

O que parece um ato rotineiro de higiene doméstica tornou-se uma das principais fontes de contaminação hídrica do planeta. Segundo relatório publicado pela União Internacional para a Conservação da Natureza, a lavagem de tecidos sintéticos é responsável por cerca de 35% dos microplásticos primários despejados nos oceanos e pode liberar mais de 1.900 microfibras em um único ciclo de lavagem.
Essas partículas, com diâmetro entre 1 e 1000 µm, são praticamente invisíveis a olho nu, mas estão presentes em rios, oceanos, solos e até no organismo humano. O problema central está em sua origem. Trata-se de fragmentos de plástico que não são biodegradáveis, o que faz com que se acumulem na natureza e ao longo da cadeia alimentar. Por serem derivados de petróleo, seus efeitos de longo prazo sobre a saúde humana e os ecossistemas estão sendo investigados por pesquisadores e universidades, acendendo um alerta no meio científico no mundo.
A herança do petróleo no guarda-roupa
Micro e nanoplásticos poluentes têm origem nas fibras sintéticas utilizadas na indústria têxtil, como poliéster, nylon e acrílico. Esses materiais são produzidos a partir de resinas plásticas derivadas da extração e do refino do petróleo.
De acordo com a organização Textile Exchange, no relatório Preferred Fiber & Materials Market, cerca de 60% das fibras têxteis produzidas no mundo são feitas de poliéster, o que torna a indústria da moda uma das maiores consumidoras globais de polímeros plásticos, e consequentemente uma das maiores responsáveis indiretas pela liberação de microplásticos nos rios e oceanos.
Resíduos tóxicos na cadeia alimentar
À medida que se fragmentam no ambiente, as fibras sintéticas deixam de ser polímeros íntegros e podem se transformar em oligômeros reativos, ampliando seus potenciais riscos biológicos. Estudos recentes conduzidos ela Dra. Sutapa Ghosh, do Departamento de Farmacologia e Biologia do Câncer da Escola de Medicina da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, indicam que microplásticos podem interagir com a proteína α-sinucleína no sistema nervoso, provocando alterações estruturais associadas ao desenvolvimento da Doença de Parkinson.
Além do dano físico, essas fibras também funcionam como condutores químicos. Elas carregam aditivos industriais, como Bisfenol A (BPA) e Ftalatos, conhecidos por interferirem no sistema endócrino humano. Ao circularem pelos ambientes aquáticos, ainda podem absorver metais pesados e pesticidas presentes na água, formando um coquetel tóxico que entra na cadeia alimentar após ser ingerido por organismos aquáticos e entrar em contato com o solo.
Hoje, microplásticos já foram detectados em diversos alimentos e bebidas, de peixes e frutos do mar a itens como cerveja e mel. A dimensão da poluição por microplásticos revela a urgência do problema. Estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU) indicam que cerca de 51 trilhões de partículas plásticas já circulam nos oceanos, número aproximadamente 500 vezes maior do que o total de estrelas da galáxia.
Diante desse cenário, reduzir a dependência de fibras sintéticas tornou-se um desafio central para países em todo mundo. Até 2030, a União Europeia é um dos blocos que pretende reduzir em 30% a libertação de microplásticos no ambiente, como parte do “Plano de Ação da UE: Rumo a uma poluição zero no ar, na água e no solo”, criado para combater a poluição e promover ecossistemas saudáveis.
Fibras naturais como o algodão são alternativas
Entre as alternativas disponíveis, fibras naturais como o algodão despontam como uma solução viável para a indústria têxtil. Diferentemente das fibras sintéticas, o algodão é uma matéria-prima renovável, de origem vegetal e que não libera microplásticos durante a sua lavagem.
Além disso, mais de 90% do algodão brasileiro no campo se diferencia por um modelo de cultivo em regime de sequeiro, dependendo essencialmente da água da chuva, o que reduz significativamente a pressão sobre recursos hídricos.
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