23 de July de 2026
Lute como uma garota: conheça os desafios e relatos enfrentados pelas mulheres no universo nerd
Foto: Kaio Souza/Acorda Cidade

O protagonismo feminino na cultura pop veio para ficar, e a importância desse avanço é indiscutível. No entanto, muitos ainda tentam desvalorizar ou negar a presença das mulheres nesses espaços. Por trás das skins virtuais e das cenas de empoderamento nas telas, as entusiastas da cultura geek enfrentam batalhas constantes ao manifestar suas paixões seja por animes, quadrinhos, jogos ou filmes de super-heróis.

Pesquisas do ecossistema nerd, como a CCXP e a Geek Power, apontam que a participação feminina no consumo ativo desses produtos deu um salto de 16% para 40%. Já segundo a Pesquisa Game Brasil (PGB), as jogadoras assumiram a liderança no universo dos games do país, somando 52,8% da comunidade.

Apesar de os números demonstrarem a força feminina, a realidade cotidiana ainda é hostil. Entre as situações mais relatadas pelas frequentadoras desse meio estão a hipersexualização, o ódio gratuito, a desqualificação do seu conhecimento e o assédio sexual.

Preconceito e descredibilização

A engenheira química Mariele Cunha, de 25 anos, marcou presença no segundo dia da Super Game-Con 2026 caracterizada como Queen Beelzebub, da websérie animada Helluva Boss. Ela conta que já passou por diversas situações delicadas em que seu conhecimento foi questionado por homens.

Lute como uma garota: conheça os desafios e relatos enfrentados pelas mulheres no universo nerd
Mariele Cunha | Foto: Kaio Souza/Acorda Cidade

“Somos desqualificadas, seja por gostar de animes ou de jogos. Só pelo fato de ser mulher neste universo, as pessoas duvidam de você e questionam o que você sabe”, afirmou Mariele ao Acorda Cidade.

Além do machismo, a engenheira relata lidar com o preconceito ligado à idade. Apesar das dificuldades cotidianas, é em eventos como a Game-Con que ela se sente livre para expressar suas paixões. “Isso me magoa muito. É difícil lidar com a situação, mas não tenho como esconder quem sou. Em eventos assim, posso extravasar e me sentir livre”, desabafou.

Hipersexualização e assédio

A estudante Ana Beatriz, de 13 anos, é apaixonada por jogos online. Utilizando um cosplay da personagem 2B, do jogo NieR: Automata, a jovem relata que nunca foi vítima direta de assédio, mas reconhece que essa é uma constante na vida de muitas cosplayers.

Super GameCon 2026
Ana Beatriz de NieR Automata | Foto: Kaio Vinícius/Acorda Cidade

“Felizmente, nunca passei por isso. Mas sei que muitas pessoas se aproveitam da hora de tirar fotos com as meninas para passar do ponto e tocar onde não devem”, pontuou a estudante.

Para ela, a hipersexualização das personagens femininas é um dos maiores problemas do setor. “Me sinto desconfortável ao ver os jogos mantendo essa abordagem. Para nós, mulheres, essa é uma grande dificuldade, pois as roupas das personagens costumam ser extremamente curtas.”

A estudante de psicologia Sophia Freitas, de 20 anos, concorreu ao concurso de cosplay da Game-Con caracterizada como Nicole Demara, do RPG Zenless Zone Zero. Ela destaca a importância de ocupar esses espaços como forma de combater a objetificação das personagens.

Lute como uma garota: conheça os desafios e relatos enfrentados pelas mulheres no universo nerd
Sophia Freitas | Foto: Kaio Souza/Acorda Cidade

“Acho incrível ver mulheres em posições de destaque se expressando através da arte — seja no cosplay, na estilização de perucas ou na maquiagem. A mulher precisa ocupar esses lugares”, enfatizou.

Já a futura fisioterapeuta Kimberli Cedraz, de 22 anos, frequenta eventos geeks há anos e vivenciou episódios lamentáveis. “Em outro evento, um homem passou por mim e me assediou verbalmente”, relatou Kim, como prefere ser chamada. Apesar dos riscos, ela exalta a resiliência do público feminino.

Lute como uma garota: conheça os desafios e relatos enfrentados pelas mulheres no universo nerd
Kimberli Cedraz | Foto: Kaio Souza/Acorda Cidade

“As mulheres são muito fortes. Mesmo sabendo dos riscos, elas se divertem e vestem seus cosplays. O que importa é nos sentirmos felizes e não abrirmos mão do nosso espaço.”

Para Julia Rocha, pedagoga de 28 anos que integrou a equipe de produção do evento, quebrar a ideia de que o universo geek pertence apenas aos homens é fundamental.

Lute como uma garota: conheça os desafios e relatos enfrentados pelas mulheres no universo nerd
Julia Rocha | Foto: Arquivo Pessoal

“Acho essencial que as mulheres ocupem esses espaços. Nos games e nos eventos, a maioria sempre foi masculina. Por isso, é transformador ver as mulheres criando laços de amizade e se fortalecendo nesse meio”, ressaltiu.

‘Duo’ na vida e nos servidores

A artesã Sara Souza e a estudante de Letras Helen Joyce, ambas de 23 anos, são amigas de longa data e compartilham a paixão pelos jogos. Enquanto Sara explora os mundos de Minecraft, Helen prefere as batalhas estratégicas de League of Legends (LoL).

Ao entrarem nos servidores online, no entanto, a recepção do público masculino costuma vir acompanhada de comentários pejorativos.

“Como o ambiente nos servidores é predominantemente masculino, a entrada de uma mulher é recebida com preconceito. Tentam logo nos colocar em uma posição inferior, com comentários como ‘você vai ser minha namorada ou minha protegida’, como se uma mulher não pudesse ser boa no jogo ou jogar na linha de frente”, relatou Helen.

Lute como uma garota: conheça os desafios e relatos enfrentados pelas mulheres no universo nerd
Sara Souza e Helen Joyce | Foto: Arquivo Pessoal

Sara acrescenta que o julgamento sobre a idade também afeta mais as mulheres. “Ainda existe a ideia de que a mulher tem limite de idade para gostar dessas coisas. Na faixa dos 20 aos 25 anos, ouvimos que é ‘coisa de criança’. Já para os homens, independentemente da idade, é visto como paixão; para a mulher, tratam como infantilidade.”

Apoio na organização

Na linha de frente da organização do evento está Fler Queiroz, idealizador e fundador da Game-Con. Ele destacou que a igualdade de gênero e a segurança do público feminino são prioridades na gestão da convenção, cuja equipe de staff é composta por 60% de mulheres.

Lute como uma garota: conheça os desafios e relatos enfrentados pelas mulheres no universo nerd
Fler Queiroz | Foto: Kaio Souza/Acorda Cidade

“Como nosso coletivo cultural é majoritariamente feminino, deixamos que as próprias mulheres da equipe liderem o acolhimento e o tratamento desses casos. Quando surge algum relato, escutamos a pessoa, acionamos a equipe jurídica e oferecemos todo o suporte necessário”, garantiu o produtor ao portal Acorda Cidade.

Leia também:

Bianca Alencar, Feh Dubs, Luísa Horta e Foxyzinho: fãs conquistam dubladores na Super GameCon 2026

GameCon encerra edição histórica com casa cheia, criatividade sem limites e cosplays que roubaram a cena; veja as fotos

Siga o Acorda Cidade no Google Notícias e receba os principais destaques do dia. Participe também dos nossos canais no WhatsApp e Youtube e grupo de Telegram.