
Aos 21 anos, a rapper feirense Séta tem transformado vivências pessoais em música e conquistado cada vez mais espaço na cena do rap independente. Após ganhar notoriedade nas batalhas de rima e ampliar o alcance nas redes sociais com o lançamento do primeiro EP, Moeda, a artista aposta na autenticidade das letras, que abordam temas como amor, espiritualidade e questões sociais, para consolidar a carreira e realizar o sonho de viver exclusivamente da arte.
Por trás do nome artístico está Bruna Victoria da Silva Freitas. O apelido surgiu de forma espontânea no ambiente escolar, mas ganhou significado ao longo do tempo.
“Na verdade, ‘Séta’ surgiu como uma brincadeira, mas percebi que esse nome representava muito quem eu era. Sou uma pessoa direta na forma de falar e de me expressar, principalmente nas batalhas de rima. Também gosto da ideia da flecha que atinge o alvo. Passei a me identificar com esse nome e resolvi adotá-lo”, explica a artista ao Acorda Cidade.

Trajetória
Celebrado em 6 de agosto, o Dia do Rap chama a atenção para artistas que ajudam a fortalecer o gênero e a cultura hip-hop em Feira de Santana. Nascida e criada no bairro Cidade Nova, Séta conta que iniciou sua trajetória artística aos 15 anos, escrevendo poesias como forma de desabafo que, mais tarde, se transformaram em músicas.
A aproximação com a cultura das batalhas de rima aconteceu inicialmente pela internet, onde acompanhava as disputas e improvisava rimas ouvindo beats encontrados no YouTube.
A primeira experiência em uma batalha de rima aconteceu aos 17 anos, durante o período em que cursava o Bacharelado Interdisciplinar em Artes na Universidade Federal da Bahia (Ufba), em Salvador. Embora não tenha concluído a graduação, Séta afirma que foi justamente na universidade que encontrou sua identidade artística. “Eu acho que eu consegui concluir meu aprendizado na universidade, que foi justamente me encontrando na batalha de rima e no rap”, explicou.
“Desde as batalhas eu não parei e me descobri dessa forma. Vim para Feira, participei de competições, organizei coletivos, participei de oficinas, mas atualmente estou meio ‘aposentada’, vamos dizer. Agora estou focada em construir minha carreira artística com a música”, contou Séta.

De volta a Feira de Santana, passou a participar das batalhas de rima da cidade. A primeira vitória veio na Batalha do Feira VI, momento que considera um divisor de águas na carreira. “Foi ali que eu percebi que não era algo só meu, era algo que chegava em outras pessoas também”, disse.
Além das competições, Séta participou da organização do coletivo Batalha das Piveta Braba, formado por mulheres, e levou oficinas de batalha de rima para escolas e instituições de ensino de Feira de Santana, entre elas o Colégio Estadual de Tempo Integral Georgina de Melo Erismann e o IFBA.

Composições
Nas composições, mistura vivências pessoais e coletivas, abordando espiritualidade, amor e questões sociais. O processo criativo envolve escrita, freestyle e construção a partir de beats.
“Geralmente eu gosto de falar sobre o que estou sentindo, sobre as coisas em que acredito e sobre a espiritualidade, que é inerente ao meu ser artístico. Também falo sobre tudo o que atravessa a vida de uma jovem artista baiana”, contou Setá.
O processo criativo também varia. Em alguns momentos, ela escreve primeiro e depois adapta a letra ao beat. Em outros, a artista prefere ouvir o beat antes de criar a melodia e desenvolver a composição.
“É importante aproveitar esse momento em que as ideias fluem, deixando tudo sair naturalmente e depois lapidando aos poucos”, explicou a artista.
O sonho de viver da arte
Atualmente, Séta trabalha com atendimento ao público, mas sonha em se dedicar integralmente à carreira artística.
Para a rapper, Séta não é uma personagem, mas uma extensão de quem ela é. O nome artístico representa a fase em que espera viver exclusivamente da música, sem precisar dividir a rotina entre um emprego e a carreira artística. Ela acredita que a criação exige entrega total e vê a arte como uma forma de expressar sua espiritualidade.
Daqui a 10 anos, ela se imagina com a carreira consolidada, uma equipe estruturada e espetáculos que unem música, dança e outras linguagens artísticas, além de livros e novos projetos autorais.
“Eu também sou dançarina, e isso está inerente às minhas apresentações no palco. Penso muito na estrutura de um espetáculo, em trazer outros artistas, inclusiv, artistas circenses. Quero despertar uma energia que, de alguma forma, toque o interior de cada pessoa que estiver assistindo. É assim que eu me vejo.”
Primeiro EP amplia visibilidade
O EP Moeda, primeiro trabalho solo de Séta, conta com sete faixas produzidas pelo beatmaker baiano Pivo Flor, também artista independente. O projeto levou cerca de dois anos para ser concluído e marca uma nova fase na carreira da rapper. “Hoje eu ando na rua e alguém diz que me conhece. É surreal”, conta.
O projeto reúne elementos que representam sua identidade artística, misturando rap, dança Tribal Fusion e performance. “Esse EP é a base do que quero construir daqui para frente”, afirma a rapper.
Ao Acorda Cidade, Pivo Flor conta que conheceu o trabalho de Séta através do primeiro clipe lançado pela artista e que rapidamente percebeu autenticidade em sua forma de fazer música.
“Séta é o tipo de artista que, de cara, você entende que ela simplesmente é um fluxo criativo se expressando: arte sincera, forte e style acontecendo. Antes de conhecê-la, eu já era fã e continuo sendo. Trabalhar com ela sempre fluiu de forma muito fácil, porque existe entrega e a realização de uma vontade verdadeira”, afirmou o produtor.
Rap como resistência
Para o professor e pesquisador Laércio Santiago, o rap se consolidou como uma importante ferramenta de expressão social e construção de identidade, especialmente nas periferias.
“O rap é uma linguagem urbana, uma linguagem do povo periférico. Apesar das batalhas e das lutas, tem conseguido conquistar seu espaço para mostrar a luta e a história de um povo. Ele nasceu com esse propósito: ser uma música de resistência”, contou ao Acorda Cidade.

As letras, de acordo com Laércio, desempenham um papel essencial nesse processo por influenciarem, informarem e direcionarem quem escuta. Para ele, é importante que o público desenvolva um olhar crítico sobre as mensagens transmitidas pelas músicas.
O professor também explica que, apesar do crescimento do rap, os artistas independentes ainda enfrentam desafios em Feira de Santana. Segundo ele, faltam oportunidades, investimento e maior valorização da cultura hip-hop dentro das escolas.
“Se a gente for falar de modo geral, vemos algumas coisas acontecendo, mas em Feira de Santana, ainda é muito pequeno. Falta muita oportunidade, falta investimento e falta esse direcionamento dentro das escolas, principalmente porque o rap é oriundo da periferia. As pessoas se preocupam muito com a história, mas não têm consciência de que o rap também tem uma história.”
Para Laércio, o rap ainda provoca incômodo justamente por questionar as estruturas sociais. “O rap incomoda de uma forma muito positiva”, afirmou.
Para ele, o que faz uma música funcionar é a “expressão da alma”, capaz de transmitir as dores, as alegrias e as vivências de cada artista.
No Dia do Rap, histórias como a de Séta reforçam a força de um movimento que segue revelando artistas independentes na cena. Mesmo diante das dificuldades, em Feira de Santana, o gênero continua sendo um espaço de resistência e identidade, mantendo viva uma cultura que fortalece a expressão social.
Com informações da redatora Beatriz Rosado, do Acorda Cidade
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