
Como já divulgado pelo Acorda Cidade, uma professora de Feira de Santana denunciou à Polícia Civil o uso indevido de sua imagem na criação de vídeos pornográficos produzidos com inteligência artificial (IA). Em entrevista, a professora destacou o sentimento de vergonha e culpa que o crime causou.
“Faltou ar. Foi um momento muito constrangedor. Por mais que a gente saiba que a gente não tem feito nada, fica vergonha. Você saber que pessoas visualizaram aquilo, você está ali e não escolheu estar numa plataforma de pornografia, e sem controle sobre isso, foi uma situação muito difícil. É ainda muito difícil falar sobre isso sem sentir o nó na garganta.”
Apesar das preocupações e dos questionamentos, a professora disse que acredita que o melhor será feito. Além disso, afirmou que espera que essas situações não sejam normalizadas, mas sim que tenham uma regulamentação mais severa.
Em alguns momentos eu fiquei me perguntando se eu não era culpada disso, por que aconteceu, quem fez isso, por que fez isso, a motivação, se em algum momento eu dei motivo a isso. Mas a gente vai seguindo, acreditando que o melhor vai ser feito, que as pessoas vão compreender que isso não pode ser normalizado, que a gente não pode banalizar essa situação e que a gente precisa ter uma regulamentação mais severa em relação a essas coisas. Porque a gente vai ver que é uma tendência que pode só piorar.”
Medidas tomadas
Após a descoberta e o susto, a professora tirou prints dos vídeos e salvou os links. Ao tentar acessar a plataforma, ela percebeu que uma das contas havia sido derrubada. 48 horas depois, a outra conta também foi removida.
Em seguida, ela foi para a Delegacia Especializada de Atendimento a Mulher (Deam). Com isso, a professora se dirigiu para a Delegacia para o Adolescente Infrator (DAI), pois a suspeita é de que as imagens de deepfake tenham sido feitas por um adolescente, sendo aluno ou ex-aluno.
“Como eu disse, é uma suspeita. A gente tá deixando agora as investigações acontecerem pra poder chegar ao suposto infrator.”
A professora orienta que outras vítimas de imagens de deepfake busquem as delegacias, especialmente a Deam, para que esses casos sejam registrados e os criminosos possam ser penalizados.
Indo nas duas delegacias eu percebi que essa situação tem sido uma situação corriqueira. Então, o que eu tenho a dizer é que as pessoas que estão passando por isso, tenham coragem. Não se calem, porque quando a gente se cala, a gente fortalece a impunidade, fortalece esse tipo de crime. Então, aconteceu, a primeira coisa que você precisa fazer é printar as imagens, salvem os links de vídeo. Vá na delegacia mais próxima, seja forte, faça o que precisa ser feito, mas se permita ser acolhida. Não recue. Recorra aos direitos de vocês. Isso é crime.”
“Nós não estamos seguros”
Segundo ela, a descoberta do caso aconteceu no ambiente de trabalho. Ao chegar para dar aula, a professora foi alertada de que dois vídeos estariam em um site de pornografia. Inicialmente, ela disse que “a ficha não caiu”. Depois de um tempo refletindo, a vítima foi procurar saber melhor sobre o que estava acontecendo e encontrou os vídeos. Atualmente, os vídeos e a conta foram derrubados e não estão mais disponíveis para acesso.
“É uma violência que não é física, mas ela deixa marcas. São marcas muito sutis. Eu estou tendo problema com ansiedade, não estou conseguindo dormir bem, porque eu acordo pensando ‘o que é que pode acontecer?’ Porque você não tem segurança, nós não estamos seguros. A grande verdade é essa.”
Ela reforçou as preocupações que ficam na mente, especialmente no setor profissional, já que nos vídeos, a professora aparece utilizando a farda da escola onde trabalha. Mas chamou atenção para o apoio e acolhimento que recebeu das instituições em que atua, bem como de familiares e amigos.
As minhas instituições me acolheram muito bem, me ofertaram o acolhimento necessário, eu estou sendo muito bem acolhida, muito bem amparada, pelos colegas, pela instituição, família, amigos. É reconfortante saber isso, que a gente não tá sozinha nisso, saber que a gente tem um apoio. Por mais que a gente seja forte, a gente precisa em algum momento, ser acolhido por alguém. E tem sido importante esse acolhimento que eu tenho recebido das pessoas.”
Com informações do repórter Ed Santos, do Acorda Cidade
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