21 de May de 2026
Deolane Bezerra
Foto: Reprodução / Instagram
A investigação também cita Everton de Souza em esquema ligado a organização criminosa.
Deolane Bezerra
Foto: Reprodução / Instagram

Uma operação do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e da Polícia Civil contra lavagem de dinheiro ligada a uma organização criminosa prendeu, na manhã desta quinta-feira (21), a influenciadora digital e advogada Deolane Bezerra. Também havia um mandado de prisão contra Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado como líder da facção, que já está preso, além de familiares dele.

Também foi preso Everton de Souza, conhecido como “Player”, apontado pela investigação como operador financeiro da organização.

Procurado, o advogado de Deolane, Luiz Imparato, disse que está se “inteirando dos fatos”. O advogado Bruno Ferullo, que defende Marcola, também afirmou que ainda vai se inteirar do caso. A defesa dos demais investigados não foi localizada pela reportagem.

Outros alvos da Operação Vérnix incluem um irmão e um sobrinho de Marcola. No total, são seis mandados de prisão preventiva, além de ordens de busca e apreensão.

Segundo a investigação, o esquema de lavagem envolve uma transportadora de cargas com sede em Presidente Venceslau (SP), que seria controlada pela cúpula da organização criminosa.

Deolane Bezerra passou as últimas semanas em Roma, na Itália. O nome dela chegou a ser incluído na lista da Difusão Vermelha da Interpol, mas ela retornou ao Brasil na quarta-feira (20). Os agentes cumprem mandados de busca e apreensão na casa dela, em Barueri, e em outros endereços ligados à influenciadora.

Um influenciador digital considerado filho de criação por Deolane e um contador também são alvos de busca e apreensão.

Everton de Souza aparece nas mensagens interceptadas durante a investigação dando orientações sobre distribuição de dinheiro da transportadora de cargas investigada e indicando contas de destino. Por isso, é apontado como operador financeiro da organização.

Outros dois alvos de prisão estão no exterior, segundo a suspeita da polícia: uma sobrinha de Marcola estaria na Espanha e um sobrinho dele estaria na Bolívia.

Marcola e o irmão dele estão presos na Penitenciária Federal de Brasília e serão comunicados sobre a nova ordem de prisão preventiva.

Também foi determinado o bloqueio de 39 veículos avaliados em mais de R$ 8 milhões e R$ 357,5 milhões em bloqueios financeiros dos investigados.

Sobre a investigação

A investigação começou em 2019 com a apreensão, pela Polícia Penal, de bilhetes e manuscritos com dois presos na Penitenciária II de Presidente Venceslau. O material deu origem a três inquéritos policiais sucessivos, cada um responsável por revelar uma nova camada da estrutura criminosa investigada.

O primeiro inquérito teve como foco direto os dois presos que estavam com os manuscritos. A análise do material apreendido permitiu identificar referências a ordens internas da facção, contatos com integrantes de elevada posição hierárquica e menções a ações violentas contra servidores públicos. Esses dois investigados foram condenados e inseridos no sistema penitenciário federal.

Entre os trechos analisados, chamou atenção dos investigadores a citação a uma “mulher da transportadora”, que teria levantado endereços de agentes públicos para subsidiar ataques planejados pela organização criminosa.

Essa menção deu origem ao segundo inquérito policial, que buscou identificar quem seria a mulher mencionada nos bilhetes e qual seria a relação da transportadora de cargas com o grupo criminoso.

As diligências conduziram a uma empresa sediada em Presidente Venceslau, posteriormente reconhecida, segundo a investigação, como empresa de fachada usada pelo crime organizado para lavagem de dinheiro.

A investigação deu origem à Operação Lado a Lado, que em 2021 revelou movimentações financeiras incompatíveis, crescimento patrimonial sem lastro econômico suficiente e a utilização da transportadora como braço financeiro da organização criminosa.

Nesta operação, a apreensão do celular de um homem apontado como operador central trouxe para o MP e para a Polícia Civil ainda mais informações sobre a dinâmica de lavagem de dinheiro por meio da empresa de fachada. Isso abriu uma nova frente de investigação sobre suspeitas de repasses financeiros e conexões com uma influenciadora digital de grande projeção nacional.

Polícia Civil e Ministério Público de São Paulo realizam operação contra facção criminosa
Foto: Polícia Civil de São Paulo

A partir das análises, o inquérito apontou que o investigado atuava na compra de caminhões, realização de pagamentos, movimentação de recursos da cúpula da facção, execução de ordens de Marcola e administração de patrimônio em nome dele e do irmão.

As imagens dos depósitos que favoreciam contas de Deolane Bezerra e Everton de Souza foram localizadas no aparelho celular apreendido na casa do investigado, que está foragido, assim como a esposa.

Segundo a investigação, os valores provenientes da empresa de transportes eram destinados a Marcola, ao irmão dele e a familiares. Para as transações, foram usadas as contas de Everton de Souza e Deolane Bezerra.

A apuração ainda constatou que a influenciadora possuía estreitos vínculos pessoais e de negócios com um dos gestores da transportadora de cargas investigada. Foi a partir desse material que nasceu a Operação Vérnix, terceira etapa da investigação, agora voltada a detalhar um esquema mais amplo de lavagem de dinheiro, com ramificações empresariais, patrimoniais e financeiras.

Os levantamentos apontaram a utilização de pessoas jurídicas, recebimentos de origem não esclarecida, circulação de valores milionários e aquisição ou vinculação a bens de alto padrão por parte de Deolane Bezerra. Para os investigadores, a projeção pública, a atividade empresarial formal e a movimentação patrimonial eram utilizadas como camadas de aparente legalidade para dificultar a identificação da origem ilícita dos recursos.

Risco de fuga e sofisticação do esquema

Ao decretar as prisões, a Justiça de São Paulo entendeu que há provas do crime e indícios fortes de autoria contra os investigados, incluindo movimentações financeiras suspeitas e vínculos diretos com a organização criminosa. Segundo a decisão, a prisão era necessária para garantia da ordem pública, diante do risco de destruição de provas e interferência na investigação.

A Justiça também entendeu que outras medidas cautelares seriam insuficientes diante da sofisticação do grupo e que havia risco de fuga e ocultação de patrimônio, agravado pelo fato de alguns investigados estarem no exterior.

Investigação aponta movimentações financeiras atribuídas a Deolane

A investigação fez cruzamentos de provas apreendidas nos últimos anos com relatórios de movimentação em contas físicas e jurídicas em nome de Deolane Bezerra para identificá-la como possível recebedora de dinheiro ligado à organização criminosa.

Parte das movimentações ocorreu em depósitos em espécie, partindo do caixa da organização por meio da transportadora de cargas investigada e ordenados pela cúpula da facção, segundo a investigação.

Entre 2018 e 2021, Deolane recebeu em sua conta física R$ 1.067.505,00 em depósitos fracionados abaixo de R$ 10 mil, técnica conhecida como “smurfing”. Segundo a polícia, o intermediador era Everton de Souza, que indicava a conta de Deolane para “fechamentos” mensais.

Outro ponto citado na investigação são quase 50 depósitos feitos a duas empresas de Deolane Bezerra, no valor total de R$ 716 mil, por uma empresa que se apresenta como banco de crédito e que tem como responsável um homem morador da Bahia que recebe em torno de um salário mínimo por mês.

A análise das contas, tanto de Deolane quanto das empresas dela, não identificou pagamentos relacionados a esses créditos, o que é apontado pela investigação como indício de ocultação ou dissimulação de recursos.

Também não foram identificadas prestações de serviço como advogada que justificassem os valores repassados para as contas da influenciadora e das empresas dela.

A Justiça determinou o bloqueio de R$ 27 milhões em nome de Deolane Bezerra. Segundo a investigação, o valor seria referente a recursos cuja origem não foi comprovada, com indícios de lavagem de dinheiro.

Fonte: G1

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