
Você promete usar menos o celular, melhorar a alimentação, criar uma rotina de exercícios ou manter a casa organizada. Nos primeiros dias, a mudança parece possível, mas basta a rotina ficar mais corrida para os antigos comportamentos voltarem. E quando você para refletir, já passou metade do ano. Para muitas pessoas, esse ciclo gera frustração e a sensação de que falta disciplina ou força de vontade.
O problema, no entanto, pode ter uma solução mais prática do que parece. Em vez de concentrar todo o esforço no autocontrole, pequenas mudanças na organização dos espaços podem reduzir os gatilhos dos maus hábitos e facilitar escolhas mais alinhadas aos objetivos pessoais. Alterar a posição de objetos, dificultar o acesso a determinadas distrações e tornar comportamentos saudáveis mais visíveis são algumas das estratégias que podem ajudar.
Para a arquiteta e especialista em Neuroarquitetura Gabi Sartori, cofundadora da Academia Brasileira de Neurociência e Arquitetura (Neuroarq Academy), o ambiente físico exerce uma influência constante sobre as decisões cotidianas. A disposição dos móveis, os objetos que permanecem à vista e até o desenho das cidades podem estimular ou dificultar determinados comportamentos, muitas vezes sem que as pessoas percebam.
“O ambiente funciona como uma mão invisível. Ele influencia nossas escolhas o tempo todo, muitas vezes sem que a gente perceba. Se queremos mudar um comportamento, precisamos criar um espaço que trabalhe a nosso favor, e não contra nós”, afirma.
Essa visão é sustentada por estudos da psicologia e da neurociência. Um dos exemplos mais conhecidos é o experimento Counterclockwise, conduzido pela psicóloga de Harvard Ellen Langer no início da década de 1980. Na pesquisa, um grupo de idosos passou alguns dias vivendo em um ambiente preparado para reproduzir fielmente a década de 1950. Ao final da experiência, os participantes apresentaram melhorias em indicadores físicos, cognitivos e de vitalidade, reforçando o impacto que o ambiente pode exercer sobre o comportamento e até sobre respostas fisiológicas do organismo.
Segundo Gabi, esse princípio está presente em situações muito mais simples do cotidiano. “Se o celular está sempre ao alcance das mãos, é natural pegá-lo diversas vezes ao longo do dia. Se alimentos pouco saudáveis ficam visíveis na cozinha, a tendência é consumi-los. O contrário também é verdadeiro. Quando facilitamos o acesso ao comportamento que queremos desenvolver, aumentamos muito a chance de ele se tornar um hábito”, explica.
A influência do ambiente acontece em diferentes escalas. No espaço urbano, cidades que oferecem calçadas seguras, ciclovias, áreas verdes e locais de convivência estimulam naturalmente a prática de atividade física e o encontro entre as pessoas. Já ambientes desenhados exclusivamente para o uso de automóveis acabam favorecendo o sedentarismo.
A arquiteta cita como exemplo iniciativas como a abertura da Avenida Paulista, em São Paulo, e de vias em Bogotá para pedestres e ciclistas aos finais de semana. “Quando o espaço muda, o comportamento coletivo muda junto. As pessoas passam a caminhar, andar de bicicleta, brincar com os filhos e ocupar a cidade de outra forma. O ambiente cria novas possibilidades”, disse.
Dentro de casa, mudanças aparentemente pequenas também podem gerar resultados significativos. Gabi relembra uma experiência vivida pela própria família ao retirar uma mesa que havia se transformado em um ponto permanente de acúmulo de objetos.
“Aquela mesa estimulava um comportamento que ninguém queria manter. Quando ela saiu, o espaço ganhou outra função. Passou a ser um lugar de leitura, de conversa e de convivência. Nós não mudamos porque fizemos mais esforço. Mudamos porque o ambiente passou a incentivar outro comportamento”, complementa.
Quatro estratégias para eliminar maus hábitos
Com base em pesquisas sobre comportamento humano e na aplicação prática da Neuroarquitetura, Gabi Sartori apresenta quatro mudanças simples que podem ajudar qualquer pessoa a abandonar hábitos prejudiciais.
1.Criar fricção
Segundo a especialista, dificultar o acesso ao comportamento indesejado é uma forma eficiente de reduzir sua frequência. “Nosso cérebro procura economizar energia e tende a escolher sempre o caminho mais fácil. Quando colocamos um pequeno obstáculo entre o impulso e a ação, damos ao cérebro a oportunidade de interromper o comportamento automático. Pode ser deixar o celular em outro cômodo, guardar o controle da televisão ou utilizar um recipiente com temporizador”, disse Gabi.
2. Alterar a disposição do ambiente
A organização do espaço também influencia diretamente as decisões do dia a dia. “Se o ambiente continua convidando você a repetir o mesmo comportamento, a mudança fica muito mais difícil. Alterar a posição de um móvel, reorganizar um cômodo ou mudar um objeto de lugar pode ser suficiente para quebrar associações automáticas que construímos ao longo do tempo”, destaca a aespecialista.
3. Redesenhar as rotinas
Além da organização física, o ambiente pode ajudar a estruturar novos padrões de comportamento. “Quando criamos regras claras para determinadas atividades, deixamos de agir apenas por impulso. Definir que uma série será assistida apenas em um dia específico da semana, por exemplo, reduz a repetição automática e fortalece hábitos mais conscientes”, ressalta a arquiteta.
4. Remover os gatilhos visuais
Para Gabi, muitos hábitos começam antes mesmo da ação, no simples contato visual com um objeto. “Grande parte dos nossos comportamentos é iniciada por um gatilho visual. Se aquilo que desperta um hábito está constantemente à vista, ele será repetido com muito mais facilidade. Retirar esses estímulos do campo de visão torna a mudança mais simples e reduz a dependência da força de vontade”, pontou Gabi.
Arquitetura/design como ferramenta de transformação
A especialista destaca que compreender a influência do ambiente amplia o papel da arquitetura e do design de interiores. Mais do que criar espaços bonitos e funcionais, esses profissionais podem desenvolver ambientes que favoreçam saúde, bem-estar, produtividade e qualidade de vida.
Para ela, identificar um hábito negativo passa por uma reflexão simples: avaliar se aquele comportamento aproxima ou afasta a pessoa dos seus objetivos de vida.
“Um hábito ruim é aquele que dificulta o caminho para aquilo que você deseja construir. Quando entendemos isso, percebemos que não basta tentar mudar apenas o comportamento. É preciso desenhar um ambiente que torne a escolha certa mais fácil de acontecer todos os dias”, pontua a arquiteta.
A principal mensagem, segundo Gabi Sartori, é que mudanças duradouras não dependem exclusivamente de motivação ou disciplina. Elas começam quando o ambiente deixa de ser um obstáculo e passa a atuar como um aliado no desenvolvimento de uma vida mais saudável e equilibrada.
A Neuroarq Academy é a principal instituição brasileira dedicada ao estudo e disseminação da neuroarquitetura. Focada na interseção entre neurociência e o ambiente construído, a academia lidera o movimento educacional para capacitar profissionais a projetarem espaços empáticos que promovam saúde, bem-estar e alta performance, sempre baseados em evidências científicas e foco no ser humano.
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