

A Santa Casa de Misericórdia de Feira de Santana realizou, pela primeira vez, uma cirurgia para restabelecer a voz de pacientes em tratamento do câncer de laringe. O procedimento, considerado inédito na região, consiste na instalação de uma prótese que substitui a caixa de voz.
Durante uma entrevista na edição desta terça-feira (28) do programa Acorda Cidade, o médico Leonardo Rios explicou que a cirurgia realizada na última quarta (22) representa um grande avanço na reabilitação dos pacientes que perderam a voz no processo de tratamento do câncer.

“Quando nós prezamos para atender um paciente, queremos atender na sua integralidade. Não queremos apenas dar o diagnóstico, queremos tratar o paciente, curar, se for possível, controlar a doença, mas também é muito importante a reabilitação deste paciente oncológico”, disse.
O cirurgião de cabeça e pescoço, que realizou o procedimento juntamente com a médica Mariana Cedro, explicou que a prótese já vem sendo utilizada há algum tempo, mas que é a primeira vez que a unidade feirense disponibiliza o equipamento para um paciente de forma 100% gratuita, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS).
“Eu fiz a residência em São Paulo em 2009 e, na época, a gente já fazia implantes dessa prótese na USP. Fazíamos em parceria com o governo do estado de São Paulo. Já tinha esse equipamento dentro do Hospital das Clínicas e nós tínhamos acesso e, em 2022, se não me engano, o Ministério da Saúde lançou uma portaria disponibilizando a prótese fonatória a nível nacional pelo SUS”, disse o médico.
Para quem é a prótese?
Durante a conversa com o radialista Dilton Coutinho, âncora do programa Acorda Cidade, o médico, que é o coordenador do departamento de cirurgia de cabeça e pescoço da Santa Casa, explicou que a prótese é destinada para um perfil de paciente bem específico.
Segundo Rios, o equipamento é recomendado para pessoas que foram vítimas de câncer de garganta e que, durante o processo de tratamento do tumor, foi necessária a retirada da laringe, também chamada de caixa de voz, órgão responsável por emitir os sons que produzem a voz.
“Infelizmente, nos pacientes que têm o câncer avançado, a gente precisa retirar completamente a caixa da voz. Com isso, ele perde todo o arcabouço fonatório e as pregas vocais. Então ele não consegue mais falar”, disse.
“Esse paciente fica com um buraco definitivo no pescoço, que é por onde ele respira. Então não passa mais ar na boca. Ele não consegue falar, porque todo o ar sai exclusivamente por esse orifício do pescoço, porque ele não tem mais laringe”, disse o médico.
Fiz traqueostomia, vou perder a voz?
Durante a entrevista, o médico também aproveitou a oportunidade para diferenciar os tipos de traqueostomia, o procedimento cirúrgico que consiste em criar uma abertura artificial, chamada de estoma, na parte anterior do pescoço, diretamente na traqueia.

Leonardo explicou que realizar esse tipo de cirurgia não significa necessariamente a perda da voz.
“Alguns pacientes que têm a traqueostomia, ela pode ser temporária, reabilita, consegue retirar a cânula e o paciente volta a falar e volta a respirar normalmente. Porque estes pacientes não perderam a caixa de voz. Eles tiveram uma condição de forma temporária que fez com que houvesse a necessidade do posicionamento da cânula no pescoço. Nós estamos falando de um outro paciente”, disse o médico.
“O paciente que reabilitamos na semana passada foi uma vítima de câncer de garganta, que perdeu completamente a laringe, portanto agora só passa comida ali, não passa mais ar. Então toda a respiração do paciente é pelo pescoço. O que eu e a Dra. Mariana Cedro, fizemos foi buscar essa prótese fonatória. Ela entrou em contato com a empresa juntamente com a equipe da Santa Casa de Misericórdia e nós posicionamos essa prótese para direcionar o ar para a boca do paciente novamente”, completou o médico.
O pós-cirurgia
O cirurgião explicou que a instalação da prótese, que é um procedimento relativamente simplificado, significa somente o primeiro passo para que o paciente volte a falar. Leonardo afirmou que o acompanhamento e a conduta após a cirurgia determinarão, em grande medida, o sucesso da retomada da comunicação.

“Porque, como o paciente não tem mais a caixa da voz, todo o ar estava saindo pelo pescoço. A gente posiciona uma prótese para redirecionar o ar para sair pela boca, que não saía mais porque não tem mais esse fluxo de ar pela boca. Então, ele volta a falar. Ele volta a falar, no início com uma voz ruim, mas, na medida em que vai reabilitando com o fonoaudiólogo, que é um profissional extremamente importante nesse processo”, disse.
“O acompanhamento com ele é importante porque ele vai reabilitar o paciente. Porque, imagine, essa pessoa passou seis meses sem conseguir falar nenhuma palavra porque não tinha garganta. Então, o organismo desaprende a sua capacidade fonatória, o diafragma, toda a musculatura ventilatória; isso é perdido. Então, o fonoaudiólogo vai ajudar nessa reabilitação”, complementou o médico.
O poder da voz
Durante a entrevista, o cirurgião falou sobre o poder simbólico que o procedimento pioneiro realizado na Santa Casa representa. Rios explicou que, conceitualmente, a voz representa três pilares importantes na vida de qualquer pessoa: a comunicação (capacidade de transmitir o que quer), a identidade (capacidade da voz ser uma marca pessoal) e a conexão (estabelecer uma ligação direta com outro ser humano).
“Quando falamos de comunicação e de conexão, parecem palavras semelhantes, mas comunicar-se é passar uma mensagem, enquanto conectar-se é um pertencimento social e conectar-se a uma pessoa. Exemplo: ontem à noite eu estava com meu filho, conversando com ele, perguntando como foi o dia dele, o que ele fez na escola. Mas, naquele momento, além de eu estar me comunicando com o meu filho, eu estava me conectando a ele. Eu estava criando um laço mais forte com ele. Então, a voz nos permite a conexão”, disse.

“Então, o SUS é maravilhoso. Quando conseguimos tratar o paciente, curar o paciente, reabilitar o paciente, devolvemos o paciente para a sociedade para ele voltar a se comunicar, se conectar, ter a sua identidade de volta. Isso é muito importante e foi isso que nós sentimos na semana passada”, concluiu o médico.
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