2 de May de 2026
Cláudia Romano
Cláudia Romano | Foto: Divulgação
Para especialistas, o cenário também revela uma oportunidade estratégica para transformar a educação brasileira.
Cláudia Romano
Cláudia Romano | Foto: Divulgação

O Brasil perdeu cerca de 1 milhão de alunos na educação básica em apenas um ano, segundo dados preliminares do Censo Escolar 2025, divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). O número total de matrículas caiu de 47,1 milhões para 46 milhões — uma redução de 2,3%. No ensino médio, o recuo foi ainda mais expressivo: queda de 5,4%, o equivalente a 419 mil estudantes a menos, atingindo o menor patamar de todo o século XXI.

Os dados ganham ainda mais relevância em abril, mês em que se celebra o Dia Nacional da Educação, em 28 de abril, e convidam à reflexão sobre os rumos do ensino no país. Para especialistas, embora o cenário pareça alarmante à primeira vista, ele também revela uma oportunidade estratégica para transformar a educação brasileira.

É o que avalia a especialista em educação Cláudia Romano, presidente do Semerj (Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado do Rio de Janeiro), vice-presidente do Grupo Yduqs e presidente do Instituto Yduqs. Segundo ela, os números indicam uma mudança estrutural que pode ser revertida em avanço qualitativo. “Há uma tendência clara de retração, mas também uma oportunidade inédita de reconfigurar o sistema educacional com foco em qualidade”, afirma.

Parte da queda é explicada pela demografia. A taxa de fecundidade brasileira recuou para 1,55 filho por mulher, abaixo do nível de reposição populacional, enquanto a população de 0 a 3 anos diminuiu 8,4% entre 2022 e 2025. Ainda assim, a especialista alerta que o fenômeno não pode ser atribuído exclusivamente a esse fator.

O ensino médio, que alcançou seu pico em 2004 com 9,16 milhões de estudantes, acumula uma perda de quase 2 milhões de matrículas em duas décadas. Países como Coreia do Sul, Japão e diversas nações europeias passaram por processos semelhantes, mas conseguiram transformar a redução demográfica em ganho de qualidade, com mais investimento por aluno e modernização dos currículos.

No Brasil, os dados revelam desigualdades regionais. São Paulo, por exemplo, concentrou 60% da queda no ensino médio, com 259 mil matrículas a menos. Enquanto a rede pública perdeu 425 mil alunos, a rede privada registrou crescimento. “Quando o principal motor econômico do país lidera essa estatística, o sinal é inequívoco: há abandono, desinteresse e desconexão entre o que a escola oferece e o que o jovem precisa”, analisa Cláudia.

Apesar dos desafios, há avanços importantes. “A distorção idade-série no 3º ano do ensino médio caiu 61% em quatro anos. As matrículas em tempo integral quase dobraram desde 2020, alcançando 8,8 milhões. O ensino fundamental segue praticamente universal e o acesso à creche se aproxima das metas do Plano Nacional de Educação. São conquistas reais”, destaca.

Para a especialista, o momento exige mudança de perspectiva. “Menos alunos pode ser, pela primeira vez, uma boa notícia. Temos a chance de redirecionar recursos para qualidade: turmas menores, formação docente, uso de tecnologia e acompanhamento individualizado. Países como Finlândia e Coreia do Sul fizeram isso e hoje colhem os resultados”, explica.

Cláudia reforça que o ensino médio concentra o principal desafio. A perda de 419 mil matrículas não se explica apenas pela demografia, mas também por evasão, desinteresse e falta de conexão com o projeto de vida dos jovens.

“Nos nossos campi, acompanhamos mais de 800 mil estudantes de graduação e vemos o impacto direto do que acontece — ou deixa de acontecer — no ensino médio. Iniciativas como o Propag, o Programa Juros pela Educação e o Pé-de-Meia mostram que há instrumentos concretos para impulsionar o ensino técnico, com ganhos fiscais e investimento inicial zero para os estados”, afirma.

Para ela, o Censo Escolar 2025 deve ser interpretado como um ponto de virada. “Mais do que um retrato, ele é um chamado à ação. A janela demográfica é finita. Se não aproveitarmos esse momento para investir mais por aluno, valorizar professores e repensar o ensino médio, perderemos uma oportunidade única.”

“Menos alunos pode ser o início de uma revolução silenciosa, ou mais um capítulo de desperdício. A diferença está nas escolhas que fizermos agora. O desafio deixou de ser quantitativo e passou a ser qualitativo: construir uma educação que faça sentido para quem está — e para quem deixou — a sala de aula”, conclui.

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