1 de June de 2026
Programa Escola Nacional Nego Bispo de Saberes Tradicionais
Foto: Reprodução/ Escola Nacional Nego Bispo

Narrativas transmitidas por mulheres quilombolas no Pará, memórias preservadas pela oralidade em Minas Gerais, histórias compartilhadas por mestres e mestras em comunidades de São Paulo e conhecimentos ancestrais transmitidos por meio dos tambores e da dança tradicional no Tocantins. Embora desenvolvidas em diferentes regiões do país, essas iniciativas têm em comum a valorização dos saberes quilombolas como fonte de conhecimento, identidade e resistência que passam a integrar a formação de estudantes de licenciatura e professores da educação básica.

As ações fazem parte do Programa Escola Nacional Nego Bispo de Saberes Tradicionais, iniciativa criada pelo Ministério da Educação (MEC) e coordenada nacionalmente pelo Instituto Federal da Bahia (IFBA). Inspirado no legado do intelectual quilombola Antônio Bispo dos Santos, o Nego Bispo, o programa apoia 100 projetos de extensão em todo o país e promove o encontro entre conhecimentos acadêmicos e saberes ancestrais, reconhecendo mestres e mestras tradicionais como formadores e protagonistas dos processos educativos.

Do Pará ao Tocantins, passando por Minas Gerais e São Paulo, os projetos mostram como a memória coletiva, a oralidade, as manifestações culturais e os modos de vida quilombolas podem contribuir para a construção de práticas pedagógicas mais plurais e conectadas aos territórios. Em comum, as iniciativas buscam fortalecer a transmissão intergeracional de conhecimentos e ampliar a presença das epistemologias quilombolas nos espaços de formação docente.

Tecendo memórias

No Quilombo de Calados, em Baião, no Pará, o curso “Mulheres que Tecem Memórias: Narrativas Femininas Afro no Quilombo de Calados” reconhece as narrativas femininas afro como expressões fundamentais de memória, ancestralidade e resistência cultural. Por meio de rodas de conversa, registros orais e atividades de documentação colaborativa, a formação valoriza as experiências das mulheres quilombolas e fortalece a transmissão de saberes entre gerações. Oficinas de escrita, fotografia, audiovisual e registro de narrativas contribuem para a construção de acervos comunitários e memoriais digitais que preservam a história coletiva da comunidade.

Em Várzea da Palma, no Norte de Minas Gerais, o curso “Vozes da Ancestralidade: memórias e oralidades quilombolas” reúne educadores, estudantes e membros de comunidades tradicionais em torno da valorização da oralidade como forma de produção de conhecimento. A proposta nasceu da presença de comunidades quilombolas na região de Lassance e da necessidade de fortalecer a formação de professores que atuam nesses territórios.

Programa Escola Nacional Nego Bispo de Saberes Tradicionais
Foto: Reprodução/ Escola Nacional Nego Bispo

Segundo a proponente do projeto Márcia Moreira Custódio, o projeto foi construído em parceria com secretarias municipais de educação, lideranças quilombolas e o professor Pedro Almeida, mestre de saberes tradicionais quilombolas. Para ela, trabalhar memória e oralidade é fundamental para fortalecer a identidade das comunidades e garantir que as histórias dos mais velhos continuem sendo transmitidas às novas gerações. A iniciativa estimula a participação de mestres e mestras nos espaços escolares, transformando suas narrativas em instrumentos de formação e valorização cultural.

Palavra falada como território de resistência

No bairro do Quilombo, em São Bento do Sapucaí, em São Paulo o curso “Vozes do Quilombo: a oralidade que semeia memórias” transforma barracões, espaços culturais e territórios de religiosidade em ambientes de aprendizagem. A proposta reúne estudantes, educadores, artesãos e moradores em vivências que valorizam congadas, cantos, narrativas e práticas culturais transmitidas ao longo das gerações.

Inspirado no pensamento de Nego Bispo, o projeto entende a oralidade como uma “escrita viva”, inscrita no corpo, na terra e na experiência coletiva. Mais do que registrar histórias, a iniciativa fortalece a autoria quilombola sobre suas próprias narrativas e combate processos históricos de apagamento cultural.

Já na Comunidade Quilombola Claro, Prata e Ouro Fino, em Paranã, Tocantins, o projeto “A reafirmação da identidade quilombola pelas batidas dos tambores e a dança da sussa” utiliza as artes e ofícios tradicionais como ferramenta de formação e preservação cultural. A iniciativa ensina jovens a confeccionar tambores de couro, aprender os toques tradicionais e praticar a dança da sussa, elementos centrais dos festejos religiosos e culturais da comunidade.

Segundo a proponente do projeto, Adelma Ferreira de Souza, a proposta surgiu a partir de anos de convivência e pesquisa na comunidade e da percepção de que era necessário criar mecanismos para transmitir esses conhecimentos às novas gerações. Para ela, os tambores e a sussa são elementos essenciais da identidade cultural quilombola e sua preservação depende do protagonismo dos mestres de saberes tradicionais, responsáveis por compartilhar conhecimentos construídos ao longo de gerações.

Sobre o programa

Lançado em julho de 2025, o Programa Escola Nacional Nego Bispo promove a valorização e integração dos saberes tradicionais na formação de licenciandos, na formação continuada de professores da educação básica e na atuação junto às comunidades. A iniciativa contribui para a efetividade das Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008 e da Portaria MEC nº 470/2024, ao incorporar mestres e mestras de saberes tradicionais ao ensino, à pesquisa e à extensão, fortalecendo perspectivas pedagógicas plurais e não eurocêntricas.

Com investimento de R$ 7,5 milhões até 2026, a ação é realizada em parceria com o Instituto Federal da Bahia e oferta cursos organizados em três eixos: saberes afro-brasileiros, indígenas e quilombolas, estruturados em subeixos como Artes e Ofícios; Línguas e Narrativas; Memórias e Oralidade; e Cosmociências.

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