1 de August de 2026
Grupo de capoeira Angoleiros do Sertão - Dia do Capoeirista
Foto: Ney Silva/ Acorda Cidade

No dia 3 de agosto é celebrado o Dia do Capoeirista. A capoeira, reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco (2014), é uma expressão que une luta, dança, música, cultura afro-brasileira e educação. Em Feira de Santana e na Bahia, a capoeira tem forte tradição.

Em entrevista ao Acorda Cidade, o capoeirista Hulluca Costa, do grupo Angoleiros do Sertão, explicou a história da escola de capoeira em Feira de Santana, que nasceu em meados dos anos 80, por iniciativa do Mestre Cláudio.

Segundo ele, no início, as rodas de capoeira aconteciam dentro do Mercado de Arte. Mas com o tempo, o mestre percebeu que era necessário ter contato com a rua e com o público. 

Hulluca Costa
Hulluca Costa | Foto: Ney Silva/ Acorda Cidade

“Sair de cima do púlpito e do lugar fechado e vir pra rua, que é de onde a capoeira vem. Então, ele tira a roda de capoeira de dentro do Mercado de Arte e coloca aqui no Centro, na Getúlio Vargas, onde a gente começa a dialogar diretamente com o público e com as pessoas que passam pela rua.”

Hoje, o grupo se reúne todos os sábados, a partir das 10h, na Avenida Getúlio Vargas, em frente ao Mercado de Arte. 

“É um trabalho autônomo”

Hulluca destacou que a capoeira tem suas tradições e fundamentos, sendo reconhecida mundialmente e fazendo parte do turismo de Feira de Santana. Porém, chamou atenção para a inclusão de outras manifestações culturais que também fazem parte do trabalho do grupo, como é o caso do samba de roda. 

“A escola tem um evento anual, que reúne capoeiristas do mundo inteiro, que é sempre em janeiro. É um trabalho autônomo, não tem apoio, então ele é feito e organizado pelo próprio capoeirista, pelas próprias pessoas que reconhecem e se identificam com a cultura popular.”

Questionado sobre o papel do berimbau nas rodas de capoeira, Hulluca ressaltou que é o “instrumento de referência” e que “comanda a roda”, dando ritmo e compasso, sendo, geralmente, tocado pelo mestre ou pela pessoa que coordena a atividade.

“A gente costuma falar que a ancestralidade está no atabaque, no tambor. O berimbau é o que dá o compasso, que fala pra onde vai, pra onde vem, quem joga, quem não joga.”

Trabalho físico e psicológico

Hulluca também salientou que a capoeira é “completa”, sendo reconhecida por profissionais da área da saúde, pois trabalha a condição física, além do trabalho psicológico e emocional. No entanto, ele salienta que não é necessário ter nenhum preparo físico para praticar a atividade.

“O primeiro passo é querer fazer capoeira”, falou Hulluca ao Acorda Cidade

Ele também disse que há uma integração entre os capoeiristas da cidade, que se reúnem e dialogam para manter essa cultura e que ela siga sendo feita. 

Para participar do Angoleiros do Sertão, Hulluca explicou que o grupo tem atividades no Centro Universitário de Cultura e Arte (Cuca), na Avenida João Durval, em frente ao Shopping Boulevard, na Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) e em outras regiões. Os interessados podem procurar mais informações nas redes sociais do grupo.

Participação de pessoas de outros países

Hulluca também afirmou que, com mais de 30 anos de atuação no centro, pessoas de outras cidades, estados e países vêm para Feira de Santana, para acompanhar as rodas de capoeira do grupo. Esse é o caso da argentina Maria Sol, que está morando na cidade há quatro anos. 

Maria Sol
Maria Sol | Foto: Ney Silva/ Acorda Cidade

Ao Acorda Cidade, Maria contou que conheceu a capoeira ainda na Argentina e se encantou pelo grupo Angoleiros do Sertão e pelo Mestre Cláudio por meio de vídeos nas redes sociais. Com isso, ela veio para Feira de Santana em busca da capoeira. 

“Eu conheci o Mestre Cláudio olhando vídeos. Me apaixonei pela capoeira dele, do grupo dele, e vim aqui em Feira de Santana um pouco atrás disso. E aí acabei ficando e me apaixonando, pois a capoeira é muito mais que movimento, musicalidade,  tem um fundamento, uma filosofia e eu compartilho isso.”

“Faz a gente se sentir parte de uma família.”

Antes de chegar ao Brasil, ela apenas acompanhava a capoeira, sem praticar, pois não é algo comum na Argentina. Hoje, com o grupo, também fez novos amigos. “A gente vai interagindo, trocando ideias, sentimentos e é isso que faz a gente se sentir parte de uma família.”

“Eu só olhava e me interessei porque era uma coisa muito diferente. No meu país não tem nada parecido. Até porque a capoeira Angola é uma expressão da cultura preta. E a gente acaba se encantando, tendo muita curiosidade de conhecer e vai chegando devagarinho com os espaços que os mais velhos vão proporcionando.”

Sobre Mestre Cláudio, a argentina disse que ele estuda capoeira há muitos anos, trazendo os conhecimentos para o grupo, que atua com base na capoeira de Angola. 

“É capoeira de Angola, com o comando do Mestre Cláudio, que vem estudando a capoeira faz muitos anos, faz da capoeira a vida dele, o sustento dele. E a gente tem uma grande admiração e quer ficar junto, acompanhar a caminhada dele.”

Capoeira como uma filosofia de vida

Segundo ela, os treinamentos acontecem de segunda a sexta, com a roda aos sábados. Além do esporte, Maria salienta a capoeira como uma filosofia de vida, ajudando com questões psicológicas daqueles que praticam. 

“Mexe muito com o espiritual, e eu acho que o espiritual é o que também comanda o resto das coisas, o corpo, a mente. A gente sofre diferentes situações na vida cotidiana, no trabalho, com a família, e vem aqui também encontrar essa família,  se conectar com o movimento, a musicalidade e a espiritualidade.”

Maria Sol também chamou atenção para a história da capoeira, que já foi algo criminalizado e considerado como uma prática de “malandro”. Mas que, atualmente, representa a cultura popular. 

“Pelo que o Mestre e os mais antigos falam, antigamente podia dar até cadeia. E hoje, graças à luta desses mais velhos, a gente consegue ocupar esses espaços públicos, fazer uma roda linda de qualidade e tentar fazer essa inversão. Uma coisa que era uma prática de malandro, hoje é uma arte que representa a cultura popular, que é orgulho do Brasil, que todo mundo lá fora está olhando para o Brasil, em parte por conta da qualidade dessa capoeira. Então isso é maravilhoso.”

Com informações do repórter Ney Silva, do Acorda Cidade

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