
Um grupo de pais de alunos de uma escola municipal de Feira de Santana realizou uma manifestação contra a falta de cuidadores na unidade. Os profissionais são responsáveis por auxiliar estudantes com deficiência ou necessidades específicas.
O ato, realizado na manhã desta quarta-feira (9), em frente à Escola Municipal José Macário Ataíde, no bairro Conceição II, contou com o apoio da APLB, sindicato que representa os profissionais da educação municipal em Feira de Santana.
Muitas promessas
Em entrevista ao Acorda Cidade, muitas mães falaram sobre o sentimento de frustração em saber que, após “muitas promessas”, o sistema de educação municipal ainda apresenta algumas falhas que acabam penalizando justamente um público tão vulnerável.
“Aqui é uma situação que só Deus para ter misericórdia dessas crianças. A dificuldade é tanto na falta de cuidadores como na direção da escola. Eu não vejo que a administração da própria diretora é boa. Não só eu, mas várias outras mães também não veem isso. Acho que ela tem que ver as nossas crianças com mais humanidade”, disse Nilene Bonfim.

A mãe fez questão de reforçar que o problema que pais e alunos atípicos estão enfrentando nesse momento é fruto do não cumprimento de uma promessa de campanha feita pelo então candidato a vice nas eleições de 2024, Pablo Roberto, hoje secretário de Educação.
“Quando meu filho entra em crise na escola, eu tenho que sair correndo. As crianças não têm um auxiliar na sala, e aí fica difícil. Pablo disse que ia fazer melhorias, prometeu que ia ter auxiliar para os meninos, mas é uma coisa que não está acontecendo”, disse outra mãe.

A mulher contou que o filho de 15 anos possui transtorno intelectual moderado e que chegou a participar de uma reunião com o secretário, no período em que Pablo era apenas candidato, e pediu que ele ajudasse as mães atípicas.
“Não cumpriu o compromisso com ninguém. Disse que ia fazer e não fez. Não honrou compromisso nenhum. O que adianta prometer, prometer e nós ficar como estamos? Eu já tô com o meu psicológico abalado. Agora quem está precisando de um médico sou eu”, declarou a mãe.
Peça importante
Os cuidadores são responsáveis por dar suporte aos professores, dedicando-se exclusivamente a oferecer apoio a estudantes atípicos. São esses profissionais que dão apoio ao grupo em atividades de locomoção, alimentação e higiene.

Durante a manifestação, diversas mães fizeram questão de reafirmar a importância da necessidade dos profissionais dentro da sala de aula para garantir condições mínimas de aprendizado para as crianças com necessidades especiais.
“Tem uma sala que está precisando urgente de cuidadores, só um professor só não está dando conta e aí está complicado. Nós estamos precisando muito dos cuidadores para ajudar as professoras na sala, principalmente com as crianças deficientes”, disse a mãe da pequena Emily Camile.
Já Paloma contou para a reportagem do Acorda Cidade que o filho de cinco anos estuda na unidade e que, há cerca de um ano, segundo ela, a escola vem sofrendo com a falta de profissionais de apoio.
“Eu gosto muito dessa escola. Essa escola é ótima, mas está faltando realmente professor ainda do quinto ano. Teve umas aulas que ficou sem, então está faltando professor e cuidadores. É uma escola ótima, a professora é boa, a direção é boa, mas está faltando professor e cuidadores”, disse a mãe.
Duplo sofrimento
Liliane, mãe do pequeno Enzo Daniel, que possui transtorno do espectro autista (TEA), fez questão de delimitar que as críticas e reivindicações do grupo estavam direcionadas diretamente à pasta da Educação e não ao profissional dentro da sala de aula.
“Tem que ter auxiliar na sala de aula. Uma sala que tem quatro, cinco meninos autistas e não tem auxiliar é difícil. Um professor só não vai dar conta, não. Crianças grandes, misturadas com as menores autistas. O meu filho apanha e a gente não pode resolver nada porque a questão não é da escola, é do governo”, disse.
“Esse menino tem um ano e meio numa fila para ter auxílio psicológico e não tem porque o prefeito não manda auxiliares para a escola e a propaganda é que o menino autista tem tudo, mas não tem nada. O professor não tem dever de estar controlando o menino na sala de aula, não. Tem que ter dois ou três auxiliares”, afirmou a mãe de Enzo.

Durante a participação no ato, Liliane voltou a mencionar as dificuldades que o professor tem ao ter que dividir a atenção entre o conteúdo que está sendo ministrado e as demandas de mais de uma criança com necessidades especiais.
“Um professor com quatro, cinco meninos autistas não dá. Trocaram um professor porque o homem veio com aparência cansada. E nós, como mães atípicas, também entendemos que o professor também se cansa, ele também tem problema. Eu mesma tenho que tomar remédio porque a mãe vira autista também quando o filho é autista”, declarou Liliane.
Manoely Oliveira, que tem um filho que estuda há quatro anos na unidade, disse que, nas salas que o garoto estudou, “nunca teve um auxiliar para ele”. A mãe endossou que a ausência desses profissionais tem afetado professores e estudantes neurodivergentes.
“A sala tem 24 e poucos alunos e o professor não tem como dar atenção a um aluno só, ele tem que dar atenção a todos. E meu filho tem dificuldade de ler e escrever, porque não tem uma pessoa para ficar com ele, então está comprometendo muito o aprendizado dele”, disse Manoely.
Críticas à direção
Durante a manifestação, houve quem reclamasse também da conduta da diretora da unidade. Apesar de não ter sido um comentário unânime, algumas das mães presentes direcionaram as críticas à chefe da unidade.
Já Jane Freitas, que é mãe de um estudante que não possui necessidade especial, elogiou a direção e falou que, de certa forma, a falta de cuidadores acaba impactando o aprendizado de toda a comunidade escolar.
“Embora o meu filho não seja, eu vejo situações em que a professora precisa dar conta de uma turma inteira e mais de dois, três alunos especiais na sala sem um cuidador. Há salas que não estão tendo a semana de aula. Tem crianças que estão tendo dois dias de aula por falta de professor ou por falta de cuidador. Tem criança com necessidade especial fora da escola, por falta de cuidador”, disse.
“A escola é estruturada e o pessoal de apoio, os professores, a direção são extremamente competentes, porém eles têm muito pouco a fazer porque falta material de apoio, material humano, pessoas qualificadas que possam amparar essas crianças e garantir que é um direito delas. A lei garante que eles tenham esses cuidadores, que eles tenham professores, que eles tenham os 200 dias letivos, e isso não vem acontecendo”, completou a mãe.
Dias de luta
Professora Marlede Oliveira, presidente da APLB, destacou durante o ato que a falta de cuidadores na unidade é um problema grave e confirmou que, durante a semana, a unidade está ficando três dias sem aula por falta de professor.
“Isso é grave porque a gente precisa incluir, mas precisa também dar as condições para que os professores possam trabalhar, numa sala que tem até oito crianças neurodivergentes. Então, isso é um absurdo. Quero aqui chamar a atenção do secretário Pablo Roberto, que ele precisa resolver.”

“Claro que ele tem conhecimento da crise que está vivendo na educação. A falta de professores, a falta de cuidadores, enfim, isso vem se arrastando desde 2024, e nós estamos já no meio do ano de 2026 e não se resolve tudo isso. Lugar de criança é na escola, mas na escola com as condições, com professor, com cuidador, com alimentação adequada”, finalizou Marlede.
Com informações do repórter Paulo José, do Acorda Cidade
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