

A pandemia do Coronavírus, que assolou o mundo em 2020 e 2021, deixou marcas em diversas áreas da nossa vida, principalmente naqueles que foram infectados com o vírus e até hoje enfrentam algumas sequelas, como perda de memória e outros sintomas que são estudados pela doutora Raissa Soares, especialista em clínica médica.
Em entrevista ao Acorda Cidade, Raissa Soares explicou que além da perda de memória, muitas pessoas com a síndrome pós-covid, também conhecida como síndrome da covid longa, perderam o olfato e o paladar, bem como apresentam fadiga, alteração intestinal, dormência nas mãos e nos pés, câimbras noturnas, palpitação, dor articular, névoa mental (brain fog), entre outros sintomas.
Tem pessoas que duram quase dois anos para poder ficar livre, algumas pessoas, inclusive, até hoje, tem essas sequelas desde a doença que teve da cepa selvagem em 2020. Se a gente não trata esses sintomas de alerta, eles acabam aumentando o risco de adoecimento. O grupo estrangeiro, Europa, Canadá e Estados Unidos já confirmaram que nós temos um aumento de doenças embólicas que formam coágulos, aumento do câncer e aumento de doenças autoimunes. Então nós precisamos retirar o rastro do covid que permanece nos órgãos que muitos não conseguem jogar fora”.
Além disso, a médica afirmou que nos homens, também é possível haver redução de testosterona e de produção de espermatozoides. No caso das mulheres, muitas também podem apresentar desequilíbrio hormonal. Sobre as pessoas mais afetadas pela doença, Raissa explicou que se tratam de fatos individuais.
“Nós temos pessoas jovens que não têm nenhum problema de saúde, que tiveram a covid, e de repente, inclusive, perderam a capacidade até de exercitar-se. Assim como nós já tivemos pessoas mais velhas, que inclusive receberam várias doses de imunizantes, e mesmo assim elas estão tendo esses sintomas. Ainda tem sido um fator de discussão o que está trazendo mais sequelas para um grupo e menos sequelas para outros”.
A médica também disse que outros países realizam diversas pesquisas sobre a síndrome da covid longa, enquanto que o Brasil pesquisa em menor quantidade. Segundo ela, as pesquisas brasileiras representam menos de 10% das pesquisas em todo o mundo.
Formas de tratamento
Raissa afirmou que casos leves de covid também podem apresentar sequela, por isso, as pessoas que estão com a doença devem fazer o tratamento para evitar a síndrome pós-covid, pois a permanência do vírus no corpo é uma das principais causas dessa síndrome.
Como forma de tratamento, a médica falou sobre a medicação chamada Paxlovid, aprovada pelo governo federal para reduzir as sequelas pós-covid. Porém, o medicamento pode custar até R$ 5 mil.
A médica também abordou o trabalho de tratamento feito por ela e outros profissionais, que atuam em diversas cidades da Bahia. Raissa afirmou que tem cerca de 3.900 casos tratados em dois anos de trabalho feito por telemedicina.
Essa é a quarta caravana que a gente está passando, nós já fomos no oeste, no sudoeste, região de Conquista, Guanambi, Juazeiro, Sento Sé, Casa Nova. Agora a gente está aqui na Região Metropolitana de Salvador. Onde eu passo, eu sempre clamo as sociedades médicas para que a gente possa discutir, fazer eventos como o grupo estrangeiro está fazendo. […] Por quê? Nós temos mais doenças cardíacas, mais problemas de arritmia, mais problemas relacionados ao surgimento de doenças autoimunes. Tireoidite de Hashimoto explodiu no pós-pandemia, diabetes tipo 1 explodiu no pós-pandemia, doenças que são de grupos articulares, lúpus, artrite reumatóide, O número de pessoas que apareceu com esse tipo de doença aumentou severamente. Doenças vasculares, como vasculite, que é uma doença autoimune dos vasos sanguíneos. Doenças relacionadas a embolias, dezenas e centenas de pessoas que passaram a ter embolias e nunca tiveram histórico de embolias. Doenças relacionadas a um câncer chamado câncer turbo, com comportamento acelerado. São pessoas com diagnóstico de câncer que rapidamente estão apresentando uma evolução de doenças muito rápidas. Nós, na verdade, temos centenas de doenças novas, por isso que as nossas sociedades precisam sentar, discutir, trazer esse tema a público”.
Outro ponto apresentado pela médica foi sobre o Projeto de Lei 1429-2026, de autoria do deputado Giovani Cherini (PL-RS), que atualmente é presidente da Comissão de Saúde. O projeto, que foi protocolado, “prevê o cuidado, a chama, dispõe sobre a atenção integral à saúde das pessoas com condições pós-covid no âmbito do Sistema Único de Saúde”, esclareceu Raissa.

Protocolo de tratamento
Sobre o protocolo de tratamento utilizado por ela, a médica disse, ao Acorda Cidade, que é um método baseado em três pilares feito desde 2023 em outros países. No Brasil, as medicações são manipuladas, no entanto, o valor do tratamento pode chegar a R$ 1.200, considerando que o protocolo completo custa R$ 400 por mês e deve ser feito por três meses. Com isso, Raissa sugeriu ao deputado Giovani Cherini que esse tratamento seja incluído no Projeto de Lei, para ser disponibilizado pelo SUS.
“Ele (o protocolo) é baseado em três pilares, retirar a proteína e fragmentar a proteína residual que fica no corpo e aí o corpo tem mais facilidade de jogar fora, como se fosse um corpo estranho, e você fragmentando a proteína, o corpo consegue eliminar. O segundo pilar é tirar os efeitos que a proteína residual do vírus deixa no corpo, que é a inflamação e são os coágulos. Então, usa-se fitoterápicos. E o terceiro pilar é recuperar a flora intestinal. A nossa flora intestinal é feita de trilhões de bactérias, então nós entramos com o terceiro pilar, que é o tratamento do intestino com o uso de probióticos. E esse tratamento é feito por três meses”.
De acordo com Raissa, atualmente nove médicos na Bahia estão desenvolvendo o projeto de pesquisa, para que esse protocolo se torne uma publicação científica sobre o tratamento.
“A nossa sociedade médica vai ter no Brasil, saindo da Bahia, um projeto com comprovação de antes e depois com melhorias, como eu acabei de te mostrar aqui, depoimentos de pessoas que tinham sintomas severos e que de pós-tratamento eles recuperam em torno de 70% já nos primeiros 40 dias e 90% nos primeiros 90 dias”.
Raissa Soares também chamou atenção para o alto custo do protocolo, e por isso, a necessidade de haver um tratamento disponível no SUS, para facilitar o acesso às medicações.
“Nós precisamos olhar isso com seriedade que a causa exige. E assim como nós temos centros de, por exemplo, hanseníase, que é uma doença complexa, que se não tratar corretamente deixa sequelas, nós precisamos do centro pós-covid, inclusive com uma proposta que seja acolhido todos aqueles que tiveram a covid grave, sobreviventes do covid e que hoje estão tendo necessidade dessa abordagem multidisciplinar”.
Diagnóstico das sequelas
Quanto à identificação de sequelas da covid, a médica disse que a Organização Mundial de Saúde (OMS) reconhece 40 sintomas desde outubro de 2021, quando o diagnóstico de síndrome pós-covid foi confirmado.
“Quando você faz os testes e nenhum teste acusa é chamado diagnóstico de exclusão. Eu já perguntei, eu já fiz vários exames, afastei todas as possibilidades, eu não tenho nada alterado, eu tenho que perguntar quantas vezes essa pessoa teve a doença covid, quantas vezes essa pessoa recebeu imunizantes do covid, que é uma forma de entrar em contato com o vírus, e aí sim, pensar nessa hipótese e quando a gente trata, a gente respeita um princípio da bioética, fazer bem e não fazer mal. As pessoas tratam e melhoram, então a gente sabe que estava no caminho certo”.
Dessa forma, Raissa recomendou que ao ter qualquer sintoma, as pessoas devem sim procurar um médico, bem como realizar exames de rotina.
Não deixe seu corpo estar gritando, pedindo ajuda e você não reconhecendo. Nós estamos num momento que vivemos aí no pós-pandemia. Muitas pessoas ficaram praticamente dois anos sem procurar atendimento médico. Então, nós precisamos cuidar da saúde com responsabilidade, sem medo no coração. Mas busque um atendimento, faça uma revisão. E se aqueles exames seus estão absolutamente normais, os médicos já olharam, não acham nada, lembre que pode ser a síndrome do pós-covid”.
Por fim, Raissa Soares destacou que as sequelas podem sim ser curadas, como já aconteceu com muitos pacientes tratados por ela. Conforme dito pela médica, as pessoas relataram que voltaram a ser quem eram antes de serem infectados pelo vírus, recuperando, por exemplo, a capacidade intelectual e cognitiva.
Com informações do repórter Ed Santos, do Acorda Cidade
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