
O julgamento dos réus acusados da morte do jovem Kauan Gomes Araújo de Souza, de 20 anos, que foi baleado por engano enquanto seguia para uma academia, foi suspenso. O Júri estava marcado para acontecer nesta quinta-feira (13), no Fórum Filinto Bastos, após quase dois anos do assassinato.
A suspensão ocorreu após o advogado de defesa de um dos réus entrar com um pedido, junto ao Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA), de desaforamento, que é quando uma das partes solicita a transferência do julgamento do Tribunal do Júri de uma comarca para outra da mesma região.
Neste caso, a alegação da defesa é que o crime causou grande comoção na cidade de Feira de Santana. No entanto, como o pedido ainda não foi julgado pelo TJBA, algo que está marcado para o dia 20 de agosto, o Tribunal do Júri do caso Kauan foi suspenso.

Espera aumento sofrimento, diz família
Muito abalada, a mãe do jovem, Samile Silva Gomes, disse esperar pelo indeferimento do pedido.
“Não tem cabimento, o crime foi cometido aqui. Meu filho é vítima, meu filho está no cemitério, enterrado. Ele não volta para me abraçar, me beijar, ele não volta para dizer que me ama. Então, eu espero, entendo a posição da juíza, respeito, mas a única coisa que eu peço é que tudo isso se encerre, porque a gente precisa ter esse ciclo encerrado também na vida da gente.”

A tia do jovem, Carine, contou que a família vivencia momentos terríveis e anseia para que o processo tenha um ponto final.
“Kauan não era bandido, era um jovem de 20 anos que vivia no seio da família dele. Ele era guardado, protegido e amado. Nunca levantou a mão sequer para um amigo, quanto mais para alguém para fazer tal delito, mas nós aguardamos a justiça, clamamos que isso ainda seja feito nesse ano, nós precisamos dar um ponto final nisso, há muito sofrimento para nós”, clamou a familiar.
Ela acrescentou que toda essa expectativa aumenta o sofrimento da família, sobretudo os parentes mais idosos.
“Nós aguardamos e convocamos o povo de Feira de Santana também, que tome a nossa dor, porque poderia ser cada um de nós que está aqui agora. Todos nós somos pais, somos mães ou temos um parente, nós fazemos esse clamor que a justiça seja feita. Agora é esperar até o dia 20 de agosto, onde o TJ Bahia vai julgar o pedido de desaforamento.”
Advogado espera imparcialidade do júri
O advogado de defesa Joary Wagner, que entrou com o pedido de desaforamento do julgamento, reiterou que a solicitação ao TJBA busca dar aos réus uma pena justa.
“Na verdade, como o fato, ele acontece ali em 2024 e de lá para cá todos nós sabemos que isso foi motivo de grande repercussão, chocou realmente a cidade de Feira de Santana e região. O pedido de desaforamento é justamente para que os acusados sejam julgados com imparcialidade, porque qualquer cidadão que senta no banco dos réus vai querer ter juízes imparciais para poder julgar”, justificou.
Na avaliação dele, a imparcialidade do Tribunal do Júri pode estar “contaminada.”
“Na atmosfera que está Feira de Santana, inclusive, como foi visto aqui no salão do Tribunal do Júri hoje, percebe-se que essa imparcialidade ela está, digamos, contaminada. Então o pedido da defesa é justamente para que desloque a competência, que saia de Feira de Santana, que o Tribunal de Justiça escolha qualquer outra cidade, para que os acusados tenham um julgamento justo. É o que nós queremos.”
O advogado de defesa Luciano Cruz, que atua na defesa do outro réu acusado no processo, enfatizou que a decisão de Joary foi certa.
“Realmente existe uma comoção muito forte aqui em Feira de Santana e com todo o respeito à família da vítima, que realmente nós prestamos nossos profundos sentimentos, mas essa comoção pode gerar uma parcialidade no julgamento.”
Promotores consideram pedido descabido
Em entrevista ao Portal Acorda Cidade, o Promotor de Justiça Antônio Luciano informou que vinha acompanhamento o pedido e lamentou a decisão do tribunal.
“É absolutamente descabido esse pedido de deslocamento do julgamento de Feira de Santana para outro local. O tribunal não julgou a tempo e cabe à juíza decidir. Nós respeitamos uma decisão de adiamento e nos preparamos para o próximo julgamento que se espera seja com a maior brevidade possível.”
A promotora de Justiça Marina Miranda salientou que recebeu a notícia da suspensão com frustração.
“O trabalho está todo pronto, é uma investigação excelente do Ministério Público. Esse processo teve uma celeridade incrível. O fato aconteceu em dezembro de 2014 e já ia ser julgado hoje. Eu só tenho a lamentar, infelizmente, e me solidarizar com a família da vítima.”
Segundo Marina Miranda, a suposição de que a comunidade feirense se abalou diante da repercussão do caso não é fundamento suficiente para desaforar um processo. “Uma morte como aconteceu a de kauan chocaria todos os seres humanos de qualquer lugar, independente da cidade onde vai ser esse julgamento.”
As informações são do repórter Aldo Matos do programa Nas Ruas e na Polícia.
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