
Uma mulher pode ser silenciada com uma ameaça, afastada da própria família, perder a autonomia financeira, ter a autoestima destruída ou sofrer uma agressão física. Em casos ainda mais extremos, a violência termina em feminicídio. O assassinato da jovem Raiana Silva dos Santos, de apenas 18 anos, morta após ser espancada com uma barra de ferro dentro da própria casa, em Itaberaba, no último dia 9 de agosto, expõe de forma brutal uma realidade que ainda precisa ser enfrentada diariamente.

É neste cenário que o Agosto Lilás, mês de conscientização e enfrentamento à violência contra a mulher, ganhou as ruas de Feira de Santana neste sábado (15). A OAB Subseção Feira de Santana, por meio da Comissão em Defesa dos Direitos das Mulheres, realizou a V Caminhada pelo Fim da Violência contra Meninas e Mulheres. A concentração aconteceu pela manhã, na sede da OAB Feira, próximo ao Fórum Desembargador Filinto Bastos.
A mobilização chegou à quinta edição chamando atenção da sociedade para assumir a responsabilidade no combate à violência.

“Infelizmente a cada ano a gente vê os dados aumentarem de violência e surge a necessidade de manutenção e de falar com toda a sociedade e convocar pessoas para participarem desse ato”, explicou Esmeralda Alana, presidenta da OAB Mulher.
A caminhada seguiu pelo centro da cidade, passando por locais como Senhor dos Passos e a Avenida JJ Seabra, levando informação justamente a quem estava trabalhando, fazendo compras ou circulando pela região.

Neste Agosto Lilás, o Portal recebeu a advogada durante uma conversa do Podcast do Acorda Cidade para discutir os discursos de ódio contra as mulheres. Durante a caminhada deste sábado, Esmeralda Alana reforçou que a violência contra a mulher não é assunto privado, não deve ser naturalizada e não pode terminar em silêncio.
“É um problema nosso, não é um problema particular de casa”, disse a advogada ao Acorda Cidade.

Todo tipo de violência deixa marcas
Trazendo um alerta, a advogada também destacou que nem sempre a violência deixa marcas visíveis. A agressão psicológica, por exemplo, tem crescido e pode permanecer escondida por muito tempo dentro de relacionamentos abusivos. Casos recentes de importunação sexual na cidade também reforçam o quanto é preciso que a sociedade reconheça a vulnerabilidade das meninas e mulheres dentro de casa e nos ambientes sociais.
“Além da violência física que a gente conhece, que a gente vê, que deixa marcas, nós temos infelizmente um aumento significativo da violência psicológica, é um dado sensível porque essa mulher, por vezes, ela não percebe que está sofrendo violência doméstica e familiar, porque ela acredita, ‘ah, ele nunca me bateu’, mas a violência psicológica, ela vem acontecendo aos poucos, vem minando a autoestima dessa mulher, vem tentando afastar essa mulher de toda a vida dela, com familiares, com amigos, para isolar essa mulher e mantê-la num ciclo de violência”, afirmou.
Para a psicóloga Lismara Moreira, que desenvolve o grupo Renascidas, o enfrentamento precisa começar antes que a violência se agrave. Ela destacou ao Acorda Cidade que não basta apenas punir o agressor. É necessário fortalecer as mulheres para que consigam reconhecer situações abusivas e reconstruir suas vidas.
“Eu percebo a necessidade, não só da lei que pune o agressor, mas de trabalharmos essas mulheres para que elas não se tornem vítimas. Precisamos pensar agora em promoção, prevenção, para que a mulher não se torne vítima, porque após ela se tornar vítima, acho que qualquer penalidade é mínima em relação aos danos que essa mulher tem para tem para toda uma vida”, relatou.
Segundo Lismara, entre as principais dificuldades enfrentadas pelas mulheres atendidas estão a dependência emocional e financeira. O trabalho psicológico, segundo ela, busca reconstruir a identidade e a autoestima dessas mulheres.

“Não dá pra esquecer, não dá pra deixar pra trás o que passou, mas aquela cicatriz ela vai virar de fato uma cicatriz e a gente vai continuar a vida a partir daquilo. Os danos não podem determinar o nosso futuro, precisamos construir uma nova história então é a partir disso que nós trabalhamos com essas mulheres, com renascidas, transformar a própria identidade, pra que nunca mais elas possam estar em um ambiente em que possam ser violentadas”, afirmou.
O atendimento do grupo Renascidas é gratuito e também pode ser realizado de forma on-line. A iniciativa busca oferecer suporte para que mulheres vítimas de violência consigam reconstruir a própria trajetória. Saiba mais nas redes do grupo @lismaramoreira.
Acolhimento para quem precisa recomeçar
Outra frente de atuação em Feira de Santana é desenvolvida pela ONG Eu Sou Todas as Mulheres, que acolhe vítimas de violência doméstica, psicológica e até de situações relacionadas ao tráfico humano.
De acordo com Ana Cláudia Carvalho, presidente da entidade, que também esteve na caminhada, muitas das mulheres atendidas chegam de outras cidades e até de outros estados porque não encontram apoio ou segurança onde vivem.

“São mulheres que são vítimas de violência, não só doméstica como psicológica e tipo um tráfico humano. São mulheres retiradas das suas cidades, dos seus estados, vem parar em Feira de Santana”, explicou.
Atualmente, 12 mulheres são assistidas pela ONG, mas a capacidade de acolhimento é limitada pelo espaço disponível. O trabalho é realizado de maneira sigilosa e em parceria com a rede de proteção.
“É um trabalho muito sigiloso, é um trabalho de parceria com a rede. E a gente faz com que essas mulheres se sintam em casa e a maioria não gosta de ir para casa de abrigo porque se sente deslocada e a gente traz a humanização para elas”, afirmou Ana Cláudia.
A entidade também anunciou uma ação de saúde mental para o dia 22, na Arena Jacaré, com o objetivo de mostrar às mulheres vítimas de violência que a vida pode continuar depois do trauma.

Denunciar pode salvar uma vida
Durante a caminhada, as participantes reforçaram a mensagem de que a mulher não está sozinha e que pedir ajuda pode ser o primeiro passo para romper o ciclo de violência. A sociedade também tem papel essencial nesse enfrentamento. Familiares, amigos, vizinhos e colegas podem acolher, ouvir e ajudar uma mulher a buscar proteção. Saiba como:
- Polícia Militar – 190: em situações de emergência ou quando a agressão estiver acontecendo. A equipe pode ser acionada imediatamente.
- Polícia Civil: a mulher pode registrar a ocorrência e relatar a situação de violência. Diante do risco, a autoridade policial poderá solicitar uma medida protetiva de urgência ao Poder Judiciário.
- Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam): as vítimas também podem procurar uma unidade especializada para registrar a ocorrência e receber orientação e encaminhamento.
- Ligue 180: canal de atendimento e orientação para mulheres em situação de violência, que também recebe denúncias e informa sobre a rede de proteção.
Com informações do repórter Ed Santos, do Acorda Cidade.
Leia também:
Secretaria da Mulher amplia ações de combate à violência durante o Agosto Lilás
VÍDEO: mulher denuncia importunação sexual após flagrar vizinho observando da janela
Misoginia, discursos de ódio e violência contra mulheres: onde termina a opinião e começa o crime?
Jovem morre após ser espancada com barra de ferro; suspeito é companheiro da vítima
Homem é investigado por importunação sexual em academia de Feira de Santana
Delegada pede que outras possíveis vítimas de investigado por importunação sexual procurem a polícia
Siga o Acorda Cidade no Google Notícias e receba os principais destaques do dia. Participe também dos nossos canais no WhatsApp e YouTube e do grupo no Telegram.

