27 de March de 2026
“A vergonha precisa mudar de lado”, diz Jéssica Senra após criminalização da misoginia pelo Senado
Foto: Jaqueline Ferreira/Acorda Cidade
Senra esteve em Feira na noite da última quarta (255), quando subiu ao palco do “Só para Elas 2026 – mente, voz e protagonismo feminino”.
“A vergonha precisa mudar de lado”, diz Jéssica Senra após criminalização da misoginia pelo Senado
Foto: Jaqueline Ferreira/Acorda Cidade

“A vergonha precisa mudar de lado.” Foi com essa afirmação, direta e provocativa, que a jornalista Jéssica Senra resumiu o que considera um dos principais desafios no enfrentamento à violência contra as mulheres no Brasil. A declaração foi dada em entrevista ao Portal Acorda Cidade, em Feira de Santana, um dia após o Senado aprovar o projeto de lei que criminaliza a misoginia no país.

A jornalista esteve em Feira de Santana na noite da última quarta-feira (25), quando subiu ao palco do “Só para Elas 2026 – mente, voz e protagonismo feminino”, evento promovido pelo Grupo São Roque. Em sua 8ª edição, o encontro reuniu mulheres diversas em um ambiente de troca, escuta e fortalecimento, com foco em liderança, comunicação e posicionamento profissional.

“A vergonha precisa mudar de lado”, diz Jéssica Senra após criminalização da misoginia pelo Senado
Foto: Jaqueline Ferreira/Acorda Cidade

Apresentado por Will Machado, comunicador social e especialista em comportamento de marcas, o evento também teve caráter social, com parte da renda destinada a uma instituição de apoio a mulheres em situação de vulnerabilidade, além de homenagear lideranças femininas que atuam dentro da própria organização.

“A vergonha precisa mudar de lado”, diz Jéssica Senra após criminalização da misoginia pelo Senado
Foto: Jaqueline Ferreira/Acorda Cidade

“A nossa sociedade é pautada no ódio sobre as mulheres. Na responsabilização das mulheres por tudo. A culpa é sempre nossa, de tudo. Aliás, desde que começaram a escrever sobre o mundo, as mitologias gregas colocam sempre as mulheres como as causadoras do caos. A própria Bíblia nos coloca, a primeira mulher que é colocada na Bíblia, ela seria a responsável por Adão pecar. Então, as mulheres são colocadas como sempre as causadoras do mal na humanidade. Isso precisa mudar, isso foram discursos que foram colocados o tempo inteiro, seja em livros sagrados, em livros históricos, na indústria cultural… Isso precisa mudar. Esse discurso precisa ser encerrado”, afirmou a jornalista ao Acorda Cidade.

“As pessoas precisam ter vergonha de serem machistas”

A frase destacada por ela, “a vergonha precisa mudar de lado”, foi inspirada no posicionamento da francesa Gisèle Pelicot, que ganhou repercussão internacional ao abrir mão do anonimato para expor os abusos que sofreu por mais de 70 homens.

“Expor 70 homens que abusaram dela [Gisèle Pelicot] enquanto ela estava desacordada dentro de casa e o marido facilitando, dopando e facilitando a entrada desses homens, ela disse: ‘a vergonha precisa mudar de lado’. A vergonha realmente precisa mudar de lado. As pessoas têm que ter vergonha de proferirem piadas machistas, comentários machistas ou qualquer discurso machista. Isso precisa ser vergonhoso. Têm homens hoje que têm orgulho de serem machistas. A vergonha precisa mudar de lado.”

A fala acontece em um momento decisivo no cenário legislativo brasileiro. Na última terça-feira (24), o Senado aprovou o Projeto de Lei 896/2023, que criminaliza a misoginia, caracterizada como a exteriorização de ódio, desprezo ou aversão às mulheres. Pelo texto, práticas como injúria, ofensas à dignidade e incitação à violência por razões misóginas passam a ser enquadradas de forma semelhante ao racismo, com penas de reclusão de dois a cinco anos.

A proposta segue para a Câmara dos Deputados e, se aprovada sem mudanças, vai para a sanção do Presidente para virar lei.

“A vergonha precisa mudar de lado”, diz Jéssica Senra após criminalização da misoginia pelo Senado
Foto: Jaqueline Ferreira/Acorda Cidade

É um avanço para nós

Para a jornalista, a mudança na lei é um passo importante, principalmente para as redes sociais, onde muitas pessoas ainda acreditam que é “terra sem lei”. Mas, para que esse avanço seja efetivo, é necessária também uma mudança no comportamento da sociedade diante do machismo e da violência contra as mulheres.

“Muito importante esse projeto de lei que foi aprovado, da criminalização da misoginia e dos discursos misóginos contra mulheres, especialmente nas redes sociais. Isso é um avanço para nós. Quando a lei regulamenta certos comportamentos, a gente consegue avançar.”

“Espero que todas as pessoas que se dizem humanas e que gostam de mulheres estejam apoiando e não façam nenhum circo para tentar desmobilizar ou derrubar essa lei que é tão importante para nós e para o nosso país”, acrescentou Jessica ao Acorda Cidade.

“A vergonha precisa mudar de lado”, diz Jéssica Senra após criminalização da misoginia pelo Senado
Foto: Jaqueline Ferreira/Acorda Cidade

A voz é dela

Durante o talk, Senra compartilhou aspectos pessoais da sua trajetória, como episódios de burnout e o cuidado com a saúde mental como ferramenta para sustentar sua voz, tanto nas redes sociais, quanto em espaços de protagonismo.

“A segurança na mente é o que me dá força pra ter voz.”

O encontro também foi marcado por momentos fortes em meio a tantas notícias de feminicídios no mês que justamente traz o alerta sobre a violência contra meninas e mulheres. A jornalista relembrou a perda de uma amiga, vítima de feminicídio, quando tinha 18 anos, uma experiência que impactou profundamente sua juventude e seu olhar sobre a violência de gênero.

Ao falar sobre relacionamentos, Jessica deixou um alerta direto sobre o ciclo da violência e a repetição de comportamentos abusivos.

“Todos choram, dizem que estão arrependidos e continuam a fazer. Não acredite no cara que ele vai mudar. A maioria não muda. Fuja desses caras. Fuja dos caras que se acham o macho alfa”, alertou a jornalista durante o evento.

Veja o vídeo:

Com informações da jornalista Jaqueline Ferreira, do Acorda Cidade

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