

Silencioso, muitas vezes cometido dentro de casa e praticado por quem deveria proteger. O abuso sexual contra crianças e adolescentes segue como uma das violências mais difíceis de combater e uma das que mais crescem em Feira de Santana. No mês da campanha Maio Laranja, que reforça a prevenção e o enfrentamento desse tipo de crime, os dados chamam atenção: houve aumento de 12,4% nos casos de violência sexual contra menores entre 2024 e 2025, com os registros passando de 183 para 213 ocorrências.
Do total deste ano, quase 90% (191 casos) foram de abuso sexual e 22 de exploração sexual. Segundo a delegada Clécia Vasconcelos, titular da Delegacia para o Adolescente Infrator (DAI), grande parte dos crimes acontece dentro do próprio ambiente familiar e cerca de 80% dos abusadores são parentes ou pessoas próximas da vítima.
“O estupro, o que vai caracterizar é o ato sexual, ato libidinoso, vamos assim dizer, não consentido. E para executá-lo se faz necessário o uso de grave ameaça ou violência. E quando esta pessoa não tem a capacidade de consentir com o ato libidinoso uma adolescente, uma criança menor de 14 anos, alguém que tem alguma debilidade mental, alguém que esteja sob efeito de álcool ou outra substância, então a gente entende que esta pessoa está vulnerável. Então o estupro e ainda o estupro de vulnerável.”
Ela explica que, para configurar o crime, não é necessária a conjunção carnal, popularmente conhecido como ‘chegar as vias de fato’.
“Lembrando que para configurar o estupro não é imprescindível o ato sexual, o ato libidinoso já configura: passar a mão, encostar, tudo aquilo que atende, aquilo que popularmente se fala, fora a lascívia, o tesão, a tara. Estamos falando disso.”
Abuso Sexual Infantil x Estupro de Vulnerável: são iguais?
A resposta é não. O abuso sexual infantil é um termo mais amplo, usado para falar de toda forma de violência sexual contra crianças e adolescentes, como toques inadequados, exposição à pornografia, assédio, exploração sexual e também o estupro.
Já o estupro de vulnerável é um crime previsto em lei e acontece quando há ato libidinoso ou relação sexual com alguém que não tem capacidade de consentir, como crianças menores de 14 anos, pessoas com deficiência mental ou alguém sob efeito de substâncias que impeçam o consentimento.
Casos crescem e subnotificação preocupa
Somente nesta semana, até a quarta-feira (13), 13 casos já haviam sido registrados pela delegacia. “É assustador”, disse Clécia que recebe diarimanete diversos tipos de casos.
Segundo ela, em 2025, Feira registrou 100 casos de estupro de vulnerável. De janeiro a maio deste ano, já são 47 ocorrências. “O ano passado nós tivemos 100 casos de estupro de vulnerável e eu posso dizer que esse ano nós já tivemos um acréscimo. De janeiro a maio deste ano nós já temos 47 casos.”
Maioria dos abusadores é alguém próximo
A delegada alerta ainda para a forte subnotificação, principalmente porque o agressor costuma estar dentro da própria família. Conforme os dados, cerca de 80% dos casos envolvem pessoas conhecidas ou parentes próximos da vítima.
“Geralmente quem abusa essa criança é quem tem o dever de proteger. É um pai, é um padrasto, é um irmão, é um tio, é um avô. Então, a família abafa o caso, porque prefere poupar aquele abusador covarde para que ele não seja alcançado pela polícia, punido e preso e deixa a criança em continua exposição”, alertou a delegada ao Acorda Cidade.
O papel da família, da escola e da sociedade
A delegada ressalta que proteger crianças e adolescentes não é responsabilidade apenas da polícia, mas de toda a sociedade. Segundo ela, muitas vezes é a escola quem percebe os primeiros sinais, porque a criança se sente mais segura naquele ambiente. Ela também chama atenção para os riscos no ambiente digital. Apenas nesta semana, a delegacia registrou 13 casos ligados a joguinhos online.

“Porque a criança, o adolescente se sente mais à vontade naquele ambiente, comenta com a professora, com o coleguinha, e aí chega até, a escola chama os responsáveis para tratar. Ou seja, um ambiente de confiança. É necessária a contribuição, a vigilância dos pais e responsáveis legai em todos os sentidos. Nós estamos vivendo um momento muito desafiador para quem cuida de criança e adolescente. São muitas variáveis que tornam eles mais vulneráveis. Exposição da mídia, redes sociais e jogos. Nós tivemos aqui essa semana 13 casos de joguinhos Roblox e hoje ainda é quarta-feira. Se os pais têm algum receio, têm alguma dúvida, nos procure.”
“Quando a gente fala em abuso sexual, não é só estupro não. É expor vídeos pornográficos para essa criança, para esse adolescente. Divulgar imagens. A gente fala no estupro porque o mais violento. Você imagine como essa criança vai romper o ciclo? Como é difícil. Raramente ele vai confiar. Ele vai contar para alguém de confiança. Então sejamos nós essas pessoas de confiança. A questão da criança não tem o abraço da sociedade. Muitos casos a mãe, os parentes protegem o abusador e não a criança”, disse.
A investigação de um caso de estupro de vulnerável começa a partir da comunicação do caso à polícia e envolve análise de redes sociais, ambiente escolar, coleta de depoimentos e busca por provas complementares. Nos crimes sexuais, a palavra da vítima tem ‘relevância especial’, segundo a delegada.
“Em crimes sexuais, a palavra da vítima tem especial relevância.” Ainda assim, segundo a delegada, a polícia busca reunir outros elementos que fortaleçam a responsabilização criminal. “Não é uma questão da palavra dela contra a palavra do abusador. Mas a gente procura outros elementos de convicção que juntamente com a narrativa da vítima materialize um norte para uma possível condenação.”
Maio Laranja em Feira de Santana, participe!
O dia 18 de maio marca o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, criado em memória de Araceli Cabrera Sánchez Crespo, menina sequestrada, violentada e assassinada em 1973. Na data, a Polícia Civil de Feira promoverá um manifesto no estacionamento da prefeitura, das 8h30 às 12h, com a participação da rede de proteção e representantes das forças de segurança.
A delegada Clécia Vasconcelos reforçou o convite à população e destacou que o enfrentamento desse tipo de crime é responsabilidade de todos.
“Mexer com a inocência de uma criança, de um adolescente é um pecado, é um crime. Você, indivíduo criminoso que abusa de crianças e adolescentes, você vai ser alcançado sim pelo sistema de segurança.”
Com informações do repórter Ed Santos, do Acorda Cidade
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