

Acidentes envolvendo motocicletas são uma das maiores causas de internamento no Hospital Geral Clériston Andrade (HGCA), em Feira de Santana. Somente no primeiro trimestre deste ano, 924 pessoas foram socorridas para a unidade, vítimas deste tipo de violência no trânsito.
Com a chegada do Maio Amarelo, campanha internacional realizada todos os anos de conscientização para a redução de acidentes e mortes no trânsito, Cristiana França, diretora do HGCA, aproveitou o momento para fazer um alerta sobre o alto índice de acidentes de trânsito na região de Feira de Santana.
Em entrevista ao Acorda Cidade, a diretora afirmou que vítimas de acidentes de trânsito, como colisões entre veículos, batidas, atropelamentos e quedas, representam a maioria do atendimento da unidade. Somente em 2025, em média, 300 vítimas dessa categoria de acidente deram entrada por mês na unidade.
“Nós temos um banco de dados com informações desde agosto de 2023. Nós estamos compilando porque é importante não só para Feira de Santana, mas para toda a região centro-oeste da Bahia e os 126 municípios que o Clériston atende”, disse a diretora.

“O que chama sempre muita atenção e é a nossa preocupação nessa divulgação é que, a cada dia, está aumentando o número de acidentes com moto. Então, para se ter uma ideia, dos acidentes que ocorreram nos primeiros três meses deste ano, 78% dos atendimentos foram de vítimas de acidentes com moto”, completou a diretora.
França fez questão de enfatizar que vítimas do trânsito de outras categorias, como colisões envolvendo carros ou atropelamento de pedestres, também foram contabilizadas no período, mas, quando comparadas com as pessoas que deram entrada por conta de um acidente envolvendo motos, os números são quase inexpressivos individualmente.
“Além do acidente, existem também problemas quanto à gravidade com que esses pacientes continuam chegando no Clériston. Aqueles que utilizam o capacete têm lesões menores, mas em membros inferiores. Nas regiões onde se tem o hábito de não usar o capacete, a gente vê muitos acidentes a nível de coluna e de cabeça”, disse.
“Se a gente sair um pouquinho de Feira de Santana, vamos ver que a maioria das pessoas, ou a totalidade delas, que pilotam motos não conseguem usar o capacete, além de outras infrações, como levar três pessoas em uma moto, levar crianças na moto ou levar material que impeça o condutor de segurar dos dois lados do guidão”, completou a diretora.
Ocupação dos leitos
Outro ponto que a diretora do HGCA destacou foi a complexidade da ocupação de leitos por vítimas de acidentes de trânsito, condição que ela acredita ser evitável em grande escala com estratégias de educação no trânsito, direção defensiva e prudência.

“Nós continuamos ainda com muitas macas no corredor e 80% delas estão sendo ocupadas por parte destes acidentes. Nós estamos trabalhando de uma maneira muito bacana para diminuir os pacientes que normalmente são clínicos ou cirúrgicos que estão lá. Mas a esmagadora maioria desses pacientes são vítimas do trânsito”, disse.
“Nós, do Clériston, estamos chamando a atenção para que a gente possa tomar algumas decisões e medidas para diminuir a entrada desses pacientes, diminuir as sequelas desses acidentes e, acima de tudo, diminuir o número de pessoas que chegam lá e, muitas vezes, a gente não pode fazer nada e leva a óbito”, completou a diretora.
“Saúde não tem preço, mas tem custo”
Ao Acorda Cidade, a diretora aproveitou a oportunidade para explicar que a diária de um paciente vítima de acidente de trânsito na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), apesar de ser gratuita, custa em média R$ 5.000 para o hospital.

“Além das dores das famílias, quando perdem o ente ou quando esses pacientes ficam debilitados, amputados, temos o custo desse paciente para o SUS. Nós tínhamos anteriormente um seguro DPVAT que foi extinto e é um custo extremamente elevado. São pacientes que ficam muito tempo em leito de terapia intensiva, muito tempo dentro das enfermarias; às vezes eles ficam dois meses, e a gente lutando para salvar a vida deles”, disse.
“Se a gente reverter esses custos, porque entendemos que esses acidentes podem ser preveníveis, nós poderíamos utilizar para melhorar outras tecnologias, outros equipamentos, outras medicações, outros procedimentos. Mas, infelizmente, a gente destina para essas vítimas porque o dinheiro é único, o dinheiro não brota”, completou a diretora.
Fóruns de discussão
Para finalizar, França explicou que o hospital está empenhado em desenvolver estratégias para diminuir o número de acidentes em Feira de Santana e em cidades da região. Uma das iniciativas foi a realização de fóruns para debater o tema com a presença de diversos órgãos ligados ao assunto.

“Nós solicitamos que cada órgão fizesse uma carta de intenção informando o que é que cada um poderia fazer para melhorar o trânsito de Feira de Santana e da região. Já recebemos essas cartas; nós vamos fazer um documento oficial para entregar ao Ministério Público, porque nós precisamos também que o MP esteja conosco para efetivamente ver o que nós vamos fazer”, disse França.
“Nós ainda não estamos sentindo que está diminuindo. Essa é a preocupação de todos nós. A gente precisa trabalhar em ações, talvez até punitivas. Quando eu falo em punitivas, não é de prender, mas eu acho que, às vezes, o brasileiro só sente quando é no bolso, para ver o que a gente pode fazer. Trabalhar a questão da educação nas escolas, que eu vejo também que os mais novos podem cobrar isso dos pais”, finalizou França.
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