29 de April de 2026
cirurgia Santa Casa de Feira tem três programas de residência médica aprovados pelo MEC
Foto: Ascom/HDPA
O procedimento, considerado inédito na região, consiste na instalação de uma prótese que substitui a caixa de voz.
cirurgia Santa Casa de Feira tem três programas de residência médica aprovados pelo MEC
Foto: Ascom/HDPA

A Santa Casa de Misericórdia de Feira de Santana realizou, pela primeira vez, uma cirurgia para restabelecer a voz de pacientes em tratamento do câncer de laringe. O procedimento, considerado inédito na região, consiste na instalação de uma prótese que substitui a caixa de voz.

Durante uma entrevista na edição desta terça-feira (28) do programa Acorda Cidade, o médico Leonardo Rios explicou que a cirurgia realizada na última quarta (22) representa um grande avanço na reabilitação dos pacientes que perderam a voz no processo de tratamento do câncer.

Leonardo Rios, médico cirurgião de cabeça e pescoço
Leonardo Rios, médico cirurgião de cabeça e pescoço | Foto: Barbara Cardoso

“Quando nós prezamos para atender um paciente, queremos atender na sua integralidade. Não queremos apenas dar o diagnóstico, queremos tratar o paciente, curar, se for possível, controlar a doença, mas também é muito importante a reabilitação deste paciente oncológico”, disse.

O cirurgião de cabeça e pescoço, que realizou o procedimento juntamente com a médica Mariana Cedro, explicou que a prótese já vem sendo utilizada há algum tempo, mas que é a primeira vez que a unidade feirense disponibiliza o equipamento para um paciente de forma 100% gratuita, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS).

“Eu fiz a residência em São Paulo em 2009 e, na época, a gente já fazia implantes dessa prótese na USP. Fazíamos em parceria com o governo do estado de São Paulo. Já tinha esse equipamento dentro do Hospital das Clínicas e nós tínhamos acesso e, em 2022, se não me engano, o Ministério da Saúde lançou uma portaria disponibilizando a prótese fonatória a nível nacional pelo SUS”, disse o médico.

Para quem é a prótese?

Durante a conversa com o radialista Dilton Coutinho, âncora do programa Acorda Cidade, o médico, que é o coordenador do departamento de cirurgia de cabeça e pescoço da Santa Casa, explicou que a prótese é destinada para um perfil de paciente bem específico.

Segundo Rios, o equipamento é recomendado para pessoas que foram vítimas de câncer de garganta e que, durante o processo de tratamento do tumor, foi necessária a retirada da laringe, também chamada de caixa de voz, órgão responsável por emitir os sons que produzem a voz.

“Infelizmente, nos pacientes que têm o câncer avançado, a gente precisa retirar completamente a caixa da voz. Com isso, ele perde todo o arcabouço fonatório e as pregas vocais. Então ele não consegue mais falar”, disse.

“Esse paciente fica com um buraco definitivo no pescoço, que é por onde ele respira. Então não passa mais ar na boca. Ele não consegue falar, porque todo o ar sai exclusivamente por esse orifício do pescoço, porque ele não tem mais laringe”, disse o médico.

Fiz traqueostomia, vou perder a voz?

Durante a entrevista, o médico também aproveitou a oportunidade para diferenciar os tipos de traqueostomia, o procedimento cirúrgico que consiste em criar uma abertura artificial, chamada de estoma, na parte anterior do pescoço, diretamente na traqueia.

Traqueostomia
Traqueostomia | Foto: Reprodução / Redes Socias

Leonardo explicou que realizar esse tipo de cirurgia não significa necessariamente a perda da voz.

“Alguns pacientes que têm a traqueostomia, ela pode ser temporária, reabilita, consegue retirar a cânula e o paciente volta a falar e volta a respirar normalmente. Porque estes pacientes não perderam a caixa de voz. Eles tiveram uma condição de forma temporária que fez com que houvesse a necessidade do posicionamento da cânula no pescoço. Nós estamos falando de um outro paciente”, disse o médico.

“O paciente que reabilitamos na semana passada foi uma vítima de câncer de garganta, que perdeu completamente a laringe, portanto agora só passa comida ali, não passa mais ar. Então toda a respiração do paciente é pelo pescoço. O que eu e a Dra. Mariana Cedro, fizemos foi buscar essa prótese fonatória. Ela entrou em contato com a empresa juntamente com a equipe da Santa Casa de Misericórdia e nós posicionamos essa prótese para direcionar o ar para a boca do paciente novamente”, completou o médico.

O pós-cirurgia

O cirurgião explicou que a instalação da prótese, que é um procedimento relativamente simplificado, significa somente o primeiro passo para que o paciente volte a falar. Leonardo afirmou que o acompanhamento e a conduta após a cirurgia determinarão, em grande medida, o sucesso da retomada da comunicação.

Fonoaudióloga destaca importância do tratamento após diagnóstico de autismo
Foto: Freepik

“Porque, como o paciente não tem mais a caixa da voz, todo o ar estava saindo pelo pescoço. A gente posiciona uma prótese para redirecionar o ar para sair pela boca, que não saía mais porque não tem mais esse fluxo de ar pela boca. Então, ele volta a falar. Ele volta a falar, no início com uma voz ruim, mas, na medida em que vai reabilitando com o fonoaudiólogo, que é um profissional extremamente importante nesse processo”, disse.

“O acompanhamento com ele é importante porque ele vai reabilitar o paciente. Porque, imagine, essa pessoa passou seis meses sem conseguir falar nenhuma palavra porque não tinha garganta. Então, o organismo desaprende a sua capacidade fonatória, o diafragma, toda a musculatura ventilatória; isso é perdido. Então, o fonoaudiólogo vai ajudar nessa reabilitação”, complementou o médico.

O poder da voz

Durante a entrevista, o cirurgião falou sobre o poder simbólico que o procedimento pioneiro realizado na Santa Casa representa. Rios explicou que, conceitualmente, a voz representa três pilares importantes na vida de qualquer pessoa: a comunicação (capacidade de transmitir o que quer), a identidade (capacidade da voz ser uma marca pessoal) e a conexão (estabelecer uma ligação direta com outro ser humano).

“Quando falamos de comunicação e de conexão, parecem palavras semelhantes, mas comunicar-se é passar uma mensagem, enquanto conectar-se é um pertencimento social e conectar-se a uma pessoa. Exemplo: ontem à noite eu estava com meu filho, conversando com ele, perguntando como foi o dia dele, o que ele fez na escola. Mas, naquele momento, além de eu estar me comunicando com o meu filho, eu estava me conectando a ele. Eu estava criando um laço mais forte com ele. Então, a voz nos permite a conexão”, disse.

Foto: Ilustração/Freepik

“Então, o SUS é maravilhoso. Quando conseguimos tratar o paciente, curar o paciente, reabilitar o paciente, devolvemos o paciente para a sociedade para ele voltar a se comunicar, se conectar, ter a sua identidade de volta. Isso é muito importante e foi isso que nós sentimos na semana passada”, concluiu o médico.

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