17 de July de 2026
Clube do livro em Feira de Santana usa literatura para criar laços e combater a solidão na vida adulta
Participantes do clube do livro EntreLinhas se reúnem em cafés, hamburguerias e docerias locais para debater leituras do mês – Foto: Arquivo pessoal.

Na era da velocidade digital, onde as interações humanas frequentemente se resumem a curtidas rápidas e o lazer é dominado pelo algoritmo das redes sociais, um grupo de leitores em Feira de Santana está fazendo o caminho inverso. Eles decidiram fechar as telas dos smartphones, abrir as páginas dos livros e se reunir em cafés, hamburguerias e docerias locais para debater histórias e, além disso, construir conexões reais.

O movimento ganha força em um cenário nacional desafiador. Segundo os dados mais recentes da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, desenvolvida pelo Instituto Pró-Livro, o país enfrenta um recuo nos índices de leitura, tendo registrado uma perda de cerca de 4,6 milhões de leitores em um intervalo de apenas quatro anos. Ainda segundo a pesquisa, atualmente, apenas 52% da população tem o hábito de ler, e a queda é mais acentuada entre as classes A e B e entre jovens com ensino superior.

Além disso, o estudo aponta que o crescimento do tempo dedicado às telas e redes sociais é um dos principais fatores para esse distanciamento dos livros. Nadar contra essa tendência digital foi justamente o que motivou a analista de produção Maria Jilvani Silva, conhecida melhor como Nina, a fundar o clube do livro “EntreLinhas” há um ano e seis meses.

“O EntreLinhas nasceu de uma solidão que muitos leitores conhecem bem”, relata Nina ao Acorda Cidade. “Eu sempre gostei muito de ler e adorava comentar os livros. Meu namorado e meus amigos me ouviam falar por horas, mas não é a mesma coisa. Você quer conversar com alguém que também leu, que surtou no mesmo capítulo, que odiou aquele personagem ou ficou dias pensando naquele final”, completa.

Além da paixão pela literatura, a idealizadora percebeu uma questão comum da vida moderna: a dificuldade de sociabilizar após o início da jornada profissional.

Depois dos 23 anos, a vida adulta faz a gente ficar com dois tipos de relação: os amigos de infância e os colegas de trabalho. Criar novas amizades se torna muito mais difícil. A ideia nunca foi apenas criar um clube do livro, mas criar um espaço onde pessoas pudessem se conhecer por meio das histórias. Onde o livro fosse apenas o começo de uma conversa muito maior”, pontua.

Acolhimento que cruza cidades

Essa proposta de pertencimento foi de encontro à realidade da analista financeira Taís Santos. Natural de Vitória da Conquista, Taís se mudou para Feira de Santana por conta do trabalho do marido e enfrentou o desafio clássico da migração: se adaptar a um lugar onde não conhecia ninguém.

Cuidando de um bebê pequeno que demanda atenção constante, Taís, que hoje também administra o clube, conta ao Acorda Cidade que encontrou logo no início do projeto, a janela que precisava para se ambientar.

“Eu conheci o clube através de um post no Instagram. Como sempre quis participar de um clube de leitura, achei a ideia maravilhosa e casou com o momento que eu estava vivendo. Tinha acabado de me mudar e não conhecia ninguém. O clube trouxe amizade, conhecimento, acolhimento, risadas e momentos especiais.”

Para a analista financeira, a dinâmica do grupo também quebrou a barreira do isolamento. “A principal diferença entre ler o livro sozinha ou pelo clube é o nicho. Geralmente a gente acaba se apegando a um tipo específico de leitura e no clube, como é através de votação, acabei lendo livros que jamais iria ler se dependesse apenas de mim”, conta.

As discussões são sempre enriquecedoras, pois alguém sempre tem uma visão diferente da sua e, dependendo do que já viveu, acaba trazendo um olhar mais apurado para a leitura e uma visão que você pode ter deixado passar”, completa.

Entre as leituras marcantes, Taís destaca o aclamado romance Torto Arado, do baiano Itamar Vieira Junior. “Além da história trazer as marcas das dificuldades e sofrimento dos nossos antepassados, foi uma visão histórica em forma de literatura. Esse encontro teve muitas pessoas e os debates foram mais profundos, pois lidavam com algo que muitas pessoas passaram ou conhecem alguém que já passou.”

Clube do livro em Feira de Santana usa literatura para criar laços e combater a solidão na vida adulta
Grupo de clube do livro se reúne para discutir leitura de Torto Arado – Foto: Arquivo pessoal

O livro como ponto de partida

Hoje, além de Taís, Nina conduz o projeto com o apoio de mais duas administradoras, Ísis e Ane, para planejar as dinâmicas de um grupo que abraça desde quem devora dezenas de títulos por ano até quem passou muito tempo sem conseguir concluir uma obra.

Clube do livro em Feira de Santana usa literatura para criar laços e combater a solidão na vida adulta
Maria Jilvani Silva (Nina), idealizadora do clube | Taís Santos e Ane, administradoras do clube – Foto: Arquivo pessoal.

Para garantir que a iniciativa seja inclusiva, o EntreLinhas adota critérios de acessibilidade: Nina conta que os livros escolhidos precisam ter um limite de páginas que não sobrecarregue a rotina dos participantes e devem ser financeiramente acessíveis ou possuir versões digitais gratuitas.

A escolha das obras segue um calendário temático anual, que já passou por gêneros como literatura brasileira, suspense, romance, fantasia e clássicos, onde os próprios membros indicam e votam nos títulos do mês. O grupo disponibiliza, inclusive, um cronograma de leitura para guiar quem está retomando o hábito aos poucos.

Nina relatou ao Acorda Cidade, que um diferencial do clube está na experiência dos encontros presenciais. Longe de debates acadêmicos ou cobranças por desempenho, as reuniões são dinâmicas e frequentemente temáticas, com propostas que já foram desde brincadeiras de investigação criminal até chás da tarde inspirados em clássicos e festas com a estética dos anos 2000.

“Muitas pessoas chegam pedindo desculpas por não terem concluído o livro e saem do encontro dizendo: ‘No próximo eu consigo’. E conseguem. Aqui, o pertencimento vem antes da obrigação”, defende a fundadora.

Nina ainda pontua outros benefícios observados com o projeto. “Com o tempo, as pessoas começam a argumentar melhor, defender suas opiniões, ouvir pontos de vista diferentes. O livro abre a porta, mas quem conduz a conversa são as pessoas”, conclui.

Para quem deseja se integrar à comunidade literária, o EntreLinhas abre novos formulários de inscrição a cada dois meses por meio do link disponível no perfil oficial do projeto no Instagram.

Reportagem produzida com informações apuradas pelo estagiário de jornalismo Davi Cerqueira, com supervisão de Jaqueline Ferreira, ambos do Acorda Cidade

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