
Jardel Torres da Costa, de 30 anos, é médico. Há duas décadas, era um menino que vivia no interior do Piauí. Filho de pedreiro, sua casa dependia do Bolsa Família para ter comida na mesa. Pelo Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti), ele trocou a roça pelos livros.
Na escola em tempo integral de Oeiras (PI), a alimentação era garantida e os professores estavam disponíveis o dia inteiro. Ele foi o primeiro aluno do colégio a passar em medicina, além de ter tido outras 11 aprovações em universidades espalhadas pelo Brasil.
“Graças ao Peti, pela primeira vez comprei um guarda-roupas. Só para dar uma noção que a gente nem tinha onde guardar as roupas”, recorda o médico que trabalha na UBS do município de Floresta (PI).
A história de Jardel se repete, em diferentes versões, por todo o país. Mais de 3,9 milhões de beneficiários do Bolsa Família conquistaram empregos formais entre janeiro de 2023 e janeiro de 2026, ou 86,7% de todo o saldo líquido de vagas geradas pelo Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados).
Ou seja, a maioria dos empregos formais criados no Brasil foi ocupada por quem carregava o cartão do Bolsa Família. “O mantra que repetimos desde o primeiro dia é: trocar o cartão do Bolsa Família pela Carteira de Trabalho. Essa é a verdadeira emancipação”, diz o ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, Wellington Dias.

Se o recorte incluir todos os inscritos no Cadastro Único e não apenas os beneficiários do Bolsa Família, o saldo líquido é de quase 5 milhões de empregos formais no mesmo período. É o equivalente a mais de 110% de todo o saldo do Caged.
Isso porque o público fora do CadÚnico registrou saldo negativo de 457 mil postos. O dado revela que o crescimento formal do emprego no Brasil, que registrou saldo positivo em todas as 27 Unidades da Federação neste ciclo, foi protagonizado pelos mais vulneráveis.
John Wesley Silva, 42 anos, conhece bem essa sensação. Morou na rua quando criança, enfrentou as drogas e entrou e saiu do sistema penitenciário mais de uma vez. Viveu tudo aquilo que as estatísticas registram como situação de extrema vulnerabilidade.
A última vez que John esteve preso foi em 2009. Quando saiu, decidiu que mudaria de vida. Procurou um projeto social, fez um curso de culinária e de garçom. Começou a trabalhar num restaurante japonês. Havia dado o primeiro passo, mas a vida ainda testaria sua determinação.
Numa recaída, saiu de uma loja com uma blusa que não era sua. O segurança o encontrou e começou a chantagear. Pagaria dez vezes o valor da peça, ou perderia o emprego e voltaria a ser preso.
No dia seguinte, John foi até a chef de cozinha que o havia contratado e contou tudo. “Eu não vou deixar ninguém ficar me chantageando”, recorda. E ela, a dona do restaurante, foi pessoalmente à loja resolver o problema.
Aquele gesto mudou algo que nenhum curso conseguiria mudar sozinho. “Se uma empresária como essa, mãe de família, me colocou no carro e fez isso por mim, é porque a minha vida tem um valor muito especial”, reflete John. “Eu sei que sou alguém que pode ter um futuro.”
A partir dali, John fez faculdade de gastronomia. Viveu em Balneário Camboriú (SC), em Uberlândia (MG), depois em São Paulo (SP). Passou pelas cozinhas de restaurantes renomados, incluindo a do chef Alex Atala. E hoje ocupa um lugar que parecia impossível. Virou professor de gastronomia na ONG Mover Helipa, no bairro Cidade Nova Heliópolis, na capital paulista.
Ele é um multiplicador de oportunidades dentro de um projeto social vinculado ao Programa Acredita no Primeiro Passo. Quando está diante de uma turma, John nunca fala só de culinária.

“A gente fala de transformação social, de autorresponsabilidade, do poder da escolha, do poder da educação. O cidadão que vive em vulnerabilidade precisa de um trampolim para ultrapassar esse buraco. Eu sou fruto de projeto social. Ele tem o poder de mudar a vida das pessoas, assim como mudou a minha.”
O Acredita no Primeiro Passo foi desenhado para criar esse efeito em escala. Lançado em 2024 e presente em mais de 20 estados, o programa é articulado em três eixos: capacitação profissional; geração de emprego; e acesso ao crédito orientado para o empreendedorismo.
Recordes históricos
O Brasil saiu do Mapa da Fome em dois anos. A insegurança alimentar grave recuou de 15,5% dos domicílios em 2022 para 3,2% atualmente, o menor patamar da série histórica do IBGE. A pobreza caiu de 31,6% para 23,1%. A extrema pobreza chegou ao menor nível já registrado: 3,5%. Em dois anos, 17,5 milhões de pessoas saíram da pobreza.
O avanço foi mais intenso justamente nos domicílios chefiados por mulheres e pessoas negras. “Recolocamos a fome no centro da agenda política, como expressão das desigualdades, e retomamos a coordenação nacional com uma visão sistêmica, que vai da produção ao consumo de alimentos”, afirma a secretária extraordinária de Combate à Pobreza e à Fome do MDS, Valéria Burity.
O Bolsa Família segue como pilar de toda essa arquitetura, atendendo cerca de 19 milhões de famílias por mês, com uma ferramenta que permite a inclusão socioeconômica pelo emprego.
Quem consegue emprego, mas ainda ganha até meio salário mínimo per capita, mantém metade do benefício por 12 meses. Quem perde o emprego retorna ao programa sem fila. “O Bolsa Família não é uma porta de saída, mas de entrada”, explica a secretária nacional de Renda de Cidadania do MDS, Eliane Aquino.
O Brasil que cresce de baixo para cima é o país de Jardel, de jaleco branco, de John, de avental. “Quando o pobre tem dinheiro no bolso, ele consome, e o comércio da cidade cresce”, diz Wellington Dias. São quase 5 milhões de empregos ocupados por quem o mercado havia esquecido.
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