1 de May de 2026
Dia do Trabalhador em Feira de Santana reforça luta por direitos, salário justo e fim da escala 6x1
Foto: Ed Santos/Acorda Cidade
Para o sindicalista João Rocha Sobrinho, a data vai além da celebração e representa um chamado à mobilização social.
Dia do Trabalhador em Feira de Santana reforça luta por direitos, salário justo e fim da escala 6x1
Foto: Ed Santos/Acorda Cidade

Com música, manifestações culturais e discursos em defesa da classe trabalhadora, a Praça Dona Pomba, no bairro Rua Nova, em Feira de Santana, foi palco nesta quinta-feira (1º) de um ato político e social em celebração ao Dia do Trabalhador. A mobilização reuniu sindicatos, movimentos populares, lideranças comunitárias e trabalhadores de diversas categorias em torno de pautas como o fim da escala 6×1, a redução da jornada de trabalho, a valorização do salário mínimo e melhores condições de vida.

Além das apresentações de Gilsam e Banda Airiyê, Hugo Damasceno e Banda HD e da participação do Afoxé Pomba de Malê, o evento reforçou o simbolismo da Rua Nova como território de resistência, cultura e luta popular.

Entre as principais reivindicações esteve o fim da escala 6×1, pauta que ganhou força em todo o país. Recentemente, o Governo Federal enviou ao Congresso Nacional o Projeto de Lei 1838/2026, que propõe a extinção oficial desse modelo, reduzindo a jornada semanal de 44 para 40 horas sem redução salarial (gov.br), diante dos impactos na saúde física e mental dos trabalhadores. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), jornadas excessivas e a falta de descanso adequado estão diretamente ligadas ao aumento de casos de burnout e doenças ocupacionais, reforçando o debate sobre qualidade de vida e tempo de convivência familiar.

Dia do Trabalhador em Feira de Santana reforça luta por direitos, salário justo e fim da escala 6x1
Foto: Ed Santos/Acorda Cidade

Para o sindicalista João Rocha Sobrinho, ex diretor do Diesse com 10 anos de casa, a data vai além da celebração e representa um chamado à mobilização social.

“A nossa ideia era reunir os trabalhadores para debater um 1º de maio que é o dia internacional da classe trabalhadora. Em vários países do mundo nesse momento tem uma ação lembrando os quatro companheiros revolucionários que foram enforcados em Chicago em 1886 por defender a jornada de oito horas de trabalho”, afirmou.

“Hoje nós lutamos não só pela jornada de trabalho, mas nós lutamos para que a classe trabalhadora tenha acesso à qualidade de vida. O Brasil é o décimo país mais rico do mundo, mas nós temos um país rico e o povo pobre, infelizmente, com todos os esforços do governo, 60% da nossa população passa bastante dificuldade”, declarou.

João destacou ainda a defesa de um salário mínimo mais justo e criticou a dificuldade enfrentada por trabalhadores e aposentados para garantir direitos básicos previstos na Constituição.

“Quem recebe um salário mínimo está impedido de desfrutar do artigo 6 da Constituição Brasileira. Está lá no artigo 6: todo homem, toda mulher tem direito a moradia digna, alimentação, educação, saúde, lazer, cultura. E eu pergunto a você, quem recebe um salário mínimo tem acesso a tudo isso? Certamente que não. Sequer como direito, sequer mora direito.”

O debate também é reforçado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), que aponta que o salário mínimo necessário para suprir as necessidades básicas de uma família de quatro pessoas deveria ser atualmente cerca de cinco vezes maior que o valor vigente, argumento frequentemente utilizado pelos movimentos sindicais na defesa da valorização salarial.

Dia do Trabalhador em Feira de Santana reforça luta por direitos, salário justo e fim da escala 6x1
João Rocha Sobrinho | Foto: Ed Santos/Acorda Cidade

“O salário mínimo calculado pelo Dieese, que em vez de R$ 1.621, seria R$ 7.400 hoje. E quem recebesse o salário mínimo de R$ 1.621, passar a receber o salário de R$ 7.400, ele ia morar melhor, comer melhor, educar melhor, ia ter acesso ao lazer. E ao ter acesso ao lazer, geraria trabalho, emprego e renda para as pessoas desempregadas”,

disse o ex diretor do Diesse.

Entre as bandeiras levantadas no ato, o fim da jornada 6×1 apareceu como uma das mais urgentes. Ao avaliar o cenário atual dos trabalhadores no país, Sobrinho afirmou que a mobilização popular é fundamental para garantir avanços e evitar retrocessos nos direitos da classe trabalhadora.

“A derrota que o Congresso Nacional impôs a Lula, nos dois últimos dias, demonstrou que se a classe trabalhadora não colocar massa na rua nós não vamos de forma nenhuma conseguir. Aquele congresso de direita, a classe dominante toda só fala mal de Lula”, avaliou o sindicalista.

“A briga mesmo é para que ninguém mais trabalhe ao sábado. O fim da jornada 6×1, que é uma vergonha. Porque 80% das nossas mulheres, a escala da jornada dela é 7×0. Ela trabalha 7 dias na semana, ela não tem nenhum dia de folga”, disse João.

Dia do Trabalhador em Feira de Santana reforça luta por direitos, salário justo e fim da escala 6x1
Foto: Ed Santos/Acorda Cidade

A professora Marlede Oliveira, presidente da APLB Sindicato e um dos rostos mais conhecidos na luta pela educação em Feira, também reforçou a defesa da redução da jornada semanal e criticou o modelo atual de trabalho.

O capitalismo vai tirando direito da classe trabalhadora. Isso é no mundo todo, onde o capital domina, onde a ganância é pelo lucro e não pela vida das pessoas. Nós temos um congresso reacionário. Quem está no congresso nacional, os 13 deputados, são deputados que representam o latifúndio, o empresariados, o banqueiro, os ricos, a classe dominante, como diz o presidente Lula, o andar de cima e não o andar de baixo. Então, nesse momento é para a gente defender o andar de baixo, para que o trabalhador, ele tenha direito ao lazer também, porque quem trabalha 6×1 só tem um dia de folga, ele não tem tempo para cuidar da sua vida, não tem tempo para cuidar dos seus filhos, vive no corre-corre para ganhar um mísero salário mínimo”, afirmou Marlede ao Acorda Cidade.

Marlede ainda afirmou que sempre que surge uma pauta em defesa do trabalhador, aparece o discurso de que “o Brasil vai quebrar”, mas isso não aconteceu com o 13º salário, com o terço de férias e também não acontecerá com o fim da escala 6×1.

Dia do Trabalhador em Feira de Santana reforça luta por direitos, salário justo e fim da escala 6x1
Marlede Oliveira | Foto: Ed Santos/Acorda Cidade

“Cada um que votou no seu deputado, ligue para ele, cobre dele, você vai votar com quem? Com os trabalhadores ou contra nós? Porque deputado que vai para o Congresso é para representar o povo e não para ser inimigo do povo”, acrescentou.

Representando o setor químico, Luiz Pedro Moraes, da diretoria do Sindiquímica Bahia e da Central Única dos Trabalhadores (CUT-Regional), destacou que o 1º de Maio também é um momento de reflexão sobre as condições de trabalho.

“O dia de hoje foi definido como um dia para reflexão a respeito da condição da nossa classe trabalhadora. Obviamente, trouxe também a parte festiva, mas acima de tudo, é para que a gente possa estar refletindo sobre a condição da nossa classe trabalhadora e as melhorias que a gente deve ter na nossa condição de trabalho”, explicou.

Segundo ele, em relação as atividades industriais, a segurança do trabalhador e a redução da jornada seguem entre as principais reivindicações da categoria.

Dia do Trabalhador em Feira de Santana reforça luta por direitos, salário justo e fim da escala 6x1
Luiz Pedro Moraes | Foto: Ed Santos/Acorda Cidade

“Para algumas categorias isso tem sido um trabalho praticamente escravo, onde as pessoas não têm tempo de conviver com a sua família e ter momentos também de lazer e cultura.”

Em busca de emprego

O ex-diretor do Dieese ainda chamou atenção para um problema que, segundo ele, não aparece totalmente nos números oficiais do desemprego. Para o sindicalista, muitos trabalhadores deixaram de procurar emprego por falta de qualificação ou até de condições financeiras para buscar uma vaga.

“Hoje a taxa de desemprego fica em torno de quatro e pouco por cento, que é a menor nos últimos 40 anos. Mas ela não reflete toda a realidade. Porque nós temos cerca de 40% da nossa população, homens e mulheres, que já não mais procuram trabalho. Primeiro, porque não têm qualificação. Segundo, às vezes não têm nem dinheiro para se deslocar e buscar esse trabalho”, afirmou João Rocha. Ele explicou que só é considerado desempregado quem procurou emprego nos últimos três meses e não encontrou.

Ele defendeu ainda que a redução da jornada de trabalho é uma das alternativas para enfrentar esse cenário e melhorar a qualidade de vida da população.

“Nós não devemos viver para trabalhar, nós devemos trabalhar para viver.”

A manifestação foi organizada pelo Movimento em Defesa da Democracia contra o Fascismo, Frente Brasil Popular, CUT, CTB, CSB, UGT, Força Sindical e outras entidades sindicais e sociais.

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