
Como já divulgado pelo Acorda Cidade, a Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam) de Feira de Santana registrou, no primeiro semestre de 2026, um aumento de 371,43% no número de mandados de prisão e 122% na conclusão de inquéritos, em comparação com o mesmo período de 2025. Sobre os números, a delegada Lorena Almeida explicou que eles indicam que a Polícia Civil tem focado em atuar de maneira mais rápida, para que os casos cheguem até a Justiça e os agressores possam ser julgados e punidos.
Mesmo com os números expressivos, a delegada destacou que ainda há uma grande resistência em realizar denúncias por parte das mulheres, já que muitas acabam acreditando que o caso delas será diferente e que a violência vai acabar.
“Infelizmente a gente tem ainda essa resistência, muitas mulheres acreditam que o caso delas vai ser diferente, muitas mulheres acreditam que ele não seria capaz de fazer algo mais grave com ela e toda vítima de feminicídio foi uma mulher que acreditou que o caso dela era diferente e que não iria acontecer algo pior.”
Ao analisar o balanço do semestre, Lorena Almeida destacou que o número de denúncias não funciona para medir a produtividade da polícia, pois o que importa de verdade é o que é feito depois que a mulher registra o boletim de ocorrência.
Para a Polícia Civil, a gente não faz análise de número de ocorrências. Porque os números, primeiramente, são relativamente semelhantes. Quando a gente tem uma alteração, é de um percentual muito pequeno, 5%, 2%, 3%. E o número de ocorrências não é um dado que a gente usa para avaliar a nossa produtividade. Se mil ocorrências estão sendo registradas, a gente não tem, de fato, quantas ocorrências que estão sendo registradas. O que é que a gente precisa analisar como um dado efetivo de produtividade? Quantas ocorrências estão virando inquérito e estão sendo enviadas à justiça.”
Além disso, a delegada contou que geralmente, as ocorrências registradas são as mesmas nos períodos analisados, como lesão corporal, ameaça, injúria e perseguição. No entanto, Lorena afirmou que violência doméstica representa o maior número de procedimentos policiais em todas as polícias civis do Brasil, e não apenas nas Deams.

Atuações da Deam
A delegada afirmou que este primeiro semestre foi bastante produtivo, com resultados muito expressivos. Segundo ela, esses números representam uma certa proteção às mulheres e à sociedade como todo, pois mostram que mais investigações e prisões foram realizadas.
“Quando a vítima vem até a Deam, ela precisa de uma resposta do Estado. Não basta que ela venha até a delegacia e faça o registro do B.O. A gente conclama as vítimas que venham até a Deam, que façam o registro do B.O, mas a gente precisa também trabalhar a partir daí.”
De acordo com Lorena, os Boletins de Ocorrência (B.O.) estão sendo registrados e a polícia tem ouvido as vítimas, testemunhas e autores. As oitivas servem para colher as provas, verificar a veracidade dos fatos e, se houver necessidade, representar ao Poder Judiciário por meio de medidas cautelares.
Então, mandados de prisão estão sendo cumpridos para que agressores e potencialmente futuros que possam vir a praticar feminicídio sejam retirados de circulação, assim como também armas sendo retiradas de circulação, para que a vítima possa se sentir mais protegida, para que ela possa saber que o caso dela foi devidamente investigado. E essa é a nossa prioridade aqui da Deam de Feira de Santana, que os casos realmente virem processos judiciais, que os casos graves sejam tratados com a seriedade que merecem, com os agressores sendo tirados de circulação, com mandatos de prisão sendo cumpridos e assim vidas possam ser preservadas.”
Questionada sobre descumprimento de medidas protetivas, Lorena Almeida salientou, ao Acorda Cidade, que a Polícia Civil atua com seriedade, cumprindo mandados e remetendo procedimentos à Justiça. Além disso, ela esclareceu que as prisões não acontecem apenas com o ato de passar em uma mesma rua.
Não é que a pessoa passou na rua no mesmo momento que a outra estava passando e tinha uma medida protetiva que ela vai ser presa. A Deam trabalha com seriedade. Mas se uma pessoa já foi vítima de agressão e quando a mulher pede uma medida protetiva, ele volta a ameaçar ou ele volta a tentar agredir ou volta a perseguir, invade a casa dela, isso de fato é um caso grave e com certeza a gente vai cumprir um mandado de prisão preventiva nesses casos graves para preservar a vida da vítima.”
Outro crime abordado pela delegada é a violência praticada por meio das redes sociais. Segundo Lorena, por fazer parte da rotina da maioria das pessoas, acontecem muitos casos de perseguição e ameaças nas redes sociais. Essas ocorrências também são investigadas pela Deam.
Nós tivemos casos também de crimes sexuais praticados pelo meio virtual, como exposição íntima, tudo isso a gente está investigando. Qualquer pessoa que queira registrar, não só na Deam, como em qualquer delegacia de polícia do Brasil, se um homem quiser registrar uma ocorrência contra uma mulher, ele pode ir em uma Delegacia Territorial e registrar também. Ele é livre para fazer isso. Qualquer pessoa pode registrar uma ocorrência. Mas o fato vai ser devidamente apurado e a gente consegue perceber a veracidade de uma situação ou não.”
Por fim, ela ressaltou que o ato de “retirar uma queixa” não existe mais. Após o registro da queixa, a polícia seguirá com a investigação, mesmo que a mulher tenha se arrependido, algo que ainda acontece principalmente pelo ciclo de violência no qual a mulher está inserida.
Se uma mulher quiser voltar ao relacionamento, é óbvio, o Estado não pode interferir na esfera de individualidade da pessoa, é uma decisão personalíssima, só a pessoa pode tomar. A gente está sempre fazendo esse trabalho de conscientização social também, sobre as etapas do ciclo da violência, que a pessoa às vezes decide voltar a um relacionamento não porque gosta de apanhar, mas porque ela está inserida em um contexto de violência psicológica também e muitas vezes ela perde até a noção do que é um perigo. O processo vai existir do mesmo jeito, ainda que a vítima tenha retomado o relacionamento.”
Com informações do repórter Ed Santos, do Acorda Cidade
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