

A urgência por um trânsito mais seguro em Feira de Santana reuniu, nesta segunda-feira (23), autoridades, especialistas e vítimas em um encontro marcado por dados preocupantes e relatos que revelam o impacto da imprudência nas ruas. O II Fórum de Vítimas de Violência no Trânsito, realizado no Centro de Convenções de Feira, mobilizou forças de segurança, instituições públicas e sociedade civil em torno de um objetivo comum: salvar vidas.
Promovido pelo Comando de Policiamento da Região Leste (CPR-L), em parceria com a Câmara da Mulher Empresária, o encontro ampliou o debate sobre os efeitos da violência no trânsito e apresentou propostas concretas por meio de cartas de intenção. Participaram também a Polícia Rodoviária Federal (PRF), Ministério Público Estadual, Superintendência Municipal de Trânsito (SMT), Guarda Municipal, Polícia Civil e Exército Brasileiro.

Fiscalização e prevenção como prioridade
Um dos pontos centrais do evento foi a necessidade de fortalecer a fiscalização aliada à educação. O comandante do Esquadrão Asa Branca, major PM Sachdev, explicou o papel da unidade no trânsito da cidade.
“Nós fazemos a atividade tanto de fiscalização de trânsito como órgão que apoia o Detran, quanto o policiamento ostensivo, a segurança das pessoas. Todo mundo passa pelo trânsito. Então é importante a Polícia Militar estar presente também no trânsito para garantir que as pessoas consigam ter um ambiente seguro nesse local.”

Estratégias para reduzir a violência no trânsito
O major explicou que a PM estruturou quatro linhas principais de atuação para reduzir a violência no trânsito, que envolvem a intensificação da fiscalização qualificada, especialmente com foco na alcoolemia, a capacitação da tropa para abordagens mais humanas e técnicas, o desenvolvimento de ações educativas, como projetos para crianças, palestras em escolas e atividades com mulheres, e a participação ativa em campanhas e ações públicas, ampliando a conscientização da sociedade e buscando prevenir acidentes.
O major ainda chamou atenção para os números registrados no último fim de semana, que reforçam a gravidade da situação na região. “No total, sábado e domingo, nós tivemos 70 pessoas autuadas por recusa ou constatação de alcoolemia”, revelou o major ao Acorda Cidade.

Imprudência gera consequências no trânsito
A relação direta entre imprudência e sobrecarga no sistema de saúde também foi destacada pela diretora do Hospital Geral Clériston Andrade (HGCA), Cristiana França. “A gente sempre acha que o grande objetivo desses fóruns é a gente salvar vidas. Alertar e dizer à população: a gente não aguenta mais, está perdendo pessoas cada vez mais jovens ou então deixando sequelas extremamente graves.”
Segundo ela, apesar de uma leve redução da violência, os números ainda preocupam. “Bebida e imprudência. Essas são as principais [ocorrências] que vêm. Então, as pessoas, principalmente no final de semana, continuam bebendo, falta de atenção e imprudência no trânsito.”

Ela também reforçou a importância de responsabilizar cada condutor no trânsito e ampliar as ações de prevenção, como forma de evitar que mais famílias sejam impactadas por ocorrências que, na maioria das vezes, poderiam ser evitadas.
Dura realidade
Por trás dos números, histórias como a da técnica em laboratório Délia Oliveira, de 29 anos, revelam o impacto real da violência no trânsito. Ela seguia para o trabalho de motocicleta quando foi atingida por um condutor que não respeitou as normas e apresentava sinais de embriaguez, o que resultou em ferimentos graves que ela leva pra toda vida.
O acidente aconteceu em 14 de agosto do ano passado, nas proximidades do HGCA, por volta das 6h10. Délia pilotava uma motocicleta quando foi atingida por uma carreta e permaneceu internada por mais de um mês. Hoje, ela segue lutando pela vida com muita força, determinação e coragem.

Ao Acorda Cidade, ela relatou os desafios enfrentados desde então. “A minha vida mudou radicalmente, então tem sido muito difícil pra mim e pra minha família. Minha mãe teve que sair do emprego para poder me auxiliar em casa. Então, é uma mudança totalmente diferente da rotina que eu tinha. […] Eu trabalhava. Tem sido muito difícil.”
“Ainda estou me adaptando. Muita dificuldade de ter acessibilidade na nossa cidade, mas venho enfrentando esses desafios; o meu psicológico ficou muito abalado”, acrescentou Délia ao Acorda Cidade.

Conscientizar para salvar vidas
Para a presidente da Câmara da Mulher Empresária, Leidiene Queiroz, o propósito do fórum é salvar vidas através da conscientização no trânsito.
“A gente precisa conscientizar pessoas para que possam dirigir com consciência, que possa ter um trânsito mais saudável. Andar de forma consciente pensando na sua vida e na do outro, porque, na hora que você dirige com imprudência, você pode tirar uma vida e prejudicar uma família toda. O que a gente quer é salvar vidas.”

“A gente quer zerar esse número de pessoas com acidentes no trânsito […] as pessoas que estão no dia a dia, nas ruas, precisam ganhar consciência e fazer um trânsito dentro da nossa cidade muito melhor.”
Responsabilidade é de todos
O comandante do CPR-L, coronel PM Muller, também destacou que a responsabilidade é coletiva.
“Todos nós, indistintamente, nos servimos do trânsito em algum momento do dia da nossa vida, a gente precisa circular nas vias públicas, que é como pedestre, como condutor de veículos, como passageiro dos veículos, e nós precisamos entender que é uma mobilização que não cabe só às instituições. Todos nós precisamos ser promotores de um trânsito mais respeitoso, um trânsito mais disciplinado […] cumprir as regras, respeitando a circulação das outras pessoas.”

Muller também rebateu críticas comuns sobre fiscalização. “Não existe uma indústria da multa em Feira de Santana, existe uma indústria das infrações, e as pessoas precisam se dar conta de que a infração produzida, por menor que ela possa parecer, ela pode ter um significado em acidente, em lesão corporal em algumas pessoas, e até em evento morte, e tudo isso deve chamar a atenção indistintamente de todo e qualquer indivíduo que utilize do trânsito na sua vida”, reforçou o comandante Muller.
O deputado federal Zé Neto também participou do fórum e destacou a importância da educação no trânsito como ferramenta de prevenção. Segundo ele, é preciso ampliar o acesso à formação de condutores e integrar esse ensino às escolas.

O parlamentar ainda chamou atenção para o impacto dos acidentes na rede desaúde, afirmando que grande parte das internações está relacionada ao trânsito, especialmente envolvendo motociclistas, e defendeu maior articulação entre poder público e sociedade para enfrentar o problema de forma mais efetiva.
“75% dos pacientes que estão dentro do HGCA internados são relacionados com acidentes de trânsito em diversas áreas. Motociclismo é o maior e automobilismo. Isso tem que ser resolvido. […] Tem fim de semana que na região a gente tem mais de 40 acidentes só de motocicleta.”
Com informações do repórter Ed Santos do Acorda Cidade
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