perderem suas mães para a violência de gênero. |
| Recorte racial das vítimas | A violência contra mulheres no país apresenta forte desigualdade racial: 62% das vítimas de feminicídio eram mulheres negras. |
| Perfil dos agressores | Os levantamentos indicam que 9 em cada 10 assassinatos de mulheres são cometidos por homens, geralmente parceiros ou ex-parceiros. |
| Série histórica da Lei do Feminicídio | Desde a criação da Lei do Feminicídio, em 2015, até 2025, pelo menos 13.703 mulheres foram mortas em contextos de violência doméstica ou menosprezo à condição de mulher no Brasil. |
Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Dados divulgados este mês com base nos registros de 2025.
Na Bahia, os números também são alarmantes. No ano passado, o estado registrou 57 feminicídios entre janeiro e julho, ocupando a terceira posição nacional, atrás apenas de São Paulo (129) e Minas Gerais (71), segundo o Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp).
Cada caso de violência reverbera, mesmo que momentaneamente, em toda a sociedade, mas na verdade, o medo coletivo fica e impacta a saúde mental de todas as mulheres.
Em fevereiro, o portal g1 noticiou que um motorista estuprou uma mulher idosa negra de 71 anos, dentro de um ônibus no centro do Rio de Janeiro; ele já havia cometido crime semelhante em 2019 contra uma jovem de 20 anos. O caso só reforça que a violência contra a mulher, embora atinja com mais força mulheres negras e vulneráveis, atravessa também todas as idades e classes sociais.
Nesta história, persistem ainda outras violências brutais, como a hipersexualização e desumanização histórica do corpo da mulher negra, herança do período escravocrata, tema importante que merece uma análise e resposta ainda mais aprofundada em outro momento.

A romantização da exaustão
“As sobrecargas são consideráveis. Uma mulher que constantemente se cobra da conta e da resultado. A sociedade pede que essa mulher precisa ser multitarefa e ela é considerada como heroína. Aí vem a pergunta, heroína quanto e como e de quê?”, provoca Paula Brito.
Ela reforça: “essa mulher que pode ser falha, que é humana que tem seus desejos, mas ao mesmo tempo tem seus medos, as suas ansiedades, então os desdobramentos disso para uma pessoa que é extremamente cobrada são inúmeros.”
Nesse onda, o descanso, segundo a psicóloga, é um ato de resistência. Descansar, quando se é possível, não é fragilidade, mas é necessário em meio a tantos atravessamentos.
“Parar não é travar a produtividade, é ter a possibilidade de fazer uma higienização ali para recomeçar e voltar amis potente, mas significativa para viver.”

“A primeira estratégia que para mim é a mais valiosa é entender que você não é uma heroína. Lembre primeiro da sua humanidade.”
“Saiba que você pode pedir ajuda. A ajuda jamais vai ser algo que te fragiliza, vai ser algo que te humaniza e te aproxima das pessoas e cuide-se. O cuidado implica em: ‘até aqui eu não posso’.” É a importância de impor limites e você mesma reconhecer suas limitações. Se você não tem, crie-as para cuidar de si.
E conclui: “Vamos pensar na liberdade, na possibilidade de ser quem se é, de não se compreender limitada a ocupar os lugares que você deseja ocupar e por favor, cuidem-se; peçam ajuda, cuidem da saúde, não cuidem de todos e esqueçam de si”, alertou.
Pacto: Todos por Todas
Diante desse cenário que adoece e mata, o enfrentamento precisa ir além do 8 de Março e ocupar todos os dias do ano para alcançar políticas públicas concretas que protejam a vida das meninas e mulheres.

Neste mês, o Governo Federal lançou o Pacto Nacional – Brasil contra o Feminicídio, iniciativa articulada com o Congresso Nacional e o Poder Judiciário para fortalecer o enfrentamento à violência contra mulheres e meninas. A proposta prevê atuação coordenada entre os três poderes, integração entre União, estados e municípios, agilização das medidas protetivas, fortalecimento da rede de acolhimento e responsabilização mais rápida dos agressores.
Falar de saúde mental feminina é reconhecer que o adoecimento das mulheres tem raízes estruturais. Cuidar exige que toda a sociedade enfrente a violência, o machismo e as desigualdades para garantir dignidade, proteção e o direito à vida delas.
Como denunciar: Violência não é problema privado, é crime e pode ser denunciada pelo Disque 180 (Central de Atendimento à Mulher), pelo 190 (em caso de flagrante ou risco imediato), pelo Disque 100 (para violações de direitos humanos) ou nas Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs). Procure ajuda, proteja-se e proteja as mulheres do seu convívio social.
Com informações do repórter Paulo José do Acorda Cidade
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