
Com o fim do primeiro semestre do ano de 2026, a Delegacia do Adolescente Infrator (DAI) de Feira de Santana divulgou os dados desse período de atividades da unidade. Ao Acorda Cidade, a delegada Clécia Vasconcelos, titular da Dai e da Delegacia Especializada de Repressão a Crime Contra Criança Adolescente (Dercca) afirmou que houve um aumento no registro dos casos, o que sugere que há uma confiança maior no trabalho da delegacia.
Apesar de alguns crimes terem diminuído, outros aumentaram. De acordo com a delegada, o aumento de casos registrados na DAI indica que as pessoas procuraram mais a unidade.
Eu não estou falando de produtividade, de só mandar inquérito, porque muitas vezes essa produtividade traduz uma remessa, mas não gera repercussão, nem jurídica, nem social. O que é uma repercussão jurídica? É daquele procedimento que a DAI manda para a justiça. Dali saiu uma medida cautelar, uma prisão, uma condenação, uma busca e apreensão. E qual é a repercussão social? A repercussão social é aquela pessoa que demandou o nosso serviço e dizia, ‘olha, eu tive uma resposta, eu fui chamada na justiça, ele está apreendido, ele mudou.’ É essa mudança que a gente espera, é esse o papel da Polícia Civil”.

A DAI também atende crianças e adolescentes que foram vítimas de crimes sexuais. Segundo Clécia Vasconcelos, essa é uma das ocorrências em que houve aumento deste semestre em comparação ao primeiro semestre de 2025.
“Tem aumentado consideravelmente, mas eu posso também dizer que esta confiança, esse entendimento mais amplo, de uma forma geral, faz com que as famílias tenham tido essa preocupação de proteger mais, por isso a denúncia, as escolas têm uma participação decisiva. Os crimes, os atos infracionais no ambiente escolar também têm me chamado a atenção”.
Atos infracionais mais registrados
Ao falar sobre os atos infracionais mais registrados na DAI, a delegada destacou os casos de bullying, ameaças, racismo e injúria racial no ambiente escolar. Ela também chamou a atenção para o número de pais e responsáveis que procuram a unidade para denunciar ameaças e agressões praticadas pelos próprios filhos ou netos.
“Isso, para mim, é uma realidade que eu não conseguia vislumbrar, que não sabia que era dessa frequência. Então, quando o número de pai, mãe, avó, que cuidou, vem aqui à delegacia registrar um boletim de ocorrência, com medo do neto, com medo do filho espancar, pessoas debilitadas que são espancadas dentro de casa, isso é um dado relevante”.
Quanto à questão do tráfico de drogas envolvendo adolescentes, a delegada ressaltou esse ponto como outra constante. De acordo com ela, o tráfico e o consumo de drogas são fenômenos criminais que fomentam outros delitos.
“É um dado que é relevante, eu acredito em todas as especializadas. Pensar em tráfico de drogas numa Delegacia do Adolescente Infrator é relacionar com homicídio, com violência doméstica, com violência sexual. Quer dizer, é uma mazela social muito incisiva”.
Veja os dados do primeiro semestre de 2025 e 2026:
| Natureza da ocorrência | Jan–Jun/2025 | Jan–Jun/2026 |
|---|---|---|
| Estupro de vulnerável | 51 | 53 |
| Estupro de vulnerável – violência doméstica | 16 | 10 |
| Estupro | 6 | 7 |
| Lesão corporal dolosa | 15 | 16 |
| Furto | 5 | 5 |
| Importunação sexual | 5 | 4 |
| Tráfico de drogas (Art. 33 da Lei 11.343/2006) | 4 | 21 |
| Intimidação sistemática virtual (Cyberbullying) | 1 | 1 |
| Intimidação sistemática (Bullying) | 3 | 3 |
| Estelionato | 2 | — |
| Extorsão | 1 | — |
| Ameaça | 18 | 32 |
| Roubo | 2 | 5 |
| Dano | 3 | 4 |
| Vias de fato | 5 | 5 |
| Consumo pessoal de drogas | 1 | 4 |
| Abandono de incapaz | 1 | — |
| Fuga de instituição | — | 6 |
| Praticar discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional (Racismo) | 3 | — |
| Aliciar, assediar ou instigar, por qualquer meio de comunicação, criança para prática de ato libidinoso | 3 | 2 |
| Adquirir, armazenar fotografia, vídeo ou outro registro contendo cena de sexo explícito envolvendo criança ou adolescente | 1 | 3 |
| Divulgação de cena de estupro, estupro de vulnerável, sexo ou pornografia | 1 | 1 |
| Receptação | — | 4 |
| Produzir, fotografar ou filmar cena de nudez ou ato sexual de caráter íntimo e privado sem autorização (Art. 216-B do CP) | — | 2 |
| Associação criminosa | — | 1 |
| Difamação | 1 | 3 |
| Tentativa de homicídio simples | 2 | 1 |
| Injúria | 4 | 6 |
| Calúnia | 3 | 5 |
| Estupro de vulnerável com resultado morte (Art. 217-A, §4º, CP) | 3 | 1 |
Clécia Vasconcelos também disse que acredita que a aderência ao mundo do crime tem sido cada vez mais fácil, o que faz com que os adolescentes estejam sendo mais cooptados por organizações criminosas.
Eles não têm mais aquela base, aquele respeito familiar, nem na escola. Está difícil entrar na cabeça, no mundo desses adolescentes, as regras, as disciplinas. É uma geração que não tem regramento, não tem disciplina. A palavra é ‘se dar bem a qualquer custo’. E aí, quando ele vem sedimentando esse pensamento, para ele a vida não vale nada. E aí estão morrendo, porque você não conhece nenhum deles envelhecendo. A vida, para eles, não têm a dimensão. É mais difícil hoje, eu percebo, lidar com os vulneráveis, é muito mais difícil hoje lidar com o adolescente, porque falta limites, tira o temor”.
Casos de apreensões
Questionada sobre o número de adolescentes apreendidos envolvidos em casos de homicídios e com armas e drogas em Feira de Santana, a delegada ressaltou que é um dado que preocupa.
Com isso, ela afirma que é necessário criar políticas públicas mais específicas para lidar com esse tipo de situação, pois o envolvimento de adolescentes em homicídios chama a atenção, e isso é algo que repercute nas escolas, no ambiente familiar e em todos os âmbitos.
Hoje se fala em antecipação da maioridade penal. Será que isso resolve? Eu costumo dizer que o discurso é ‘as crianças e os adolescentes é o futuro do país, o futuro do Brasil’. E esse presente, como é que está? Como é que a gente pode planejar, pensar no futuro, o que a gente está fazendo para o presente? Cada um tem que cumprir a sua parte. Não é só governo do Estado, não é só da Polícia Civil, são todos, é dever da coletividade da sociedade, da família”.
Quanto aos fatores que mais contribuem para o envolvimento de adolescentes em atos infracionais, Clécia Vasconcelos acredita que a desestrutura familiar é algo que contribui muito. Além disso, ela apontou a falta de interações e de amizades.
Quando eu falo da falta de limites, da falta de temor, é porque é uma geração que está sendo posta no mundo como se fosse superior, como se não houvesse amanhã, como se eles tivessem uma armadura que os blindassem. Você não vê interações, amizades. É um mundo à parte, é o gueto das drogas, é o gueto dos jogos online. Você não vê uma interação para o bem, não vê planejamento. ‘Ah, eu quero ser isso, quero crescer.’ Você não vê, é tipo Zeca Pagodinho, ‘deixa a vida me levar, vida leva eu’. E quando a gente vive dessa forma, não vai levar para lugares bons”.
Por fim, a delegada Clécia Vasconcelos salientou que não busca passar uma visão pessimista do futuro, mas que todos devem assumir suas responsabilidades.
“Os resultados mostram que a polícia tem sido atuante, mas cada um assume a sua responsabilidade e a responsabilidade familiar precisa ser retomada”.
Com informações do repórter Ed Santos, do Acorda Cidade
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