23 de August de 2026
violência psicológica
Foto: Magnific

Humilhações, ameaças, controle, isolamento, chantagem emocional e desvalorização são algumas das formas de violência psicológica que podem comprometer a saúde de uma mulher. Embora não deixem necessariamente marcas aparentes, situações desse tipo podem provocar sofrimento intenso e, quando se prolongam, repercutir também no funcionamento físico do organismo.

No Agosto Lilás, mês dedicado à conscientização e ao enfrentamento da violência contra a mulher, Dulciana de Souza Lima, psicóloga da Hapvida, chama a atenção para um aspecto que costuma ficar em segundo plano: as consequências do abuso emocional para o cérebro e para o corpo.

“A ausência de hematomas ou ferimentos não significa ausência de sofrimento ou de consequências. A violência psicológica pode comprometer progressivamente a sensação de segurança, a autoestima e a percepção que a pessoa tem de si mesma”, explica.

Quando o medo e a tensão se tornam frequentes, o organismo passa a responder repetidamente aos estímulos que interpreta como ameaça. Esse estado de alerta pode interferir em funções como atenção, memória, concentração e regulação das emoções.

Segundo a especialista, uma mulher submetida a um ambiente de abuso pode apresentar lapsos de memória, fadiga mental, dificuldade para se concentrar, sensação de confusão e maior dificuldade para tomar decisões. “A pessoa pode permanecer mais focada em identificar e responder a possíveis ameaças, enquanto processos relacionados à atenção, à memória, ao planejamento, à avaliação de alternativas e ao controle emocional podem ficar prejudicados”, afirma.

As sequelas não ficam restritas ao campo emocional. Dores de cabeça, tensão muscular, alterações gastrointestinais, cansaço e problemas para dormir também podem surgir em decorrência do estresse prolongado. A ansiedade e as crises de pânico seguem a mesma lógica: diante da sensação persistente de perigo, o sistema de alerta do organismo permanece ativado com frequência.

A percepção da dor também pode ser modificada. “A exposição prolongada ao estresse pode aumentar a sensibilidade do sistema nervoso aos estímulos dolorosos”, explica Dulciana. Por isso, sintomas físicos persistentes precisam ser avaliados e não devem ser automaticamente atribuídos apenas a fatores emocionais.

Outro ponto que merece atenção é a dificuldade que algumas vítimas encontram para reconhecer o abuso ou deixar o relacionamento. De acordo com a psicóloga, episódios de agressão podem se alternar com demonstrações de carinho, pedidos de desculpas e promessas de mudança. Essa alternância pode alimentar a expectativa de que o comportamento do parceiro será diferente.

O quadro pode ser agravado por sentimento de culpa e pela percepção de que não existem alternativas. “Essa dificuldade não representa falta de força ou vontade, mas pode resultar de um processo psicológico complexo envolvendo pensamentos, emoções e comportamentos”, destaca.

Quando o sofrimento começa a interferir no cotidiano, nos relacionamentos, no sono ou na capacidade de tomar decisões, é indicado procurar ajuda profissional. O acompanhamento pode envolver psicólogo e psiquiatra, além de outras especialidades, conforme as necessidades apresentadas por cada paciente.

Familiares e amigos também podem perceber alguns sinais. Isolamento, mudanças de comportamento, medo excessivo, baixa autoestima e necessidade constante de aprovação ou permissão do parceiro são exemplos que podem despertar atenção.

Nessas situações, a orientação é oferecer escuta e acolhimento, sem pressionar a mulher a tomar uma decisão para a qual ainda não esteja preparada. Perguntas como “por que você não termina?” podem aumentar a culpa e dificultar a abertura para pedir ajuda. Em contrapartida, demonstrar disponibilidade e reforçar que ela não é responsável pela violência pode favorecer a construção de uma rede de apoio.

“Estou aqui para você”, “A culpa não é sua e você não está sozinha” são exemplos de frases que, segundo a psicóloga, podem ajudar a fortalecer a confiança e facilitar a procura por suporte.

Para Dulciana, reconhecer os efeitos desse tipo de abuso é também uma forma de ampliar o olhar sobre a violência contra a mulher. “A violência psicológica é uma questão de saúde, e não apenas um problema de relacionamento. Mesmo sem deixar marcas visíveis, ela pode causar impactos importantes na saúde mental e física”, conclui.

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