10 de June de 2026
Mulher trabalhando - computador - NR-1
Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil

Como já foi divulgado anteriormente pelo Acorda Cidade, as novas regras de Segurança e Saúde no Trabalho constam na última atualização da Norma Regulamentadora nº 1, mais conhecida como NR-1, começaram a valer a partir da última terça-feira (26). Com isso, empregadores, gestores e funcionários de todos os setores terão que cumprir normas mais rigorosas, procurando identificar e eliminar riscos ocupacionais, inclusive para a saúde mental dos trabalhadores. 

Diante dessa mudança, a psicóloga Letícia Vieira Santana disse, em entrevista ao Acorda Cidade, que essa norma sempre existiu, no entanto, os riscos psicossociais foram acrescidos. Agora, as empresas são obrigadas a observar, avaliar e medir quais são os riscos psicossociais que a empresa traz para os colaboradores.

Dentre esses riscos, Letícia Vieira destacou pressão, estresse, acúmulo de trabalho, assédio, tanto em relação a gestão e funcionário quanto entre colaboradores, bem como analisar como está o clima no ambiente de trabalho. Por meio dessas avaliações, a empresa pode saber como essas situações estão impactando na vida do colaborador.

Na verdade, o essencial é a gente fazer o diagnóstico correto. Está se vendendo um alarde como se fosse algo prejudicial para as empresas. Mas empresários, vocês só têm a ganhar fazendo um diagnóstico preciso. Porque se a gente faz um diagnóstico e evidencia o que é que está acontecendo, o que que está causando o problema no colaborador, o estresse, o clima que está desorganizado e a gente consegue atuar de forma efetiva trazendo isso de forma documentada para um Programa de Gestão de Riscos, você enquanto empresário está respaldado”. 

Psicóloga Letícia Vieira
Psicóloga Letícia Vieira | Foto: Ney Silva/ Acorda Cidade

Então não é o colaborador vir com uma depressão advinda de uma situação externa e dizer ‘ah, mas foi a empresa.’ Não é assim que funciona. A empresa está documentada, está respaldada. O que a gente precisa é ter um diagnóstico válido e documentado. Por isso que a atualização da norma requer uma atualização dos documentos, por exemplo, o Programa de Gestão de Riscos. E nesse documento, a gente tem que ter registrado os riscos que causam são esses ou não, porque também no processo de diagnóstico a gente pode não ter riscos”.

Apesar da obrigatoriedade da avaliação psicossocial, qualquer profissional pode aplicar o questionário, que é feito on-line. No entanto, a participação de um psicólogo traria mais respaldo. 

Você pode trazer qualquer profissional e usar um questionário, porém, na hora lá da cobrança, que a empresa vai precisar comprovar, o colaborador disse ‘ah, não, eu estou sofrendo isso e isso.’ Como é que a empresa comprova? Trazendo os documentos. Quem é que assinou esse documento? Onde é que está o respaldo legal desse documento? À medida em que você faz isso com um documento válido, que você faz um diagnóstico preciso e que você tem isso respaldado em documento, não tem judicialmente o que ser questionado”. 

Mudança permite que empresa saiba se problemas foram adquiridos no trabalho

Ainda explicando sobre o que muda com o NR-1, ela chamou atenção para um dado de 2025, que mostra que 546 mil pessoas foram afastadas do trabalho por questões psicológicas. Porém, não necessariamente todos os afastamentos eram referentes a questões de trabalho. A partir de agora, a empresa tem como saber se o adoecimento aconteceu por conta do emprego ou não. 

O que é que muda? Agora ela vai ter um respaldo legal. Em 2025, a gente tem um dado que traz que mais de 546 mil pessoas foram afastadas psicologicamente do trabalho. Eu vou dizer que todas essas pessoas adoeceram no trabalho? Em 2025, eu não tinha como provar isso. Agora, eu vou ter um documento em que eu posso provar se foi na empresa ou não. Visando o mundo em que a gente está hoje, pós-pandemia, muito do adoecimento mental não necessariamente está ligado com a empresa, mas já vem de questões externas e ali se agrava. Então, o que as empresas precisam ter consciência? De que tem que usar as ferramentas corretas, diagnosticar, atuar com o que for questão da empresa e encaminhar o que não for questão da empresa”. 

“O colaborador que não está engajado, não vai dar o retorno precisa”

Letícia Vieira também falou sobre a necessidade de que os colaboradores estejam bem física e psicologicamente, para que possam prestar um serviço de qualidade. O colaborador que tem problemas dentro do trabalho acaba não dando o retorno necessário para a empresa. E essas questões psicológicas se tornaram uma realidade em todo o mundo após a pandemia do Covid-19, cujas sequelas estão presentes até hoje. 

Uma empresa em pleno funcionamento, para ter uma qualidade, ela tem que ter um colaborador engajado. O colaborador que não está engajado, ele não vai dar o retorno que a gente precisa para a empresa funcionar. Se a gente parar para pensar, nenhuma empresa funciona somente com dono. O corpo da empresa é formado por uma gama de colaboradores. E aí é que entra, eu preciso desse colaborador bem. E quando eu falo bem, ele tem que ser física e psicologicamente”. 

A psicóloga afirmou que uma equipe que recebe cuidado através da empresa, faz com que o trabalhador se sinta mais valorizado, o que faz com que ele consiga entregar um nível de produtividade, empenho, atendimento e qualidade de trabalho melhor.

As estratégias que a gente pode usar são coisas tão simples, são reuniões mensais com café da manhã que você oferece para os seus colaboradores, que já vai amenizar um clima organizacional. Em vez de esperar o estopim para reclamar na hora em que está causando um grande transtorno, você fazer uma reunião mensal para estar trazendo todas as questões. você trazer uma dinâmica de que aquele colaborador se sinta pertencente, em que ele se sinta valorizado, você trazer uma política de valorização, tudo isso são questões internas que não necessariamente eu, enquanto psicóloga, vou ter que ser contratada para fazer”. 

Problemas pessoais x problemas na empresa

Quanto a diferença entre problemas psicossociais pessoais e os adquiridos na empresa, a psicóloga alertou novamente para a avaliação psicossocial, que funciona justamente para fazer essa diferenciação. A partir desse teste, como o Inventário para Avaliação de Riscos Psicossociais (Iarp) da Vetor Editora, a empresa pode identificar o que é uma questão de trabalho ou uma questão pessoal. 

O Iarp, ele traz esse viés, ele diferencia. Porque ele vai trazer o que é questão de trabalho. Questão pessoal é fora, não entra dentro desse processo de avaliação. ‘Ah, mas eu tenho um colaborador que está adoecido.’ Qual é o papel da empresa? Aí sim, orientar esse colaborador a buscar lá fora as alternativas. Talvez eu tenha que afastar o colaborador, que é por uma questão pessoal, não organizacional. Como é que eu comprovo isso? Porque de forma organizacional eu apliquei o questionário correto, eu fiz o documento e eu tenho como provar de que ele não está doente por causa da empresa”. 

Explicando melhor sobre as avaliações, Letícia contou que nem todas as empresas utilizam ferramentas validadas, e o Iarp é uma ferramenta que apenas psicólogos podem utilizar.

“O Iarp é um questionário que a gente aplica e ele já me dá um diagnóstico ali. O que é que eu tenho que fazer? Tendo esse diagnóstico, eu vou ter que adequar em conformidade com o meu conhecimento, as demandas da empresa e aí vou buscar já levar para essa empresa quais são as soluções, o que é que ela pode trazer dentro dessa cultura para melhorar esse diagnóstico”. 

Por ser um ferramenta aplicada online, não é necessário que empresas que tenham mais de 300 funcionários tenham mais de um psicólogo, pois se trata de um questionário simples, mas que deve ser bem orientado para que o trabalhador entenda corretamente como respondê-lo.

Empresas devem se atentar aos alertas

Além do teste, o empregador também pode se atentar aos alertas de que o ambiente de trabalho esteja afetando mentalmente os colaboradores. Segundo Letícia, pontos como um relacionamento ruim com colegas ou falta de ânimo e engajamento são os principais para identificar que tem algo errado com aquele trabalhador. 

“E aí eu volto, a importância da gente identificar e diagnosticar. Porque eu só vou poder te dizer se é no trabalho ou não, se eu tiver o conhecimento dentro daquela organização, dentro do processo de trabalho, do que é que pode causar ou não”. 

Prazo não deve ser estendido

Apesar do prazo para se adequar a essas normas ter terminado e não deve ser estendido, Letícia Vieira salientou que a mudança é simples e pode ser feita de forma rápida. Quanto à fiscalização, a psicóloga afirmou que será realizada pelos órgãos do Ministério do Trabalho. 

Não é um processo doloroso nem demorado, porém, não vai ser do dia para a noite. O que as empresas precisam é estar se atualizando e levando em consideração de que vai haver a fiscalização, porque esse prazo já foi estendido. Essa norma foi anunciada em 2024, para ser validada em 2025, e eles prorrogaram até maio de 2026. A gente já sabia que isso iria acontecer, já se vem batendo nessa tecla. Tem gente que realmente deixou para a última hora, e eu ofereço justamente isso, de que existe a forma de se adequar ainda e evitar esse processo de penalidade por conta das fiscalizações”.

Com informações do repórter Ney Silva, do Acorda Cidade

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