

Mais de 2 milhões de brasileiros vivem hoje com algum tipo de demência, número que pode chegar a 5,5 milhões até 2050, segundo o Relatório Nacional sobre a Demência no Brasil (ReNaDe). Em meio a esse cenário crescente, casos recentes em estágio avançado, como o do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, reacenderam o debate sobre o momento mais crítico da doença: quando o paciente perde autonomia e passa a depender quase totalmente de cuidados no dia a dia.
De acordo com a Dra. Sandra Regina Mota Ortiz, especialista em Ciências do Envelhecimento e professora de Medicina da Universidade São Judas / Inspirali, ecossistema que atua na gestão de 15 escolas médicas em diversas regiões do Brasil, o Alzheimer em estágio avançado representa uma fase de grande comprometimento funcional. “Nessa etapa, o paciente geralmente já apresenta perda significativa da memória recente e remota, dificuldade severa de comunicação e dependência quase total para atividades básicas, como se alimentar, se vestir e realizar a própria higiene”, explica.
Entre os principais sintomas do estágio avançado estão a desorientação no tempo e no espaço, alterações comportamentais, dificuldade para reconhecer familiares e, em muitos casos, limitações motoras que podem levar à restrição ao leito. Também é comum a presença de complicações clínicas associadas, como infecções recorrentes e dificuldades de deglutição.
A neurologista destaca que, embora o avanço da doença seja inevitável, o acompanhamento adequado faz diferença ao longo de toda a jornada. “O Alzheimer não afeta apenas o paciente, mas toda a rede de apoio. Por isso, o cuidado precisa ser multidisciplinar, envolvendo médicos, enfermeiros, terapeutas e familiares preparados para lidar com as mudanças progressivas”, afirma.
Tratamento e cuidados: foco na qualidade de vida
Apesar de ainda não existir cura para o Alzheimer, há estratégias terapêuticas que ajudam a desacelerar a progressão dos sintomas e, principalmente, a melhorar a qualidade de vida do paciente. O tratamento pode incluir o uso de medicamentos específicos, além de intervenções não farmacológicas.
Segundo Sandra, nos estágios mais avançados, o foco tende a ser paliativo. “Isso significa priorizar o conforto, a dignidade e o bem-estar do paciente. Controlar sintomas, evitar sofrimento e oferecer suporte emocional são pontos centrais nesse momento”, explica.
Entre as abordagens adotadas estão terapias ocupacionais, estímulos cognitivos adaptados à capacidade do paciente, cuidados com a alimentação e suporte psicológico tanto para o indivíduo quanto para os cuidadores. Em alguns casos, ajustes no ambiente também são necessários para garantir segurança e reduzir riscos de acidentes.
A especialista reforça que o tratamento, mesmo quando não curativo, tem impacto direto na experiência da doença. “Cuidar é sempre uma forma de tratamento. Mesmo em fases avançadas, é possível proporcionar mais conforto e preservar aspectos importantes da dignidade humana”, completa.
Com o aumento da expectativa de vida e o crescimento dos casos de demência no Brasil, compreender o Alzheimer e suas fases se torna cada vez mais essencial. Informação, diagnóstico precoce e suporte adequado são pilares fundamentais para enfrentar a doença com mais preparo e humanidade, tanto para quem vive com a condição quanto para aqueles que estão ao seu lado.
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