10 de May de 2026
Mulher com bebê no puerpério
Foto: Reprodução/ Magnific
De acordo com Aquila Thalita, as dificuldades reais da maternidade não são discutidas por conta da romantização.
Mulher com bebê no puerpério
Foto: Reprodução/ Magnific

O puerpério, período que as mães passam no pós-parto, muitas vezes pode ser complicado fisicamente e emocionalmente. Lidar com as mudanças, principalmente para as mães de primeira viagem, pode não ser nada fácil em vários aspectos. Segundo a psicóloga Aquila Thalita, esse momento é desafiador por estar associado a várias transformações que a mulher e a família vivem. 

Em entrevista ao Acorda Cidade, Aquila Thalita explicou que mesmo se preparando, nem sempre é possível controlar a forma como a mãe irá reagir. 

As interações iniciais que você faz com o bebê, as grandes mudanças de rotina, a privação de sono também, que é algo bem complicado nessa fase. E também porque a fase anterior, o puerpério, que é o processo gravídico também é marcado por várias transformações. Principalmente na transição do papel da mulher para o papel de mãe. Então isso também na fase do puerpério é um fator que pode ser condicionado a essa relação mais instável da saúde mental da mulher”. 

Sobre os sentimentos mais comuns, a psicóloga destacou que as mudanças de humor são as principais, como instabilidade de humor e choro frequente. Assim como salientou que essas situações também acontecem por se tratar de dois desconhecidos, seja pelo bebê que está nascendo no mundo ou pela mulher que está nascendo como mãe, e ambos estão tendo o primeiro contato um com o outro. 

Nos primeiros 15 dias, a gente tem uma instabilidade emocional mais marcada, que a gente pode chamar de baby blues, que é aquele momento de acomodação da mulher a essa fase inicial da vida do bebê. Lembrar que são dois desconhecidos, afinal de contas, a mulher está nascendo como mãe e o bebê está nascendo fora da barriga também. E essa instabilidade emocional, o choro recorrente, tem algumas mulheres que deprimem um pouco também, mas a gente precisa observar, entendendo que é uma fase em que pode ter essas questões, isso é uma coisa esperada e que precisa ser acolhida sem ser julgada”.

De acordo com Aquila Thalita, as dificuldades reais da maternidade não são discutidas por conta da romantização. A ideia de que toda mulher nasce para ser mãe e que a maternidade é algo divino acaba gerando um constrangimento em quem sofre nesse período. 

Cada mulher realmente vai dizer o que a maternidade significa, mas dar sentido a maternidade também precisa ser algo muito pessoal e subjetivo, exatamente pra gente escutar o que essa mulher tem a dizer dessa fase e entender também que algumas não vão trazer o mesmo enunciado do que a gente vê nessa coisa mais social, de romantizar, achar muito bonito, ter que estar feliz porque o bebê nasceu; tudo isso é possível, mas atrelado a isso também tem outras questões que precisam ser evidenciadas e faladas”. 

Dessa forma, o índice de mulheres que precisam de algum suporte é grande, mas muito negligenciado. Muitas vezes, as mães podem relatar o que sentem e as pessoas dirão que é algo normal e que vai passar. Com isso, elas podem ignorar esses sentimentos e pode piorar a situação. 

Isso tudo por conta dessa romantização. É como se fosse aquela frase, ‘a mulher precisa padecer nesse paraíso’. E talvez, longe disso, a maternidade não esteja situada no paraíso. Você pode passar por ele, mas tem coisas que você enfrenta que realmente são muito difíceis. Afinal de contas, a criança nasce, não sabe que nasce, é imatura. Então tem reações que ela tem que vão realmente forçar da mulher, do adulto, reações que são completamente incontroláveis, mas que também estão associadas ao momento”. 

Baby Blues x depressão pós-parto

A psicóloga também explicou a diferença entre baby blues e depressão pós-parto. Segundo ela, a principal diferença é o tempo. O baby blues é um fenômeno associado ao início do pós-parto. Enquanto que a depressão pós-parto tem sintomas mais específicos atrelados a mudanças na autoestima, nos cuidados com o bebê, na própria rotina, entre outros. 

“Então o baby blues é como se fosse um estado de tristeza materna comum. Já a depressão pós-parto é um estado em que a alteração de visão de vida, de perspectiva, de cuidado consigo mesmo e com a criança, pode alterar a relação da mãe com o mundo de uma forma mais brusca e precisa de uma intervenção”. 

Quanto à intervenção, ela explicou que pode acontecer exclusivamente na área da psicologia ou na área médica geral, mas que uma intervenção médica nem sempre é necessária. No entanto, afirmou que o acolhimento das mães deve acontecer sem julgamentos. 

“A intervenção medicamentosa ou com a ajuda de algum médico psiquiatra, da própria obstetra também precisa ser avaliado para ser pontuado por conta de qualquer tipo de alteração que possa interferir na relação mãe e bebê, principalmente o uso de medicações que possam alterar a percepção, sensação, tudo isso aí precisa ser avaliado com cautela”. 

Rede apoio

Além disso, Aquila Thalita abordou a maneira como uma rede de apoio pode ajudar a evitar que as mães passem por essas formas de sofrimento psíquico no pós-parto. No entanto, também pode piorar a situação quando acaba sendo excedente. 

Para cuidar de um bebê você precisa ser cuidada também. Muito se fala de quando o bebê nasce, mas pouco se fala de quando a mulher está nascendo como mãe. E de como esse momento vulnerável precisa ser acolhido por pessoas do entorno. Agora, esse acolhimento precisa estar atento à vontade da mulher, lembrar que o puerpério é da mãe, não é da família. Essa vulnerabilidade psíquica muitas vezes está associada não somente à falta, mas também ao excesso dessa rede de apoio junto com essa mulher no puerpério”.

Aquila Thalita
Aquila Thalita | Foto: Ney Silva/ Acorda Cidade

Nesse sentido, ela volta a abordar a necessidade da mãe de também receber atenção, cuidado, compreensão e acolhimento sem julgamentos. Principalmente porque leva tempo para que a mulher adapte sua vida ao bebê e as mudanças que vêm junto com o pós-parto. 

É tanta movimentação, instabilidade emocional, transição de papéis que acontece, que essa reorganização vai acontecendo com o tempo, e às vezes você cobra, exige uma performance daquela mulher, faz perguntas de coisas que ela não sabe. Então isso tudo acaba favorecendo um pouco para esse impacto no primeiro momento. Nada que não vá sendo ajustado criativamente, afinal de contas é uma fase de transição, isso vai passar também, mas toda mulher vai passar por isso de uma forma diferente. Então, o momento realmente é de você acolher sem julgar e de oferecer escuta”.  

Cada pós-parto é único

Os problemas de ordem psíquica no período pós-parto não necessariamente podem acontecer apenas após o primeiro filho, já que cada puerpério é diferente e cada nascimento acontece em um momento diferente, esclareceu a psicóloga.

“A gente fala que a gente pode ter um puerpério com algum problema mais acentuado se a gente teve uma gestação também com algum problema de ordem psíquica, uma depressão, uma ansiedade. Então, tudo isso também precisa ser contextualizado para a gente entender as razões daquela mulher estar passando por aquele processo”. 

Nesse sentido, não são todas as mulheres que passarão por essas situações, pois cada uma terá uma experiência diferente. 

“Eu não posso generalizar, mas se a gente for buscar o caso a caso, a maioria vai ter o que falar de coisas boas e de coisas ruins do puerpério, sim. Principalmente a mulher por conta da sobrecarga de expectativa que as pessoas depositam nessa eficiência desse trabalho materno”. 

Sinais de problemas de ordem psíquica

Perguntada sobre os sinais que indicam que a saúde mental da mãe pode estar afetada, Aquila Thalita disse que a primeira observação é do estado do humor geral. 

Se ela está nervosa, chorosa, se tem alguma relação com cuidado com o próprio corpo também, uma mulher que não está querendo comer, não toma banho direito, essas coisas mais da rotina. Uma mulher que dorme muito, também é algo que a gente precisa ficar atento. Isso aí está mais em características gerais, mas se você for ver no caso a caso, sempre vai ter uma coisa que pode chamar a atenção dentro dessa particularidade”. 

A principal recomendação para aliviar a sobrecarga emocional nesse período é fazer terapia, afirmou a psicóloga, ressaltando que, se necessário, o acompanhamento pode começar já no início da gestação. Mas sempre seguindo a demanda, pois não é algo obrigatório para todas as mulheres. 

Não é uma coisa que a mulher ficou grávida precisa de terapia. Mas por conta das demandas psicológicas relacionadas à maternidade, o próprio movimento de se tornar mãe se torna uma condição vulnerável emocionalmente e psicologicamente para a mulher. Então, isso tudo pode ser uma coisa que se trate de forma preventiva, mas no momento que a gente tem ali um colapso ou um problema, a terapia, a escuta, a procura de um profissional realmente capacitado para escutar essa mulher nessa singularidade é indispensável”. 

Além disso, ela chamou atenção para o atendimento psicológico na rede pública, que oferece suporte nos ambulatórios, principalmente para as que realizam o pré-natal nesses espaços. 

“O espaço particular também é sempre um espaço de apoio, afinal de contas ele existe. Mas a gente não pode descartar o sistema público de saúde porque a gente sabe que ele existe também e ele precisa ser utilizado”. 

Por fim, Aquila Thalita sugere para as mães que elas se acolham, pois o acolhimento é fundamental nesses momentos, ainda mais quando há essa identificação entre essas mulheres.

A expectativa social é que a gente possa, como uma pessoa que se torna mãe, esperar aquele momento com muita felicidade. Mas há frustração associada a vários comportamentos relacionados à chegada de um bebê, não somente do que ele faz que pode causar isso em você, mas também do comportamento da rede de apoio, vai causar essa coisa difícil de você controlar, porque às vezes você está se preparando para um momento, mas você não sabe quando o momento chega, a forma como você vai lidar com isso e a forma como você vai reagir também. Então, se acolher, eu acredito esperar uma coisa, mas se acontecer diferente acolher isso também”.

Com informações do repórter Ney Silva, do Acorda Cidade

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