15 de June de 2026
brasileiro copa
Foto: Freepik

Com a abertura da Copa do Mundo, volta a circular uma pergunta tão antiga quanto o próprio futebol brasileiro: será que o brasileiro só é brasileiro na Copa? O fenômeno parece se repetir a cada quatro anos. Pessoas que passam boa parte do tempo descrevendo o país como inviável, de repente vestem camisa amarela, pintam o rosto, improvisam churrascos e transformam o jogo em espécie de ritual nacional, inclusive, muitos memes circulam na internet fazendo graça sobre o comportamento do torcedor brasileiro.

Para o historiador Rodrigo Rainha, professor da Estácio, o comportamento diz muito sobre como o brasileiro lida com a ideia de pertencimento. “O sentimento de nação no Brasil historicamente teve dificuldades de se consolidar de forma igualitária. A Copa acaba funcionando como um atalho emocional para criar um ‘nós’ que não existe no cotidiano”, afirma.

Rainha explica que a construção da identidade brasileira sempre foi marcada por exclusões e desigualdades profundas. Segundo ele, a Copa cria um ambiente simbólico provisório que suspende conflitos e aproxima grupos distintos.

“A noção de Brasil como comunidade foi imposta de cima para baixo. Enquanto o Estado dizia ‘somos todos brasileiros’, muitas pessoas sequer eram tratadas como cidadãs. O futebol simplifica o mundo. O adversário veste outra camisa, a injustiça se chama VAR, o drama dura 90 minutos. A vida, que normalmente é caótica, ganha roteiro. Isso gera alívio e identificação”, diz o professor.

Mas o historiador alerta para o risco de confundir esse entusiasmo momentâneo com patriotismo real. “Ser brasileiro na Copa é fácil. Difícil é ser brasileiro fora dela, como na fila do SUS, no ônibus lotado, na defesa da democracia, no enfrentamento do racismo e da desigualdade”, afirma.

Para Rainha, a força emocional do futebol pode até indicar que existe um desejo de coletividade, mas é preciso transformá-lo em compromisso cívico. “A Copa mostra que há vontade de pertencimento. O desafio é educar essa vontade para que não vire nacionalismo agressivo, exclusão ou guerra cultural.”

Ainda assim, o professor reconhece que há uma beleza nesse ritual repetido a cada quatro anos. “O brasileiro insiste em torcer, em se emocionar, em acreditar que dessa vez vai. E essa insistência diz muito sobre quem somos. No fundo, a Copa não prova que o brasileiro só é brasileiro de quatro em quatro anos. Ela prova que existe uma vontade de Brasil que sobrevive aos nossos próprios fracassos. Ser brasileiro na Copa é gostoso. Ser brasileiro depois da Copa é que é o desafio”, conclui.

Siga o Acorda Cidade no Google Notícias e receba os principais destaques do dia. Participe também dos nossos canais no WhatsApp e YouTube e grupo de Telegram.