
O mercado de jogos eletrônicos na Bahia vive um momento de consolidação histórica,
deixando de ser uma promessa para se firmar como um polo estratégico de tecnologia e
economia criativa no Brasil. Impulsionado por narrativas que resgatam a ancestralidade, a
oralidade e a cultura local, o ecossistema baiano de desenvolvimento de games combina originalidade técnica com relevância social e, segundo dados da Associação de Desenvolvedores de Jogos do Estado da Bahia (Bind), já movimenta cerca de R$ 3,6 milhões por ano. Um reflexo claro dessa força poderá ser visto de perto no Gamepólitan
2026, o maior festival de jogos e cultura lúdica da Bahia, que reunirá estúdios, marcas e a comunidade gamer na capital baiana entre o final de julho e início de agosto.
Apesar do crescimento acentuado, a indústria no estado se equilibra entre o
reconhecimento internacional e desafios estruturais que exigem fomento contínuo. Para
melhor compreensão desse cenário, estúdios baianos de destaque revelam como
transformam a identidade cultural do estado em produções que rodam o mundo.
Identidade e sucesso internacional: o fenômeno ‘ÁRIDA’
Um dos nomes mais consolidados da indústria nacional nasceu em solo soteropolitano em
2016: a Aoca Game Lab. O estúdio é a mente por trás da franquia ÁRIDA, uma trilogia de
grande escala que acompanha a jornada da jovem Cícera rumo a Canudos, no Sertão
Profundo. O primeiro título (ÁRIDA 1: Awakening) quebrou barreiras ao ser lançado para
Android, Nintendo Switch e Xbox, recebendo chancela do prestigiado Google Indie Games
Fund.
Atualmente, o estúdio conta com uma equipe de 11 profissionais e se prepara para o
lançamento de ÁRIDA 2: Rise of the Brave, cujo trailer foi apresentado recentemente na
Gamescom LATAM.


“Conseguimos estruturar uma abordagem única no mercado, utilizando mecânicas de
sobrevivência para narrar as complexidades do Sertão, trazendo uma percepção ímpar
sobre a ancestralidade e a oralidade de forma leve, porém com profundo respeito e
responsabilidade histórica”, pontua Filipe Pereira, idealizador e fundador da Aoca Game
Lab.
Ação e tradição em “Gato no Cangaço”
A riqueza do cenário nordestino também é explorada sob lentes criativas por outros
pioneiros locais, como o Bragi Estúdios. O estúdio ganhou os holofotes com o aclamado
Gato no Cangaço, um jogo de ação 2D que combina combate automático com construção
de baralho, ambientado em uma versão estilizada e fantasiosa do Sertão brasileiro.

Com jogadores que alternam entre a forma de um gato e a de um humano, o título mostra a versatilidade dos desenvolvedores baianos em transformar elementos históricos marcantes em mecânicas divertidas, provando que o regionalismo tem apelo universal e engajamento de público.

Diversidade e decolonialismo na tela
Outro exemplo da produção baiana é a Mandinga Games. Fundada em 2021, a empresa
conta com três pessoas que, atualmente, concentram esforços no maior projeto do estúdio,
o “Black Sailors”.

“É um jogo decolonial sobre um grupo de escravizados que toma conta de um navio
negreiro. Eles se transformam em piratas na Baía de Todos-os-Santos”, explica Thiago
Prudente, sócio da empresa.
A Mandinga Games ganha destaque ao trazer representatividade para o centro do game
design, mostrando que a Bahia tem propriedade para liderar debates globais sobre
diversidade dentro do entretenimento digital.
Os gargalos: recursos e fuga de talentos
Apesar das conquistas e prêmios, os desenvolvedores baianos enfrentam uma assimetria
econômica histórica em comparação ao eixo Sul-Sudeste. O principal entrave gira em torno
do volume de investimentos de risco e do formato dos editais públicos locais.
“Como exemplo prático, enquanto editais de fomento (como a Lei Paulo Gustavo) em São
Paulo chegam a investir cerca de R$ 1 milhão em um único projeto de jogo, na Bahia esse
mesmo montante total precisou ser fracionado para atender a diversas empresas”, pondera Filipe Pereira, da Aoca. Ele reforça a necessidade de políticas públicas com diretrizes mais nítidas para manter as empresas que já geram empregos e estimular estudantes.
Outro desafio crucial é o hiato na cadeia de talentos. Faltam empresas estruturadas no
estado para absorver os novos profissionais que se formam nas universidades baianas e,
simultaneamente, faltam profissionais seniores disponíveis localmente para dar suporte à
escala de grandes projetos internacionais.
Vitrine consolidada no Gamepólitan 2026
É diante desse cenário de superação e inventividade que o Gamepólitan 2026 se projeta
como um evento indispensável para o amadurecimento do setor. Mais do que uma feira de
entretenimento, o festival atua como uma plataforma de validação pública e conexões de
negócios e oportunidades para profissionais, marcas e estúdios independentes, além de ter
sido base para o surgimento da Associação dos Desenvolvedores de Jogos Digitais da
Bahia (Bind).
Durante o evento, o público poderá testar em primeira mão as demonstrações e
atualizações de jogos marcantes da produção estadual, incluindo o universo de Gato no
Cangaço e o aguardado ÁRIDA 2.
“O Gamepólitan é um marco histórico para o ecossistema baiano. Desde o seu surgimento,
o evento carrega uma enorme representatividade, oferecendo vitrine e validação de público
para novos desenvolvedores e estúdios consolidados. A Bahia transborda talento criativo e
técnico; ter um espaço desse porte na nossa capital para reunir marcas, criadores e a
comunidade gamer é essencial”, conclui Pereira.
O avanço dos estúdios baianos deixa claro: a Bahia não quer apenas consumir tecnologia;
ela está pronta para ditar as regras, as estéticas e as histórias dos jogos do futuro.
O Gamepólitan é apresentado pelo Ministério da Cultura, Petrobras e Estado da Bahia.
Apoio Institucional da Unifacs. Energético Oficial Monster e patrocínio do Sebrae. O
projeto também tem o patrocínio da Fanta e do Estado da Bahia, em conformidade com a
Lei nº 7.015, de 09 de dezembro de 1996. É uma realização da 42 Cultural e do Ministério
da Cultura, Brasil.
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