
A engenharia sustentável é uma prática fundamental para a saúde do planeta. O termo é usado para definir as ações da construção civil que reduzem ou eliminam ao máximo os impactos ao meio ambiente. O professor de engenharia da Universidade Estadual de Feira de Santana, Dr. Eduardo Cohim é especialista no assunto, principalmente, referente a energias limpas, reaproveitamento de água e recuperação de recursos em sistemas de saneamento.
Ao Acorda Cidade, o professor falou sobre a importância das práticas sustentáveis da engenharia na organização de uma cidade como Feira de Santana, principalmente para beneficiar o meio ambiente, consequentemente a população, inclusive, evitando tragédias anunciadas. Sendo uma unidade geográfica, o território possui uma relevância significativa na gestão da água da chuva, por exemplo.

“As cidades são construídas de uma forma que impermeabiliza as superfícies e isso gera um escoamento muito grande. Em Feira, por exemplo, o tipo de terreno, pelo menos na maioria da cidade, onde 10% da água que cai, infiltra ou escoa, quando eu impermeabilizo, passa a ter 75%, 80% e até mais, a depender da forma como isso é ocupado. Então, se essa água, ao invés de ser tratada como um problema e jogada para lugares distantes, ela fosse aproveitada, a gente teria um benefício duplo, porque além de reduzir a demanda de água, a necessidade de retirar água dos rios, dos lagos, ela também propicia a redução dos escoamentos superficiais e, consequentemente, dos alagamentos”.
O professor já foi presidente da Associação Brasileira de Captação e Manejo de Água de Chuva (2014 a 2018) e possui mestrado em Tecnologias Limpas pela Universidade Federal da Bahia, com doutorado em Energia e Meio Ambiente. Atualmente, ele é pesquisador da Rede de Tecnologias Limpas na Ufba (Teclim/Ufba). Em atuação com seus alunos, ele explicou que o tema aparece não como um conteúdo formalizado, mas que as disciplinas da engenharia vem abordando o assunto.
“Por exemplo, na disciplina de saneamento, já se comenta do reaproveitamento de excretas ou dos esgotos para a produção, por exemplo, de adubo ou para a produção de energia. Essa é uma forma sustentável, ou menos impactante, ou mais sustentável do que o convencional, de você gerenciar esse serviço”.

Segundo o professor, a universidade possui projetos que analisam e pesquisam a qualidade no lodo de esgoto, a qualidade bacteriológica e também a qualidade agronômica, usando cinza vegetal, que é o resultado da queima da madeira em fornos, em estabelecimentos. Outro projeto abrange a engenharia ecológica.
“Outro projeto é fazer pequenos tanques plantados, onde as próprias plantas são responsáveis pela mineralização e pela higienização do lodo, o que permite, tanto num caso como no outro, que esse lodo seja utilizado de forma segura na agricultura”, explicou.
Os alagamentos registrados nas cidades, pode, sim, ser consequências de falhas de planejamento que vieram de gestões muito anteriores à atual. Para ele, a prioridade é olhar para o futuro e tentar resolver os problemas estruturais da maneira mais eficiente e energética possível.

“Os alagamentos, podemos dizer hoje que são uma falha da concepção de engenharia adotada. Se em todo empreendimento fosse exigido que a vazão de água, a quantidade de água liberada para o sistema público fosse igual ao que era antes da urbanização, a gente não teria esse problema. E existem soluções de engenharia para isso, e muitas. Você pode dirigir essa água para jardins de chuva, pode dirigir essa água para poços de infiltração, pode dirigir essa água para bacias de detenção. E quanto mais perto da fonte geradora, ou seja, quanto mais perto do bairro, do condomínio, da residência, mais eficiente são essas soluções”, informou.
O aterramento das lagoas é uma prática totalmente contrária ao desenvolvimento sustentável. Elas funcionam como um freio d’água. São aqueles volumes de água que chegam e são temporariamente armazenados e liberados de forma gradual, portanto, preservar a lagoa é proteger as áreas jusantes (lado para onde se dirige a corrente de água) contra os alagamentos, conforme explicação do professor.

Além disso, as lagoas têm um espelho d’água que contribui para o microclima, a temperatura local. A vegetação que emergente também atrai insetos e animais que beneficiam a biodiversidade urbana.
Para Eduardo Cohim, existe uma resistência por parte das construtoras em se aplicar a engenharia sustentável, mas atualmente é possível perceber uma tolerância maior às soluções que incluam a saúde do meio ambiente.
“Naturalmente as soluções tendem a ser uma repetição do que se fazia antes. Ou seja, a tendência é sempre pela continuidade e pela reação às mudanças, mas, hoje em dia, a gente já percebe uma tolerância maior, uma aceitação maior para essas soluções”, pontuou.
Medidas Sustentáveis
Quando se pensa em sustentabilidade, se lembra dos ensinamentos da infância dos três ‘Rs’, reutilizar, reduzir e reciclar. Esses são princípios básicos que podem nortear diversas práticas para preservar o planeta.

Essas medidas podem e devem ser implementadas tanto em cidades pequenas quanto em grandes metrópoles. A exemplo disso, o professor pontuou o conceito de ecologia industrial, que propõe que os resíduos de uma atividade humana se tornem insumos para outras atividades.
“O esgoto é um resíduo das nossas atividades higiênicas, metabólicas; os contaminantes são basicamente os nutrientes, vamos chamar assim, que nós ingerimos na forma de alimentos e que vieram do campo. Então, pelo menos o mais sustentável seria, ao invés de tratar e jogar fora, ou nem sequer tratar, seria tratar e retornar isso para produção agrícola”, destacou.

A redução do consumo desnecessário, reutilizando o que é possível no dia-a-dia e a reciclagem, por exemplo, de garrafas plásticas e vidros também são práticas que se aprende na escola e que, no futuro, devem ser aplicadas em qualquer profissão que execute.
Eduardo Cohim citou a reutilização de pneus, que por muitas vezes têm sido agente de portador de doenças (quando ficam espalhados pela cidade, acumulando água e servindo de criadouro do mosquito), como ação sustentável que está ao alcance do poder público.
“Os pneus inservíveis que a gente tem visto cada vez mais sendo utilizados como elementos para a decoração, para fazer fechamento de área, etc., poderiam ser utilizados como agregados do concreto asfáltico. Um detalhe interessante nisso, é que ele é produzido com essa borracha do pneu, chega a ser cinco vezes mais durável do que o asfalto convencional”, salientou.
Muitos benefícios têm nessa reutilização, desde o descarte correto dos pneus e o aproveitamento das redes pública e privada no ganho adicional que seria a durabilidade do concreto, das manutenções e de problemas em vias.

Apesar de ser algo rentável e eficaz, o professor ainda apontou que existe um desinteresse de modo geral por parte da engenharia, que pode ser decorrente da falta de conhecimento das pessoas.
“Existe um desinteresse que decorre de ignorância, no sentido de falta de conhecimento dessas soluções alternativas de engenharia e, de certa forma, um certo atrelamento que existe entre as ações do poder executivo, no caso aqui da prefeitura, com o calendário eleitoral. As ações são sempre orientadas visando à continuidade da corrente que está no poder momentaneamente. Como as soluções são de amadurecimento mais lento, o que deveria ter era uma continuidade das medidas adotadas em uma gestão por outra”, explicou.
Com informações do repórter Ney Silva, do Acorda Cidade
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