5 de June de 2026
emergência - HGCA
Foto: Jaqueline Ferreira/Acorda Cidade

O Maio Amarelo chegou ao fim, mas o alerta permanece aceso. Durante a campanha, o Hospital Geral Clériston Andrade (HGCA) promoveu ações de conscientização sobre segurança viária. No entanto, a mensagem mais impactante não veio das palestras ou atividades educativas. Ela esteve e está no números de vidas interrompidas pela violência no trânsito.

Dados apresentados pela unidade revelam a dimensão de um problema que diariamente tira vidas, deixa sequelas permanentes e pressiona o Sistema Único de Saúde (SUS).

Referência para 126 municípios e cerca de 4 milhões de habitantes, o HGCA está localizado no maior entroncamento rodoviário do Norte e Nordeste e recebe vítimas de colisões, atropelamentos e acidentes envolvendo carros, caminhões e, principalmente, motocicletas.

Somente entre janeiro e março deste ano, o hospital realizou 6.971 atendimentos, dos quais 1.189 relacionados a acidentes de trânsito.

Números que assustam

Mais do que estatísticas, os dados representam vidas interrompidas, famílias impactadas e histórias marcadas pela dor. Na última quinta (4), feriado de Corpus Christi, um jovem de apenas 30 anos, morreu na véspera do aniversário, após passar em um cruzamento em Feira de Santana. O sinal estava vermelho no momento em que ele foi atingido por um ônibus do transporte coletivo.

Só em 2025, o HGCA registrou 3.369 atendimentos de vítimas de acidentes de trânsito. O levantamento aponta crescimento de 6,91% nos últimos três anos.

Acidentes de trânsito atendidos pelo HGCA

Indicador Número
Atendimentos totais (jan-mar) 6.971
Atendimentos por acidentes de trânsito 1.189
Total de vítimas atendidas em 2025 3.369
Crescimento em três anos 6,91%

Os números ganham outra dimensão quando deixam de ser apenas registros e passam a contar histórias reais.

Uma delas é a da técnica em análises clínicas Délia Santos de Oliveira, de 29 anos. Atropelada quando seguia para o trabalho em Feira de Santana, ela teve as duas pernas amputadas e hoje enfrenta um longo processo de reabilitação, além da busca por recursos para aquisição de próteses. Veja como ajudar.

Jovem que teve as duas pernas amputadas após acidente faz vaquinha para comprar próteses
Foto: Ed Santos/Acorda Cidade

Outro caso recente mobilizou moradores da cidade. No dia 22 de maio, o casal Patrícia Rodrigues e Mário Sérgio Sacramento retornava do trabalho quando colidiu com um cavalo solto na Avenida Eduardo Fróes da Mota, no Anel de Contorno. Mário Sérgio, infelizemnte, não resistiu e Patrícia está gravemente ferida. Dias depois, familiares e moradores realizaram um protesto cobrando medidas para evitar a circulação de animais nas vias da cidade.

Família protesta após acidente com cavalo solto matar homem e deixar mulher em estado grave
Foto: Paulo José/Acorda Cidade

Onde os acidentes acontecem

Como o Acorda Cidade já divulgou, os registros do HGCA apontam maior concentração de ocorrências em áreas de intenso fluxo de veículos e motocicletas. Centro, Tomba e Mangabeira estão liderando as ocorrências no primeiro trimestre deste ano.

Locais com mais registros de acidentes
Ranking 2025 Registros 2026 Registros
Av. Eduardo Fróes da Mota (Anel de Contorno) 72 Centro 32
Centro 68 Bairro Tomba 29
Av. João Durval 37 Bairro Mangabeira 24
Bairro Tomba 36 Maria Quitéria/São José 22
Distrito de Humildes 30 Sem registro do local 19
Av. Presidente Dutra 27 Contorno 18
Maria Quitéria/São José 25 Av. Getúlio Vargas 18
Bairro Conceição 24 Av. Presidente Dutra 18
Av. Getúlio Vargas 21 Bairro Cidade Nova 18
10º Av. Noide Cerqueira 21 Bairro Conceição 17

Os números foram contabilizados entre janeiro e março de cada ano*

O levantamento ajuda a identificar pontos críticos da cidade e reforça a necessidade de ações permanentes de prevenção e fiscalização.

Rodovias e cidades da região também preocupam

Além de Feira de Santana, o hospital recebe vítimas de dezenas de municípios e das principais rodovias da região.

No primeiro trimestre deste ano, a BR-324 liderou os registros que resultaram em atendimento no HGCA, seguida pela BR-116.

Dados do HGCA
Foto: Reprodução/HGCA

Levantamento do Acorda Cidade mostrou que, em apenas uma semana, o trecho entre os quilômetros 530 e 545 da BR-324 registrou quatro acidentes graves, dois deles com vítimas fatais.

A sequência de tragédias nas rodovias da região ganhou mais um capítulo na tarde do último domingo (31). Uma colisão frontal entre um caminhão e uma van no km 506 da BR-116, em Santa Terezinha, deixou ao menos 16 mortos.

Sobe para 16 número de mortos em acidente na BR-116; todos eram da mesma família
Foto: Reprodução

Casos como esse ajudam a explicar por que as rodovias seguem entre os principais corredores de entrada de vítimas atendidas pelo HGCA. Em poucos segundos, uma ocorrência pode mobilizar equipes de resgate, serviços de emergência e impactar dezenas de famílias ao mesmo tempo.

O impacto no SUS

Além das perdas humanas, os acidentes geram um alto custo para a saúde pública.

Dados nacionais apresentados pelo HGCA mostram que mais de 25 mil pessoas morreram no trânsito brasileiro em 2024. No mesmo período, foram registradas 227.656 internações hospitalares pelo SUS e gastos de R$ 449 milhões.

Impacto dos acidentes no Brasil (2024)

Indicador Número
Mortes no trânsito Mais de 25 mil
Média diária de mortes 68
Internações no SUS 227.656
Gastos hospitalares R$ 449 milhões
Frequência de atendimento 1 vítima a cada 2 minutos

Casos como o de Délia mostram que os custos não terminam após a alta hospitalar. Muitas vítimas necessitam de cirurgias, reabilitação e próteses por anos.

Fim do DPVAT agravou cenário

O estudo também chama atenção para os efeitos da extinção do Seguro de Danos Pessoais por Veículos Automotores Terrestres (DPVAT), que ajudava a financiar o atendimento às vítimas de trânsito.

Até 2021, cerca de R$ 580 milhões eram repassados anualmente ao SUS para custear essa assistência.

Efeitos da extinção do DPVAT
Impacto
Menos recursos para leitos
Redução da capacidade de investimento
Pressão sobre equipes especializadas
Dificuldades em programas de reabilitação

Enquanto os acidentes continuam crescendo, os recursos destinados ao enfrentamento desse problema diminuíram, ampliando a pressão sobre o sistema público de saúde.

Uma crise de saúde pública

Segundo o HGCA, o crescimento contínuo dos acidentes compromete a disponibilidade de leitos, equipamentos, equipes especializadas e programas de reabilitação.

Os números apresentados pelo hospital deixam claro que o trânsito deixou de ser apenas uma questão de mobilidade urbana ou segurança viária. Hoje, ele já é tratado como um dos principais desafios de saúde pública enfrentados pela região.

A diretora-geral do hospital, Cristiana França, defende uma atuação conjunta entre órgãos públicos, forças de segurança, instituições de ensino e a sociedade para reduzir os índices.

Conscientizar para salvar vidas

Embora o Maio Amarelo tenha terminado, o alerta precisa permanecer durante todo o ano. A conscientização de motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres continua sendo a principal ferramenta para reduzir mortes, sequelas e os impactos sobre a rede pública de saúde.

Os dados apresentados pelo HGCA mostram que cada escolha feita no trânsito pode significar a diferença entre chegar ao destino em segurança ou se tornar parte de uma estatística.

Por trás de cada tabela, gráfico ou atendimento registrado existe uma vida impactada, uma família em sofrimento e, muitas vezes, uma tragédia que poderia ter sido evitada.

Mais do que encerrar uma campanha, os números divulgados pelo hospital revelam a dimensão de uma crise silenciosa que continua lotando emergências, consumindo recursos públicos e, principalmente, custando vidas todos os dias.

Com informações do repórter Ed Santos, do Acorda Cidade

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