

A construção de repertório para redação de vestibulares passa, inevitavelmente, pelo contato contínuo com a leitura, mas esse hábito tem se enfraquecido entre jovens no Brasil. Dados recentes da pesquisa “Retratos da Leitura” mostram que apenas 47% da população se considera leitora, o que indica que mais da metade dos brasileiros não mantém uma relação frequente com livros.
O cenário preocupa especialistas. Ao analisar os dados, a coordenadora da pesquisa, Zoara Failla, chama atenção para a mudança nos hábitos: “É preocupante notar como as salas de aula estão deixando de ser um lugar de leitura”, declarou ela em divulgação do levantamento. E o quadro se torna ainda mais sensível quando observado entre adolescentes em fase escolar, especialmente aqueles que se preparam para vestibulares.
Mais do que uma queda numérica, o que está em jogo é a forma como a leitura tem sido percebida: cada vez mais associada à obrigação e menos ao prazer. E é justamente essa mudança que impacta diretamente não só o desempenho acadêmico, mas também a formação de repertório de mundo, do pensamento crítico e a capacidade de elaboração escrita.
O hábito que se constrói desde cedo
A relação com a leitura não começa exclusivamente no ensino médio, mas muito antes. O contato precoce com livros, especialmente no ambiente familiar, é determinante para a formação de leitores. No entanto, esse vínculo tem se fragilizado.
O estudo “Social Reading Spaces”, publicado pela editora HarperCollins em parceria com a School Library Association no primeiro semestre de 2025, aponta que apenas 41% das crianças de 0 a 4 anos têm contato frequente com a leitura em casa, uma queda expressiva em relação aos 64% registrados em 2012.
Essa diminuição não ocorre de forma isolada. Ela acompanha transformações mais amplas na rotina das famílias, marcadas pela falta de tempo, pela centralidade das telas e pela dificuldade de inserir práticas que exigem pausa e atenção.
Nesse contexto, o avanço do analfabetismo funcional no Brasil também reforça a gravidade do problema. Dados do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf, 2024) mostram que cerca de 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos têm dificuldades para compreender e utilizar informações simples no cotidiano, mesmo sendo alfabetizados. Entre os jovens, o índice também preocupa: a taxa subiu de 14% em 2018 para 16% em 2024.
Ao longo dos anos, isso se traduz em uma perda progressiva do hábito de ler e, consequentemente, em uma menor familiaridade com textos mais longos, diversos e complexos.
Assim, quando a leitura não se consolida na infância como prática cotidiana, ela tende a reaparecer mais tarde apenas como exigência escolar. Nesse ponto, já não é mais um espaço de descoberta, mas uma tarefa, e o jovem perde a compreensão da literatura como um objeto de arte e espelho de si, que pode dialogar com tantas questões pessoais e sociais.
Da obrigação ao afastamento: o impacto na juventude
Na adolescência, essa ruptura se torna ainda mais evidente. A leitura passa a ser vista majoritariamente como uma atividade vinculada à escola e não como uma escolha que pode englobar entretenimento, gostos pessoais e aprofundamento artístico. No mesmo estudo da HarperCollins, 29% das crianças e adolescentes, entre 5 e 13 anos, afirmam que ler está mais ligado ao aprendizado escolar do que ao lazer, número superior ao registrado em anos anteriores.
Esse movimento se intensifica no período pré-vestibular, quando o contato com a leitura costuma se estreitar nas listas obrigatórias de livros para as provas. Sem um histórico prévio de leitura diversificada, muitos estudantes enfrentam dificuldades não apenas para concluir essas obras, mas para compreendê-las de forma mais aprofundada.
Ao mesmo tempo, o consumo de conteúdos rápidos e fragmentados nas redes sociais reforça uma lógica de leitura superficial, que dificulta a construção de atenção prolongada e interpretação crítica.
Leitura, repertório para redação e construção de linguagem
É sob esse panorama que a formação de repertório para redação se torna um desafio. Diferentemente do que muitas vezes se acredita, repertório não se constrói de forma imediata ou instrumental. Ele é resultado de um acúmulo progressivo de referências, experiências e leituras ao longo do tempo.
Quando esse processo acontece desde cedo, de forma orgânica, o estudante chega à fase do vestibular com um repertório consolidado, capaz de ser mobilizado com naturalidade. Referências literárias, históricas e culturais passam a fazer parte do seu repertório não como algo decorado, mas como algo vivido e interpretado, próximo à sua própria vivência, já que a literatura pode atuar como espelho para cada leitor.
Além disso, o contato com diferentes gêneros textuais (romances, contos, crônicas, ensaios, dramaturgias) contribui diretamente para o desenvolvimento da escrita. A leitura amplia o vocabulário, apresenta diferentes estruturas narrativas e oferece modelos variados de argumentação e de estilo.
Estudantes que mantêm o hábito de ler tendem a demonstrar maior facilidade em organizar ideias, interpretar propostas e construir argumentos consistentes. Não por acaso, a leitura aparece como um dos principais fatores associados ao desempenho em produção textual. De acordo com estudo publicado na revista “Psicologia Escolar e Educacional (2021)”, a compreensão de leitura está diretamente associada ao desempenho em escrita: quanto mais desenvolvida a leitura, maior tende a ser a qualidade da produção textual, especialmente em contextos acadêmicos.
Bibliodiversidade e formação do pensamento crítico
Outro aspecto central nesse processo é a bibliodiversidade, ou seja, o contato com diferentes autores, estéticas, narrativas e perspectivas. Ler apenas obras de determinado gênero ou concentrar-se em um único tipo de texto limita a formação do leitor e reduz as possibilidades de interpretação do mundo.
Isto porque a diversidade de leituras amplia horizontes, permite o contato com diferentes realidades e estimula a construção de um pensamento mais crítico e autônomo. Ao transitar por múltiplas vozes e estilos, o leitor desenvolve a capacidade de comparar, questionar e elaborar suas próprias visões após esse contato.
E esse processo tem impacto direto na escrita. Quanto maior o repertório de leituras, maior a capacidade de mobilizar referências pertinentes, estabelecer conexões e enriquecer argumentos com exemplos consistentes, incluindo citações, alusões e analogias que podem se tornar peças cruciais para um bom repertório para redação de vestibulares.
Mais do que isso, a leitura frequente contribui para que o estudante não veja os livros do vestibular como um obstáculo, mas como parte de um percurso já familiar. Quando o hábito está consolidado, a leitura obrigatória deixa de ser uma ruptura e passa a ser uma continuidade. O estudante passa, então, a também entender cada razão que leva à escolha das obras abordadas nos exames, já conhecendo suas respectivas escolas literárias, estéticas e abordagens.
Cenário global e desafio para educadores
A queda nos índices de leitura entre jovens não representa apenas uma mudança de comportamento, mas um desafio estrutural para a educação. Por isso, é preciso entender que a formação de leitores vai muito além de apenas garantir o acesso ao código escrito, acontecendo principalmente na construção de uma relação contínua com a literatura.
Ao longo do tempo, é esse contato que sustenta a formação do pensamento crítico, da autonomia intelectual e do próprio repertório para redação, nos vestibulares e para toda a vida. Mais do que uma exigência escolar, a leitura precisa ser entendida como um processo de formação, que começa cedo, se desenvolve ao longo dos anos e se reflete diretamente na forma como os jovens leem, escrevem e compreendem o mundo.
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